Em Manaus, reintegração de posse joga centenas de famílias na incerteza

Moradores vão de uma residência precária numa das capitais mais pobres do país

Manaus

Uma indígena que improvisou uma floricultura no quintal e agora não sabe o que fazer com as plantas. Uma sobrevivente do terremoto no Haiti que ficou soterrada por três dias que agora vê a casa demolida no Brasil. Uma jovem de 18 anos com gravidez de risco impedida de ir ao médico.

Iniciada na segunda-feira (2), a reintegração da invasão Monte Horebe, a 24 km do Teatro Amazonas, no centro de Manaus, lançou ainda mais incertezas nas vidas de centenas de famílias que moram uma das capitais mais pobres do país, reflexo de uma taxa de desemprego acima da média.

Com uma população estimada em 2,2 milhões de habitantes, Manaus registra a maior taxa de desocupação entre as capitais, alcançando 16,9% no último trimestre de 2019, contra 11% da média nacional.

O rendimento domiciliar per capita do Amazonas ficou em R$ 842,08 em 2019. É inferior ao salário mínimo do ano passado (R$ 998) e bem abaixo da média nacional, de R$ 1.438,67. Todos os dados são do IBGE.

Ironicamente, Monte Horebe se viabilizou graças ao maior projeto do Minha Casa Minha Vida (MCMV) do país. Inaugurado em 2014 pela então presidente Dilma Rousseff (PT), tem cerca de 50 mil moradores em 8.855 unidades, entre casas e apartamentos. Várias das unidades já apresentam problemas estruturais, apesar do pouco tempo de construção.

Como tem sido a praxe do MCMV, o conjunto foi erguido no limite da cidade, onde os terrenos são mais baratos. A chegada da estrutura urbana em uma área antes desabitada possibilitou a invasão Monte Horebe. O processo teve início no mesmo ano, tomando áreas particulares e parte da Reserva Adolpho Ducke, uma floresta urbana de 10 mil hectares.

Investigações do Departamento de Repressão ao Crime Organizado (DRCO), da Polícia Civil, apontam que o comércio de terrenos Monte Horebe tinha participação do tráfico de drogas aliado a policiais militares.

“Em 2019, nós nos deparamos com uma organização criminosa estabelecida e organizada para fazer tanto a venda inicial do terreno como a cobrança das parcelas da manutenção da água, da luz e da segurança”, afirma o delegado Sinval Barroso, diretor do DRCO.

Barroso diz que o controle das invasões é feito por jovens de baixa escolaridade com problemas familiares. Envolvidos com o tráfico, muitos também se tornam usuários de drogas e morrem de forma violenta ou acabam presos.

Segundo as investigações, entre os principais envolvidos na invasão estão um tenente da Cavalaria da PM, afastado e condenado, e Dulcinéia Ramos, 51, a ‘Baiana’. Em outubro, ela e seu filho Yuri, de 19 anos, foram decapitados por uma facção rival. O crime, ocorrido a cerca de 2 km do Monte Horebe e gravado em vídeo, circulou em Manaus via mensagens de celular.

Desde segunda-feira (2), os moradores trocaram a convivência com o narcotráfico pela Polícia Militar, que armou um cerco na região. Moradores do Viver Melhor que chegavam do trabalho eram impedidos de voltar às suas casas. No primeiro dia, houve uso de spray de pimenta pela Tropa de Choque.

Na semana passada, a reportagem da Folha esteve no local durante três dias. Presenciou escavadeiras destruindo barracos supostamente desabitados, comércios e igrejas pentecostais. (Apesar do discurso do papa Francisco de priorizar pobres e Amazônia, a presença católica ali é zero.)

O acordo para a reintegração de posse prevê que as famílias saiam até 15 dias após a assinatura de um acordo individual, pelo qual terão direito a um aluguel social de R$ 600 por mês por seis meses, prorrogáveis por mais seis meses.

Na prática, o corte de água e de luz, o fechamento dos comércios e a truculência policial estão acelerando a saída dos moradores antes do recebimento da primeira parcela. Sem dinheiro para aluguel, a solução vem por meio de parentes, das igrejas ou dividindo um imóvel entre várias famílias.

Nesta terça (10), todas as famílias receberão o primeiro mês, assegura o governo.

A imprensa teve dificuldades para cobrir a reintegração, principalmente no início. Barrada por PMs no primeiro dia, a reportagem da Folha teve de andar a pé pela mata para chegar ao local da reintegração. O governo do Amazonas, do ex-jornalista Wilson Lima (PSC), só permitia o acesso em percurso dentro de um ônibus, sem desembarque.  

Na quinta-feira, o repórter fotográfico Edmar Barros foi impedido por um policial de tirar fotos do secretário de Segurança Pública, o coronel Louismar Bonates, que estava no Monte Horebe para acompanhar a reintegração.

Muitos moradores já deixaram o local, quase inabitável por falta de água e comida. A maioria está pagando o próprio frete para não estragar os pertences —um dos caminhões fornecidos pelo governo estadual é uma caçamba de lixo. Além disso, o transporte estatal proíbe levar telhas e outros materiais de construção.

Terminada a identificação de todos os barracos, o governo contabilizou 2.340 imóveis com famílias morando no Monte Horebe. Dessas, 2.204 assinaram o termo de acordo proposto pelo governo estadual, com aval da Defensoria Pública. Cerca de 1.400 imóveis foram demolidos por supostamente não ter qualquer pessoa residindo.

Neide Farias, 46

A moradora Neide Maciel Farias (46) durante o 4º dia de reintegração de posse da invasão Monte - Edmar Barros/Futura Press/Folhapress

Na manhã de quinta-feira (5), a indígena Neide Farias desenterrava cuidadosamente parte de suas centenas de plantas do jardim. "Eu já empacotei pra salvar algumas delas, mas não tenho onde colocar. O meu sonho está acabando, porque tenho de me desfazer delas”. Entre as que ficarão para trás estão flores de diversas cores, pés de mandioca, cactos e plantas ornamentais de jardim.

“Eu estava preparando as flores pra vender no Dia das Mães. Tem as bananeiras de jardim, olha. Ela está assim, feia, porque as plantas sentem, sabia? Elas estão muito tristes”, diz, com a voz embargada e lágrimas nos olhos.

Farias foi criada na comunidade indígena no rio Negro, perto de Novo Airão (AM). Não sabe qual é a sua etnia, mas diz ter orgulho de ser indígena. Mora na ocupação desde abril do ano passado junto com o marido, também indígena, e o filho.

Os dois estão desempregados. O ganha-pão são duas camas elásticas e uma piscina de bolinhas que o casal monta em áreas públicas. O preço é de R$ 3 por 15 minutos.

Neste domingo (8) a família se muda para casa cedida por uma irmã da igreja, no bairro Nova Israel. “Não temos luz nem água para beber. Vamos ficar lá até o dinheiro do aluguel cair.”

“Vou pagar o frete. Se eu usar o caminhão do governo, eu me sentirei mais humilhada. Vou pagar com o dinheiro que eu não tenho”, diz Farias.

Francile Durandise, 50

A reportagem encontrou a haitiana andando a passos rápidos em direção ao barraco, onde mora com três filhos. Desempregada, será a segunda vez que terá sua casa destruída em dez anos —em 2010, conta, ela ficou soterrada por três dias após o terremoto. No pé direito, uma cicatriz a lembra diariamente da tragédia.

Durandise é de Leogane (a 50 km de Porto Príncipe), a cidade mais devastada pelo terremoto que arrasou o país mais pobre das Américas—90% das construções desabaram. Está em Manaus há nove anos. "Estou muito triste. Isso machuca", diz sobre o despejo.

O Monte Horebe tem um setor inteiro em que predominam famílias haitianas, algumas já com filhos brasileiros. Eles vieram a Manaus atraídos principalmente pelos trabalhos em torno da Copa-2014. Hoje, com a crise, é comum encontrá-los como ambulantes nas ruas da cidade.

Zélia de Oliveira, 42, e Rebeca, 18

Mulher vestida de rosa observa na porta de barraco de madeira em chão de terra batida uma escavadeira que remove partes de barracos a cerca de 20 metros de distãncia
A desempregada Zélia de Oliveira, 42, observa escavadeira destruir barraco vizinho ao seu, na invasão Monte Horebe, em Manaus. - Fabiano Maisonnave/Folhapress

A desempregada Zélia de Oliveira morava no Monte Horebe com a filha, Rebeca, havia dois anos. Há quatro meses, a jovem parou de trabalhar em uma lanchonete por causa da gravidez de risco. Por recomendação médica, não anda de moto ou ônibus.

Na quinta-feira, a escavadeira começou a destruir os barracos da sua rua. Enquanto a casa vizinha era destruída, um PM abriu a porta e pressionou para que as duas saíssem do barraco de um cômodo onde viviam.

“Eles queriam que a gente tirasse as coisas para derrubar. Nós não tínhamos pra onde ir. O policial falou pra providenciar o mais rápido possível. Aí o cachorro quis olhar pra ele, e ele disse pra ela segurar para não precisar atirar nele.”

Nervosa, a filha começou a passar mal. Ela já havia perdido duas consultas médicas na semana anterior: no início da reintegração, a PM não permitia a volta de quem saísse, e os motoristas de aplicativo estão proibidos de passar.

Sem água nem luz, na sexta-feira, as duas se mudaram na sexta-feira para uma casa cedida pela Igreja Vale da Decisão. Dividem o imóvel com quatro famílias despejadas, das quais duas são de imigrantes venezuelanos.

Ela diz que não dá para alugar uma casa antes de receber o benefício do governo, que deve começar a ser pago nas próximas semanas. “Quem vai alugar fiado?”  

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