Descrição de chapéu Escola do Futuro

Volta à sala de aula será híbrido entre presencial e online

Para especialistas, pandemia trouxe aprendizagens que devem ser incorporadas no funcionamento das escolas

São Paulo

O retorno às salas de aula não pode esperar o surgimento de uma vacina e, enquanto a imunização coletiva não é realidade, as escolas precisam adotar protocolos rígidos de higiene e pensar num sistema híbrido de ensino, com atividades presenciais e online.

Essa é a visão dos especialistas que participaram do seminário Escola do Futuro, nos dias 6 e 7 de julho. O evento, realizado online pela Folha, foi patrocinado pelo SAS Plataforma de Educação. A mediação foi da jornalista Laura Mattos, colunista da Folha.


Veja o vídeo do debate abaixo.


Como pontuou Claudia Costin, ex-diretora de educação do Banco Mundial, a logística de retorno às escolas será complexa uma vez que, mesmo com o achatamento da curva, o risco de contaminação ainda existirá. “Vamos tomar cuidados sanitários imensos, entre eles, dividir as turmas, adotar rodízio de alunos e caminhar no sentido de um ensino híbrido construído com base no que se aprendeu na pandemia.”

Dentro da nova lógica descrita por Costin, Mozart Ramos, do Instituto de Estudos Avançados da USP de Ribeirão Preto, afirma que estamos diante de um novo conceito de estudante. “Vamos ter o aluno de tempo integral: em um período, ele vai estudar na escola e, no outro, fará um conjunto de atividades não-presenciais, mas articuladas com aquelas feitas na escola. A integração vai ser o futuro.”

Mozart também é membro do CNE (Conselho Nacional da Educação), órgão colegiado ligado ao Ministério da Educação, que tem atribuições normativas e deliberativas. O conselho vem assumindo protagonismo na definição de orientações para as redes de ensino. Na terça-feira, dia do segundo debate do seminário, deliberou um parecer com diretrizes que orientam a volta às aulas. São recomendações, já que os estados têm autonomia para decidir.

A jornalista Laura Mattos faz a mediação de debate do seminário Escola do Futuro, promovido pela Folha
A jornalista Laura Mattos faz a mediação de debate do seminário Escola do Futuro, promovido pela Folha - Keiny/Andrade

Mozart explica que foram colocadas grandes diretrizes porque o país é desigual e cada estado está em uma situação diferente, o que impede a adoção de uma norma única. “Entendemos que é melhor dar mais autonomia e atender a necessidade de todos.”

O documento recomenda que escolas evitem a reprovação dos estudantes, sugere a possibilidade de aumentar os dias letivos do calendário escolar de 2021 e prevê flexibilidade para escolas particulares e públicas. “As privadas têm mais estrutura para voltar e problemas contratuais concretos para levar em consideração”, afirma Mozart

Pesquisa do Datafolha, que ouviu 2.016 pessoas de todo o país nos dias 23 e 24 de junho, mostrou que 76% dos brasileiros acreditam que as escolas devem continuar fechadas nos próximos dois meses. Em todas as faixas etárias e de renda, e em todas as regiões do país, a maioria da população defende que as aulas presenciais ainda não sejam retomadas.

Em São Paulo, a previsão de retomada é 8 de setembro, desde que todo o estado esteja durante pelo menos 28 dias na fase amarela do plano de reabertura —a terceira, de um plano de cinco fases, que permite funcionamento de bares, restaurantes e salões de cabeleireiros, comércio de rua, shoppings e escritórios.

No país, quase todas as escolas estão fechadas. Em Manaus, algumas particulares retornaram às atividades na segunda-feira (6). Na Creche Escola Bebê Bombom, 73% dos alunos compareceram às aulas —as turmas foram divididas pela metade e os funcionários usam um aparelho para aferir a temperatura corporal das crianças, que têm entre três meses e seis anos.

O prefeito de Duque de Caxias (RJ), Washington Reis, publicou um decreto que permitia o retorno da rede privada mas, na quarta-feira (7), a Justiça suspendeu a decisão.

O diretor de ensino e inovações educacionais no SAS, Ademar Celedônio, chamou a atenção para o risco de haver um aumento da desigualdade, já que algumas escolas particulares têm mais condições de fazer um retorno seguro. Ele citou Singapura como um bom exemplo, onde escolas ficaram abertas para estudantes cujos pais trabalham em serviços essenciais e não podiam ficar em casa.

Foi consenso entre os convidados de que o país carece de uma liderança e que falta diálogo entre as duas pontas mais importantes nesse processo: os ministérios da Educação e da Saúde. “A gente não tem uma coordenação estrutural no país. Começamos a ver a reabertura de escolas em algumas regiões do país e até nos perguntamos se está na hora mesmo de voltar”, afirma Ademar.

Mozart adotou a mesma linha: “Esperamos que tenhamos um ministro da Educação que tenha paz para trabalhar sem ser atrapalhado pela ala ideológico do governo atual.”

Fábio Aidar, diretor do Colégio Santa Cruz, que tem 3.200 alunos (2.600 no diurno e 600 no noturno) em São Paulo, alerta para a necessidade de dar atenção ao aspecto socioemocional. “Vamos cuidar da motivação dos alunos, retificar se o estudante ficou defasado ao acompanhar a aula no ambiente virtual.”

Aidar diz que estudos mostram que a diferença entre os alunos com melhor e com pior desempenho tende a aumentar numa situação de aulas remotas. Apesar das perdas, o diretor busca ser otimista ao pensar nos aprendizados e na criatividade dos professores e das instituições para dar continuidade às aulas. “A escola se aproximou das famílias, coisa que não tínhamos no passado, educadores ficaram mais colaborativos, houve trocas entre as escolas, tudo ficou mais solidário”, afirma.

Claudia Costin concorda. “A escola do futuro vai se construir com a experiência da pandemia. A humanidade aprendeu muito nas crises e elas muitas vezes foram alteradoras de futuro.”

Mozart resume bem o tom geral do debate: “Este não será um ano perdido. Estamos construindo algo que jamais imaginávamos, e aprendendo habilidades e competências.”

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