Descrição de chapéu Concreto Sem Fim

Moradora se nega a vender casa para construtora e fica ilhada por prédios em SP

Mulher recusou oferta acima do valor de mercado; imóvel daria lugar a espaço pet de edifício na Pompeia

Residência na Rua Barão do Bananal, na Pompeia, fica ilhada entre prédios por dona que não vendeu sua casa para construtoras

Residência na Rua Barão do Bananal, na Pompeia, fica ilhada entre prédios por dona que não vendeu sua casa para construtoras Danilo Verpa/Folhapress

Emilio Sant'Anna
São Paulo

Se tudo desse certo, e nada levava a crer que seria diferente, os 142 m² de área construída na rua Barão de Bananal, 275, a esta hora já estariam no chão. Restaria apenas um terreno de 324 m² à espera de se transformar em um amplo espaço pet —talvez com aquelas gramas sintéticas bem verdinhas.

A casa iria ao chão e o terreno se transformaria em local à disposição dos cães e gatos dos futuros moradores dos 19 andares do condomínio Barão 305, que está sendo erguido bem ao lado.

Não deu certo. O imóvel, de 1963, dividido em sala, dois quartos, dois banheiros, copa, cozinha e garagem para até dois carros continua de pé na simpática via de paralelepípedos na Pompeia, a um quarteirão da avenida de mesmo nome, na zona oeste de São Paulo.

Continua de pé, mas espremido.


O prédio com apartamentos cujo metro quadrado ultrapassa os R$ 11 mil completou o cinturão de arranha-céus que tornou a casa uma espécie de ilha com apenas um pavimento. À direita, à esquerda e ao fundo, quatro edifícios roubaram qualquer possibilidade de horizonte. Resta a frente, de onde se avistam dois predinhos que, se não chegam a obstruir a luz do sol, tampouco facilitam.

Ainda assim, Jane Fernandes, 50, respira aliviada. Moradora da casa que quase se transformou em espaço para cachorros, ela foi voz dissonante na família quando a construtora Paulo Mauro fez uma oferta pelo imóvel; segundo a empresa, em um valor “superior aos concretizados com os outros proprietários”.

Recepcionista de um motel na marginal Tietê, a mulher diz que sua mãe, uma senhora de 89 anos, e seu irmão queriam aceitar a proposta.

Caso cedessem, a deles seria a sexta casa derrubada para a obra. Jane bateu o pé e o negócio travou.
Não era questão de dinheiro, apesar de ela, assim como a construtora, não revelar o valor oferecido à família.

Tampouco era questão de ser contra a construção de mais um prédio no bairro que vê a verticalização se expandir rapidamente. Ela não tem nenhum problema com isso. “Pra mim não faz diferença”, diz.

O que Jane queria mesmo era apenas continuar ali, mais nada. Nem a sombra causada pelos prédios ou o barulho da obra ao lado parece incomodá-la. “Antes batia sol na garagem, mas, como eles [a construtora] colocaram uma cobertura por causa da sujeira, não bate mais. Mas no quintal ainda bate muito sol”, insiste. 

Sobre a sujeira que vez por outra a construção causa em sua casa, ela dá de ombros. “Desde que eles façam as ‘artes’ deles e venham recolher...”, diz.

Jane continua morando com o marido, um sobrinho e a mãe no imóvel. 

Se está tudo certo para ela, o mesmo não se estende a todos no bairro. Um grupo se opõe à aparente inevitabilidade da verticalização local. O Preserva Vila Pompeia reúne moradores que se articulam contra o avanço de novos empreendimentos na área.

Os efeitos desse processo são claros: além de modificar as características originais da vizinhança, novos edifícios significam mais e mais moradores e o consequente aumento do fluxo de veículos, como ocorre na Barão de Bananal. 

Apesar de regulado pelo Plano Diretor, aprovado em 2014, o modelo desagrada a quem se vê em meio ao adensamento de áreas próximas de corredores de ônibus e estações de metrô. 

A Pompeia faz parte do distrito de Perdizes, onde a relação entre casas e apartamentos é de aproximadamente uma para cinco, de acordo com dados da Prefeitura de São Paulo. 

“Perdi a conta do número de audiências públicas a que fui. Tentamos combater uma série de coisas como, por exemplo, a construção do [condomínio] Jardim das Perdizes. Fizeram sem nem ao menos ter um plano de impacto na região”, diz a designer Cláudia Carminati, uma das fundadoras do Preserva Vila Pompeia.  

Na mesma rua de Jane, há outra casa —esta, um sobrado dividido em quitinetes— também ladeada por prédios, o que mostra que situações como a dela não são tão incomuns. 

O medo de quem é contrário ao adensamento de áreas residenciais, principalmente em miolos de bairros, é que isso se torne cada vez mais frequente. Em 2018, ainda durante a gestão de João Doria (PSDB) na Prefeitura de São Paulo, uma alteração na lei de Parcelamento, Uso e Ocupação do Solo, conhecida popularmente como lei do zoneamento, foi ensaiada pela administração municipal. 

A justificativa de Doria era a de que a lei precisava passar por ajustes à realidade atual e que os investimentos do setor privado têm sido enfraquecidos pela crise econômica no país.

Entre as principais propostas estava a possibilidade de acabar com limite de altura de prédios em ruas pouco movimentadas. Atualmente, o limite é de 28 metros —o que corresponde a cerca de oito andares— em vias no miolo dos bairros e afastadas dos eixos de transporte público.

A medida afetaria bairros de perfil mais horizontal, com predominância de casas e casarões, como a Vila Mariana e a Aclimação.

O projeto não foi para frente na ocasião, mas deve ser reenviado para a Câmara Municipal ainda neste ano.

Seja qual for o resultado, não irá alterar em nada a disposição de Jane de permanecer no mesmo lugar, na mesma casa. Ali, pelo menos, parece não haver mais espaço para outro prédio. 

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