Descrição de chapéu Pós-graduação

Ex-presidente da Capes defende transparência na avaliação de cursos

Para Abílio Neves, análise de programas de pós-graduação é desafio para nova gestão

Sabine Righetti
São Paulo

O primeiro desafio a ser resolvido no sistema de pós-graduação no Brasil é atualizar a avaliação dos cursos. É preciso adotar critérios mais transparentes, que considerem os resultados práticos e a relevância social e econômica dos programas.

A opinião é do sociólogo Abílio Neves, que esteve, nas gestões de Fernando Henrique Cardoso e Michel Temer, no comando da Capes —agência federal ligada ao MEC que financia pesquisa e que avalia a pós-graduação acadêmica no Brasil.

Abílio Neves, ex-presidente da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) nos governos de Michel Temer (de 2016 a 2018) e Fernando Henrique Cardoso (de 1995 a 2002)
Abílio Neves, ex-presidente da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) nos governos de Michel Temer (de 2016 a 2018) e Fernando Henrique Cardoso (de 1995 a 2002) - Marcos Nagelstein/Folhapress

Para o futuro, diz, devem se disseminar no Brasil os cursos de pós com aulas à noite, para quem trabalha. Cursos a distância, porém, não devem ser regularizados tão cedo.

 

O senhor foi presidente da Capes nos governos FHC e Temer. O que mudou na pós-graduação do país nessas gestões? O sistema de pós-graduação cresceu muito. Isso foi importante, pois há mais abrangência das áreas de conhecimento. Houve uma nacionalização da oferta de programas, que serviu para fixar pesquisadores em todas as regiões do país.

Outra mudança tem relação com a necessidade de maior internacionalização da pesquisa e da formação pós-graduada. Fica evidente a necessidade de a pós responder aos problemas globais em nível nacional ou local. 

Qual é o principal desafio para o novo presidente da Capes, Anderson Ribeiro Correia? O primeiro é a atualização do sistema de avaliação, que precisa ser mais sensível aos múltiplos propósitos das instituições de ensino superior. Precisa evoluir para indicadores mais consistentes e transparentes que valorizem o resultado da pós-graduação, tanto em termos de desenvolvimento da ciência, da tecnologia e da inovação, como em termos de sua relevância social e econômica. Outro desafio é ajustar o financiamento da pós-graduação.

Quem deve fazer o mestrado e quem pode seguir direto para o doutorado? Pessoas com perfil acadêmico forte ou com experiência em pesquisa podem ir direto para o doutorado. Muitas instituições já oferecem alternativas nesse sentido. O mestrado acadêmico continua interessante para ajudar a consolidar a experiência dos estudantes, mas pode ser um processo de triagem em que se verifica a verdadeira aptidão e o compromisso com o desenvolvimento de um projeto autônomo no doutorado.

É possível que uma pessoa de uma área como biologia faça mestrado e doutorado em outra área diferente, como filosofia? Isso é recomendável? A interdisciplinaridade e a multidisciplinaridade são cada vez mais importantes na academia. A solução de problemas complexos não vem de uma única área do conhecimento. Não são raros os casos de pessoas com formação em determinada área que avançam para um doutorado em área distinta daquela da formação inicial. 

Isso ocorre por curiosidade, por disposição para enfrentar desafios novos no campo do conhecimento ou por reconhecimento de que as questões cruciais demandam sempre mais formação multidisciplinar. 

Quem deve buscar o chamado mestrado profissional, voltado para demandas do mercado? O candidato típico da pós-graduação profissional é aquele vocacionado para o mercado de trabalho não acadêmico, que busca uma formação que o ajude a exercer liderança em contextos de trabalho com desafios concretos e dinâmicos. 

Muitos programas de pós têm aulas em períodos como manhã e tarde —algo inviável para quem trabalha. Há algumas iniciativas recentes, como a FGV-SP, que oferece aulas de doutorado também à noite para executivos que tenham um “perfil acadêmico”. Essas iniciativas podem se disseminar? Essa é uma tendência que deve se disseminar, especialmente porque mesmo a pós-graduação de caráter acadêmico tem muita dificuldade de exigir a dedicação em tempo integral. Essa tendência vai acompanhada da ampliação do tempo de formação.

Uma pessoa que já tenha construído um carreira no mercado pode migrar para a área acadêmica na expectativa de se tornar um pesquisador ou um professor? Isso pode ocorrer e, de fato, ocorre com certa frequência, tanto em áreas mais tecnológicas, quanto nas humanidades. Migrar para uma formação e para uma atividade mais acadêmica é o mais simples.

O difícil é, tardiamente, conseguir construir uma carreira na pesquisa acadêmica. A seleção tem ocorrido sempre mais cedo, e as oportunidades não têm sido ampliadas nos últimos anos.

Em compensação, as pessoas com mais experiência no mercado de trabalho podem trazer óticas diferenciadas para dentro da universidade, enriquecendo a discussão acadêmica, bem como propor soluções para pesquisa de uma forma mais consistente.

Na sua gestão na Capes, houve uma discussão no sentido de regularizar tanto o mestrado quanto o doutorado a distância no Brasil. O senhor acha que isso deve acontecer em breve? Acho que não. A proposta de regulamentação segue uma normativa do Conselho Nacional de Educação (CNE) e busca refletir o que há de experiência internacional com resultados reconhecidos.

É inegável que as novas tecnologias de informação e comunicação ajudam muito o processo de aprendizagem. É inegável, também, que muitos estudantes e profissionais no mercado de trabalho têm dificuldade em acompanhar cursos formatados de modo convencional.

A pós-graduação a distância vem atender essa demanda, mas não acredito que vamos ter uma avalanche de propostas neste sentido.

Antes, acredito que os programas existentes passarão a se valer mais das possibilidades abertas pelas tecnologias disponíveis.

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