Descrição de chapéu
Alalaô

São Clemente tira sarro de tudo que tá aí e Salgueiro emociona com palhaço negro

Primeira escola a desfilar fez de sua bateria um laranjal e falou dos trambiques nos quais o brasileiro cai

São Paulo

Nem só de exaltação do Brasil vive o Carnaval. É bem verdade que, ao fim de quatro noites de desfiles televisionados —seja de São Paulo e Rio ou apenas grupo A e especial cariocas— já se pode estar convencido do quão maravilhosas são as nossas florestas e o quão importante são as nossas tradições, mas ainda há escolas que querem mais é enfiar o dedo na ferida.

Depois de a Mangueira  apontar o racismo do cotidiano do país na Sapucaí, a noite de segunda foi a hora de a São Clemente mostrar como os brasileiros enganam uns aos outros. O samba enredo já mostrava que não haveria clemência e a primeira escola da noite teve bateria laranjal, carro alegórico de fake news, ala com a grávida de Taubaté e outra chamada "Férias em Bangu", além de Marcelo Adnet, um dos compositores do ano, vestido de Bolsonaro fazendo arminha com a mão.

O ator Marcelo Adnet, um dos compositores do samba da escola, no carro alegórico da São Clemente como presidente Bolsonaro - Julio Cesar Guimaraes/UOL

O samba da escola de Botafogo era fácil de cantar e envolvente, o que ajudou a captar a atenção do público e do espectador —obrigado a assistir na TV depois de todos os outros— para um desfile que buscava o riso.

E foi só na sátira que o desfile se deu, rindo dos truques mas também dos que caem neles. As fantasias eram alegres e os carros traziam trambiques como a venda de terrenos na Lua, no céu ou as fake news, este encabeçado por um enorme Pinóquio. 

Depois de tanto engajamento foi duro engolir a Unidos de Vila Isabel falando de Brasília com um enredo que criou uma fábula indígena quase impossível de entender. A escola foi ela mesma vítima de um conto do vigário e não recebeu o patrocínio prometido pelo governador do Distrito Federal. Mas teve de ficar com o enredo insosso.

O circo, tema perfeito para desfiles de escola de samba por ser visualmente rico, tomou conta do Salgueiro. A terceira escola contou a história quase desconhecida de Benjamim de Oliveira, o primeiro palhaço negro do Brasil, que também era músico, compositor e dramaturgo.

O vermelho e branco da agremiação do Andaraí ornou perfeitamente com os toldos de circo. O samba poético e o fato de quase todos os componentes estarem de rostos pintados como palhaços fez do momento um dos mais emocionantes da noite, que também falou da importância de outros artistas negros do país em alas e carros.

A segunda noite do grupo especial teve ainda uma Unidos da Tijuca meio apagada tratando de arquitetura, como a roupa de um dos integrantes da comissão de frente, que não acendeu suas luzes. Paulo Barros, carnavalesco que está de volta à escola, não deu sorte. Em São Paulo, pela Gaviões, a roupa da comissão também teve problemas.

Um dos mais esperados do ano era o desfile da Mocidade Independente de Padre Miguel, dedicado a Elza Soares, cantora que é do bairro da zona oeste carioca. Mas nem um dos sambas mais bonitos do ano, composto, entre outros, por Sandra de Sá, deu conta da expectativa que nutriu o fã de Carnaval. O desfile foi morno, mais para sem graça.

A Beija-Flor encerrou a noite com carcaças de carro no abre-alas de um enredo que falaria da rua. Pouco motivador como tema, rua como espaço público é um assunto fácil de desenvolver, o que a escola conseguiu sem muita originalidade mas com um luxo passadista. Nada memorável.

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