Descrição de chapéu Cabeça de Adolescente

Traumas podem levar ao transtorno dissociativo de identidade

TDI é reconhecido mundialmente, mas há poucos casos diagnosticados no Brasil

Filipe Andretta Naná DeLuca
São Paulo

Alice (nome fictício), 19, viveu a infância com o pai, um dependente químico com comportamento violento. Aos três anos, assustada, ela tentava se esconder do agressor, quando apareceu Rebeca, com uma personalidade forte e criativa. “Ela surgiu porque eu tinha medo das coisas, ela me ensinou a me esconder.”

Ilustração de traço fino, preta e branca, do rosto de criança repartido em diversas outras faces
A dissociação é um recurso mental saudável, que evita a absorção completa de experiências negativas, mas em alta intensidade e frequência pode estar ligada a transtornos - Ilustração: Estela May

Em fevereiro de 2019, Alice foi diagnosticada pelo psiquiatra clínico Dhin Ally Untar com o transtorno dissociativo de identidade (TDI), a forma mais extrema entre os transtornos dissociativos reconhecidos no DSM-5 (manual de diagnósticos elaborado pela Associação Americana de Psiquiatria) e na CID-11 (Classificação Internacional de Doenças da Organização Mundial da Saúde).

O transtorno já foi popularmente conhecido como “múltiplas personalidades”. Segundo os especialistas, o desenvolvimento do TDI está associado a grandes traumas e abusos sofridos na infância. “Essas identidades facilitam um processo de fuga da realidade e a tornam mais tolerável”, explica Untar, que atende num consultório particular em Goiânia. 

Enquanto Alice crescia, além de Rebeca, outras identidades surgiram —hoje são seis a dividir o mesmo corpo. Cada identidade tem características físicas e emocionais próprias, além de idades, aparências, habilidades, crenças e vontades.

O psicoterapeuta Rémy Aquarone, diretor do Pottergate Centre, em Norwich, na Inglaterra, especializado em transtornos dissociativos, explica que o TDI “pode ser comparado a um coma psicológico: quando algo é insuportável, você desliga para não guardar memória daquilo". Aquarone ressalta que a dissociação é uma ferramenta comum da mente humana para evitar a absorção completa de experiências desagradáveis e é um fenômeno saudável para profissionais que lidam frequentemente com situações chocantes, como militares em guerra, médicos e bombeiros.

Para pessoas com TDI, no entanto, a dissociação ocorre com mais frequência e intensidade. “Toda vez que me olhava no espelho”, conta Alice, “via uma das outras, raramente eu, pois eu não gostava muito de estar presente”.

Nos últimos dez anos, o TDI ganhou certa notoriedade por conta de dois produtos da indústria audiovisual: a série de comédia “O Mundo de Tara” (2009), com três temporadas, em que a protagonista é uma dona de casa com o transtorno, e o filme “Fragmentado” (2016), suspense de M. Night Shyamalan, no qual um homem com TDI sequestra três garotas.

Para Rémy Aquarone, ao retratarem o TDI de forma caricata, as referências da cultura pop acabam por reforçar estigmas. Mas ele reconhece que a popularização do assunto tem levado pessoas mais jovens ao Pottergate Centre em busca de ajuda.

Segundo Madeleine Medeiros, coordenadora da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP),  acredita-se que 1,5% da população brasileira tenha TDI. Medeiros também aponta para o aspecto cultural que dificulta diagnósticos. “Sem dúvida, o TDI acaba não sendo visto como uma demanda para o psiquiatra, mas para a religião.”

Em 2017, Everton Maraldi, professor do programa de pós-graduação em ciência da religião na PUC-SP, doutor em psicologia social pelo Instituto de Psicologia da USP, publicou um estudo no qual revisa casos de TDI reportados na literatura científica brasileira. Ele encontrou apenas dois relatos, apontando falhas metodológicas em um deles. “O TDI é uma das categorias diagnósticas mais controversas. No Brasil, nunca houve um levantamento sistemático para saber como esse diagnóstico está sendo feito”, afirma.

De acordo com o pesquisador, desde o século 19 existe debate sobre a cisão de um mesmo organismo em diferentes identidades. Ele acredita que os manuais de diagnósticos internacionais, como o DSM, são elaborados com pretensões universalistas que subestimam as especificidades culturais de cada país. Segundo ele, isso explica, em parte, a raridade do diagnóstico no Brasil.

Outra hipótese levantada por Maraldi é que, no país, pacientes com TDI sejam diagnosticados com transtornos psicóticos e personalidade borderline, por exemplo. Essa possibilidade é corroborada pelo relato de Isabel (nome fictício), 20, que antes de ser diagnosticada com TDI, pela psiquiatra Ana Karine do Vale, que tem um consultório em Boa Vista, recebeu os diagnósticos de personalidade borderline e bipolaridade.

Além da demora para chegar ao diagnóstico, para Isabel, a “confusão” entre TDI e fenômenos sobrenaturais faz parte da rotina. Ela afirma que sua rede de apoio é formada por uma amiga, que a acompanha nas consultas médicas, e o irmão. O pai, por sua vez, é “preconceituoso e bota a culpa de tudo no capeta”.

Aquarone acredita que a raridade do diagnóstico no Brasil se deve ao baixo número de pesquisas sobre o tema, mas que o transtorno “certamente ocorre e muitas pessoas serão diagnosticadas incorretamente com esquizofrenia, bipolaridade ou personalidade borderline”.

Quando Alice ouviu pela primeira vez que tem TDI, sentiu “alívio e felicidade” porque “não estava louca, e essa era uma questão bastante presente”. Com o diagnóstico, ela conta que entendeu melhor a perda de memória e o cansaço que experimenta. E também enxerga aspectos positivos. “Eu aprendo coisas novas de diferentes formas. Quando me canso, posso me retirar. E às vezes vejo coisas antigas como se fosse a primeira vez”.

Para Untar, a psicoterapia é a principal forma de tratamento, enquanto medicamentos podem ajudar a tratar sintomas de depressão e ansiedade. Ele acredita que lidar com as frustrações cotidianas ajuda a diminuir a incidência de sintomas, ou seja, a troca de identidades.

Aquarone crê que a dissociação em casos de TDI não pode ser resolvida por completo. Porém, com acompanhamento regular por pelo menos quatro anos e criação de vínculos de confiança durante a terapia, o paciente pode diminuir o número de identidades atuantes e fazer com que elas não entrem em conflito.

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