A educação midiática não pode esperar

2020 nos deu um ultimato sobre a importância de se educar para a informação

Mariana Mandelli

Coordenadora de comunicação do Instituto Palavra Aberta

São Paulo

Qualquer artigo na imprensa ou textão nas redes sociais que fale sobre 2020 provavelmente usou os adjetivos “atípico”, “imprevisível”, “difícil” e “complicado”. Talvez um dos substantivos mais mencionados tenha sido “desafio”, na tentativa frustrada de dar a real dimensão do que vivenciamos nos últimos meses.

Clichês à parte, apesar de ainda não termos o distanciamento necessário dos acontecimentos para construirmos uma análise sóbria, com mais consciência dos efeitos que a pandemia tem e ainda terá sobre as nossas instituições e relações sociais, já é possível apontar alguns caminhos que o ano passado nos deixou, para que possamos evitar uma tragédia como a que ainda estamos vendo acontecer, uma vez que o coronavírus segue vitimando centenas de pessoas diariamente.

Médica israelense acena através de vidro na área de isolamento - Gil Cohen Magen/Xinhua

A importância de encararmos a educação midiática como uma necessidade para a vida individual e coletiva é um deles. “Fake news”, boatos, teorias da conspiração e campanhas de desinformação sobre a Covid-19 mostraram que, para além de memes divertidos e disputas políticas nas redes sociais, esse é um tema de saúde pública e, consequente e literalmente, estamos tratando de vida e de morte.

Mesmo com o incansável trabalho da imprensa na cobertura da crise pandêmica –trabalho este que restaurou, em parte, a credibilidade do jornalismo profissional perante à audiência–, sabemos que esclarecer, explicar e informar os fatos não será suficiente enquanto não tivermos cidadãos preparados para reconhecer a importância da atividade jornalística. Isso porque, em tempos de infodemia e deslegitimação das instituições, é preciso mais do que “falar para convertidos”, como diz o jargão popular.

Esse é o mesmo dilema das agências de checagem de informação e dos divulgadores científicos que, mesmo antes dos primeiros casos de coronavírus no Brasil, já produziam e publicavam conteúdos excelentes sobre o que se sabia até aquele momento sobre a doença. Meses depois, seguem desmistificando discursos mentirosos e preconceituosos, como é o caso das ficções que atrelam a origem da doença a um suposto plano diabólico do governo chinês, de modo a reforçar estereótipos e comportamentos xenofóbicos.

Segundo uma pesquisa da Avaaz, cerca de 110 milhões de brasileiros acreditaram em pelo menos uma mentira sobre a Covid-19. Esse número não deve diminuir tão cedo, já que estamos assistindo, diariamente, a uma guerra de narrativas sobre a vacina. O que fazer para que os absurdos propagados há anos pelo movimento antivax tenham cada vez menos impacto na nossa vida em sociedade? Como diminuir a disseminação de informações mentirosas sobre temas tão estruturantes e vitais?

A resposta é só uma: educando crianças e jovens desde cedo para que aprendam a reconhecer os discursos e os formatos das mensagens e informações que recebem. Para que distingam fatos de opiniões, diferenciando os gêneros jornalísticos no momento em que tiverem contato com o conteúdo. Para que compreendam e defendam um jornalismo preciso, bem apurado e baseado nos preceitos fundamentais da profissão, e para que possam criticar de maneira justa as reportagens e artigos que não correspondam a esses valores.

Não se trata de uma confiança sem críticas, ao contrário: a educação para as mídias e para a informação é a única maneira possível de desenvolvermos senso crítico no mundo conectado. Educar midiaticamente os cidadãos pressupõe acreditar nas ciências, inclusive nas humanas, sabendo distinguir a realidade de roteiros fantasiosos, enganosos e manipuladores, e tendo consciência do quanto as nossas crenças afetam as nossas escolhas diárias, inclusive as que se referem ao modo com que nos informamos e compartilhamos informação.

Não existe outra saída, tendo em vista que proibir “fake news” é uma opção que pode gerar sanções irreversíveis às liberdades de expressão e de imprensa, direitos constitucionais que devem ser protegidos e salvaguardados. O próprio termo “fake news” é vago, agregando de fofoca a correntes de WhatsApp, e frequentemente é utilizado para atacar o jornalismo profissional.

A construção de políticas públicas que foquem na educação midiática deve começar na escola, com recursos e formação para os educadores, funcionários e estudantes que tanto sofreram com a pandemia, em um contexto de incertezas e novidades. Este público sofreu diretamente os impactos de uma vida 100% online sem ter o preparo exato para lidar com ferramentas, dispositivos e conteúdos necessários para isso.

Do discurso edificante do início da pandemia de que sairíamos muito melhor disso tudo, alguma coisa precisa ficar para não falharmos totalmente. Mas precisamos começar já para que nas próximas crises sanitárias (que infelizmente virão) não seja necessário reforçar diariamente a importância de se vacinar e de se acreditar nos médicos, pesquisadores, cientistas e também nos jornalistas.

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