Descrição de chapéu Coronavírus

Cemitério amplia área para receber mortos pela Covid-19 no Recife

Estado tem UTIs lotadas e médicos sobrecarregados e sem experiência com cuidados intensivos

Recife

“É tudo muito rápido. Morreu no hospital, joga o corpo em uma bolsa, coloca dentro do caixão e enterra. Nem olhei o rosto dela. Não tem muito o que falar. É um vazio. Nem animal merece isso”, diz Emerson Francisco da Silva, 45.

Sem velório, a mãe dele, a aposentada Josefa Jaci da Silva, 80, foi enterrada no domingo passado (19), no cemitério Parque das Flores, em uma das 500 covas abertas para vítimas da Covid-19 no Recife.

O protocolo, necessário para minimizar novas contaminações, é duro. Acentua ainda mais o sofrimento. Entre a confirmação oficial de que Josefa tinha falecido e o sepultamento foram apenas quatro horas.

Velório no cemitério Parque das Flores, em Recife; funcionários usam máscaras
Cemitério Parque das Flores, no Recife, antecipou ampliação em razão das mortes decorrentes do novo coronavírus - Emlurb/Divulgacao

“A pessoa fica perdida. Quando você sabe onde vai ser o enterro, aqui é a cova, o velório, um tal horário para sepultar, é diferente. Não tive tempo e nem o direito de resposta. Só lamentações e dor”, desabafa Emerson, que trabalha como comandante da Marinha Mercante.

Pernambuco enfrenta o sufocamento do sistema de saúde. O caso de Josefa serve para ilustrar a situação dramática. No dia 4 de abril, ela teve uma queda em casa. Fraturou o fêmur e precisou ir para a UPA (Unidade de Pronto Atendimento).

Aguardou três dias até ser transferida para um hospital público da rede municipal de Jaboatão dos Guararapes. “Ela fez os procedimentos para a cirurgia e, lá, teve uma pneumonia”, conta o filho. No dia 14, apresentou falta de ar, muita tosse e foi entubada. “Ficamos sabendo que o teste dela para Covid-19 tinha dado positivo.” Josefa morreu cinco dias depois.

A guerra é sempre mais dura para quem precisa de um hospital público. “Estamos no limite.” A frase é repetida diariamente pelas autoridades sanitárias pernambucanas.

O estado enfrenta problemas de UTIs lotadas, médicos sobrecarregados e sem experiência técnica com cuidados intensivos, falta de alguns EPIs (Equipamentos de Proteção Individual) e ainda registra 1.193 profissionais de saúde afastados por terem contraído o novo coronavírus.

Pernambuco tem, de acordo com o boletim desta quinta-feira (23), 3.604 testes com resultado positivo para a Covid-19 e 312 óbitos em decorrência do novo coronavírus.

Ocupa o terceiro lugar em número de mortes no Brasil, ficando atrás apenas de São Paulo e Rio de Janeiro. Recife concentra 58% dos casos.

Diante do quadro de sufocamento do sistema, com 98% dos 327 leitos de UTIs para pacientes com síndrome respiratória aguda grave ocupados na rede estadual e uma escalada de mortes, os dois maiores cemitérios do Recife se prepararam para receber os mortos.

O cemitério de Santo Amaro reservou uma quadra inteira. No Parque das Flores, a ampliação que estava prevista foi antecipada com a abertura das covas comuns.

Funcionários com equipamento de proteção abrem cova no Cemitério Parque das Flores, no Recife
Funcionários abrem cova no Cemitério Parque das Flores, no Recife - Emlurb/Divulgação

No interior, a situação é ainda mais difícil. A enfermeira Williane Lins dos Santos, 30, morreu no dia 17 de abril, em um hospital público da rede estadual, em Vitória de Santo Antão, distante 53 km do Recife, antes de conseguir uma vaga na UTI (Unidade de Terapia Intensiva). A confirmação para Covid-19 só veio quatro dias depois.

A fisioterapeuta Maria Soares, 49, mãe de Williane, diz que a filha morreu porque não conseguiram transferi-la para uma UTI na capital pernambucana. No início de abril, ela, que trabalhava numa unidade de saúde pública, começou a se queixar de uma faringite. No dia 10, teve tosse e cansaço.

Após ser atendida no hospital público João Murilo, no dia 12 de abril, foi medicada e liberada para voltar para casa. Sem conseguir respirar direito, retornou ao hospital no dia 16 e ficou isolada numa enfermaria logo pela manhã.

“Às 8h30, fui informada de que já tinham solicitado uma vaga na UTI. Bateu 16h e nada. Já era um absurdo. Eu sem ter contato com minha filha e sem conseguir vê-la”, diz a mãe.

Às 22h, conta que recebeu a informação de que haviam conseguido uma vaga de UTI para ela no Recife. “Ela morreu às 23h45 no mesmo lugar. Minha filha tinha 30 anos e tudo para ser salva. Morreu por falta de atendimento. Minha neta tem seis anos. Estou chorando escondida dela.”

A Secretaria Estadual de Saúde de Pernambuco diz que a paciente deu entrada no hospital no dia 16 e apresentou piora no quadro no dia seguinte, quando foi solicitada à Central de Regulação de Leitos uma vaga na UTI.

“O leito foi disponibilizado ainda na noite do mesmo dia em um hospital privado. Infelizmente, a paciente teve uma piora súbita antes que fosse possível realizar a transferência”, informa a nota oficial.

Uma médica com 15 anos de experiência, sendo 8 deles em UTI, ouvida pela Folha, relata que a batalha para quem precisa de hospitais públicos é sempre mais dura.

Ela atua em hospitais da rede pública e privada de Pernambuco. “No particular, os pacientes chegam mais cedo. As chances são maiores. No SUS, ficam nas UPAs [Unidades de Pronto Atendimento] sem conseguir chegar ao hospital. Quando chegam, já estão em estado muito grave. Termina que morre mais gente por causa disso”, diz.

A médica relata uma situação de guerra. Conta que, apesar dos esforços, não há gente suficiente para trabalhar. Diz que muitos profissionais médicos sem experiência em UTI foram convocados.

“É uma situação de guerra. Tem que ir todo mundo mesmo. Quem é da especialidade está se desdobrando. Recebo telefonemas todos os dias de médicos perguntando como fazer”, conta.

Ela diz que os médicos que nunca trabalharam em UTI precisam lidar com situações técnicas consideradas simples para quem é da especialidade. “Tem que botar mesmo esse pessoal. Falta mão de obra qualificada no sentido de ser a especialidade das pessoas. Não tem equipe pra trabalhar, não tem médico, não tem enfermeiro”, diz.

A médica relata que, diante da falta de equipamentos e avanço da doença, já há o início de discussões técnicas no estado sobre utilização do mesmo ventilador para dois pacientes.

“Há um problema também que não conseguimos fechar escalas direito. Gente afastada porque adoeceu, enfermeiro, médico, fisioterapeuta. O povo que adoeceu chega para trabalhar, e novos doentes vão sendo afastados.”

O governo estadual informou que, para garantir esta expansão dos serviços dedicados à Covid-19 e reforçar os plantões, contratou, por meio de concurso público e seleções, 5.016 profissionais de saúde, sendo mais de 700 médicos.

“Nós também garantiremos, a mobilidade interna, ou seja, o recrutamento da segunda linha. Os profissionais que estavam atuando em ambulatórios, nas situações eletivas, passarão a ser convocados para a linha de frente”, afirmou o secretário de Saúde de Pernambuco, André Longo.

Há ainda a ausência de alguns EPIs. De acordo com o secretário, a maior dificuldade é conseguir aventais impermeáveis com a gramatura necessária para proteção eficaz daqueles que atuam na linha de frente.

O governo diz que já foram adquiridos e entregues às unidades da rede hospitalar mais de 9 milhões de unidades de EPIs. Destes, foram mais de 1 milhão de máscaras cirúrgicas e quase 200 mil de máscaras N95.

A Prefeitura do Recife montou, até agora, cinco hospitais de campanha. Há 305 leitos prontos para receber pacientes, sendo 70 de UTI. Até a manhã desta quarta-feira (22), havia 43 pacientes nas UTIs e 91 pacientes nas enfermarias criadas pela prefeitura para pacientes com Covid-19.

O Plano Municipal de Contingência Covid-19 prevê um total de sete hospitais de campanha no Recife, com cerca de 1.200 leitos para pacientes infectados pelo novo coronavírus, sendo cerca de 400 leitos de UTI com respirador e 800 de enfermaria.

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