'Nunca tinha visto tanto trans junto na vida e foi maravilhoso'

Homem transexual, Alex Silva foi escolhido para formação na Carambola, finalista do Empreendedor Social de Futuro

Cristiano Cipriano Pombo Rodolfo Stipp Martino
São Paulo

Ao visitar pela primeira vez a Carambola, empresa de educação que promove a inclusão no mercado de tecnologia, Alex Maciel Silva, 22, ficou surpreso.

Depois se assumir como homem transexual, ele nunca tinha visto tantas pessoas que se identificam pelo gênero diferente daquele com o qual nasceram juntas. 

Ele teve conhecimento da empresa por meio das redes sociais. Mais precisamente no canal de Lucca Najar, homem trans que dialoga sobre sobre a temática no YouTube, onde exibe 120 vídeos e conta com 93.800 inscritos no canal.

Assim com Alex, os demais transexuais bateram à porta da Carambola, finalista do Prêmio Empreendedor Social de Futuro, em busca de uma vaga em um programa de formação profissional bem diferente. 

Era início de 2019 e a startup social anunciava a oportunidade a um profissional da comunidade LGBTQ+ aprender tecnologia e ser inserido no mercado das grandes empresas e ainda receber por isso durante a formação.

Fundada por Gustavo Glasser, programador que é também um homem trans, a Carambola entrega projetos para as empresas ao mesmo tempo em que treina mão de obra em falta no mercado de TI.

A Escolha do Leitor está com votações abertas; conheça os finalistas e participe

A metodologia prepara um trio de profissionais que, ao final do processo, pode ser contratado pelo cliente.

“Eu entrei de um jeito e eu vou sair daqui totalmente diferente, com outra concepção de tudo o que eu aprendi”, afirma Alex, que ficou com uma das vagas no teste.

Confira abaixo o depoimento dele.

Eu faço parte de um trio aqui da Carambola. Fui o primeiro contratado desse novo modelo [de formar trios para as empresas]. Sou um homem trans.  

Eu não me identificava com o sexo feminino, com o qual nasci. Quando se é trans, a gente sabe que tem alguma coisa diferente, só não sabe por onde começar ou o que é essa coisa diferente. 

Em 2017, passou uma novela na Globo [“A Força do Querer”], que tinha a personagem Ivana [interpretada por Carol Duarte], que passou a se chamar Ivan na trama após se assumir como transgênero.

Essa novela me ajudou. Pesquisei, ouvi relatos de outros trans. Eu me identificava com aquilo que eles passavam. Passava pelas mesmas coisas, só que em contexto diferente. Cada um tem uma forma diferente de descobrir.

Quando eu comecei a me identificar, em 2016, eu tive, por um certo tempo, medo das opiniões alheias e da reação dos meus pais. Então, deixei isso guardado comigo.

No começo de 2018, eu não estava aguentando mais. Conversei com uns amigos, e eles me recomendaram passar com psicólogo.

Eu fazia terapia, e a psicóloga falou que sabia o que eu estava passando. Disse que eu tinha que fazer da forma com que eu me sentisse mais à vontade. 

Durante os seis primeiros meses de 2018, eu fui conversando com alguns amigos e contei para a minha irmã. Ela me apoiou.

Aí, tive que ter a coragem de falar com os meus pais. Eu tinha muito medo da reação deles. Mas, graças a Deus, foi tudo muito bem. Eles me abraçaram, falaram que sempre estariam comigo. Coisas de pais, né? 

Foi muito bom, libertador. Não vou dizer que tira um peso das costas, porque não é assim. Mas ajuda bastante. Quem não tem um apoio sofre muito mais do que eu.

Quando eu vim à Carambola pela primeira vez, foi para participar de uma reunião de pessoas que estavam interessadas em uma vaga. 

Depois de eu ter me assumido, eu nunca tinha visto tantas pessoas trans em um lugar só. Eram 15, 20 pessoas trans. Fiquei muito surpreso. Eu olhava para um lado e tinha um trans. Olhava para o outro lado e tinha mais um.

E tinha também o Lucca aqui. Isso me deixou bem feliz, porque depois do workshop sobre a vaga, eu e ele conversamos sobre as nossas vivências, de como foi para cada um.

No meio do workshop, teve um rapaz que falou do bullying que sofreu na escola por ser trans. 

Aqui [Carambola], eu me sinto muito à vontade. É o primeiro lugar em que trabalho depois de ter me identificado como trans. Não tem aquele negócio de dizerem: “Você, para mim, é uma menina”. Eu sou o Alex e pronto. 

Eu curso banco de dados, que é diferente do trabalho que faço na Carambola, mas é na área da tecnologia. Sobre ser front-end [programador], eu não sabia muita coisa antes de entrar aqui. Só que eu venho correndo muito para aprender.

Com a metodologia da Carambola, a gente aprende a evoluir também como pessoas, a ter mais empatia, a se colocar na posição do outro e a ouvi-lo com mais atenção. Ajuda a quebrar também resistências e preconceitos, de ver que cada uma tem sua luta pessoal e profissional na vida.

Em outros lugares, você trabalha, mas não aprende nada. Mas, na Carambola, você quase mais aprende do que trabalha. Então, eu trabalho aprendendo.

Eu entrei de um jeito e eu vou sair daqui totalmente diferente, com uma outra concepção. Cada dia é uma coisa diferente. 

A maior lição que aprendi foi a importância de me colocar no lugar do outro. É fácil julgar, mas ninguém sabe o que tem por trás de tudo isso... Aprendi muito aqui.

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.