'No começo, eu nem sabia que estávamos de quarentena', diz Tom Zé

Cantor relembra tempos de isolamento autoimposto na infância em Irará

São Paulo

O cantor e compositor Tom Zé, 83, tem se lembrado muito da sua juventude no pequeno município baiano de Irará.

Em razão do que descreve como uma incapacidade de viver socialmente, ele experimentava uma quarentena autoimposta. Saía do trabalho na loja do pai e se trancava, sozinho, na biblioteca da família, construída pelos tios comunistas.

Foi nessa época que enriqueceu seu repertório cultural e se apaixonou por obras como “A Montanha Mágica”, do alemão Thomas Mann (1875-1955).

“Passei a ter um tipo de intimidade com a cultura que ninguém tinha na minha idade”, recorda.

Já o distanciamento social imposto pela pandemia do novo coronavírus traz sentimentos não tão felizes. “Tem um peso diferente. Sinto que a obrigação de não poder sair dá um redemoinho na gente, um mal estar, uma angústia.”

O cantor baiano mora há mais de cinco décadas na capital paulista. Divide um apartamento no décimo andar de um prédio em Perdizes, na zona oeste, com a esposa e empresária, Neusa Martins, 79, com quem acabou de completar 50 anos de casamento.

Por trabalhar em casa, conta que demorou a entender como seria a nova rotina. “Nas quatro primeiras semanas, eu nem sabia que estávamos de quarentena”, diz o cantor, que está desenvolvendo um novo projeto sobre o qual prefere não dar detalhes.

Tom Zé acorda cedo, antes das 5h. Pula o café da manhã, prefere o almoço. Acompanha os jornais, mas se incomoda com certos assuntos da política nacional que o fazem querer “se descolar da nação”.
O trabalho ocupa longas horas do dia. “Sou muito trabalhador, não sou gênio”, afirma.

Na rotina diária, teve de abrir mão das idas frequentes à padaria e ao mercado próximos de sua casa. Mas, às vezes, “acende um pouco de rebeldia”, revela Neusa.

Houve um dia no qual Tom Zé, em busca de um colírio, foi a seis farmácias diferentes. “Eu fiquei horrorizada, ainda mais agora com a pandemia”, diz ela.

O cantor também nutre saudades das aulas de tai chi chuan e das sessões de terapia aquática.

Continua com os exercícios em casa, por duas horas diárias, quando mistura alguns movimentos das práticas que aprendeu. Ele afirma que as atividades físicas junto à dieta macrobiótica que mantém são as responsáveis por sua vitalidade e bem-estar.

Também sente falta de ir ao teatro e ao cinema, momentos que compartilha com a esposa, “a pessoa culta da casa”.

As saídas hoje se restringem a consultas médicas. As idas ao supermercado são feitas por Neusa.

Nas últimas semanas, ele participou de lives e disse que se sente confortável com a migração para esse formato digital.

O que o angustia hoje vai além do momento da pandemia. “A coisa que mais me preocupa é a situação de desgovernabilidade do país, a ignorância sendo cultivada como uma grande arte”, afirma.

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