Casos prováveis de doenças causadas por cigarro eletrônico nos EUA sobem para 530

Mais de três quartos dos doentes são homens e metade tem menos de 25 anos

Matt Richtel Sheila Kaplan
Nova York

O número de doenças pulmonares relacionadas ao uso de cigarros eletrônicos e vaporizadores aumentou para 530 casos prováveis. Sete mortes estão associadas à doença, segundo atualização divulgada nesta quinta-feira (19) pelo CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças) dos Estados Unidos.

As autoridades de saúde pública do país disseram que ainda não foram capazes de identificar a causa, ou causas, das doenças que resultaram em centenas de hospitalizações, muitas em UTIs (Unidades de Terapia Intensiva).

Anne Schuchat, vice-diretora do CDC, disse que as autoridades esperam mais mortes. Segundo ela alguns pacientes estão usando ventiladores mecânicos para respirar e, portanto, são incapazes de dizer aos investigadores quais substâncias usaram. "Eu gostaria que tivéssemos mais respostas", disse.

Em coletiva de imprensa, o CDC forneceu o primeiro resumo demográfico dos afetados: quase três quartos são homens, dois terços têm entre 18 e 34 anos e 16% têm 18 anos ou menos. "Mais da metade dos casos têm menos de 25 anos de idade", disse Schuchat.

 

As doenças pulmonares já foram relatadas em 38 estados e em um território dos Estados Unidos.

O primeiro caso no Canadá foi descoberto nesta semana. As autoridades divulgaram informações sobre um adolescente em Ontário que chegou a respirar por aparelhos na UTI, mas já se recuperou.

O uso de vaporizadores envolve a inalação de substâncias em aerossol, geralmente nicotina ou THC —o ingrediente psicoativo da maconha— misturado com solventes ou outros produtos químicos.

O CDC reiterou que muitas pessoas que ficaram doentes usaram produtos à base de THC, alguns obtidos na rua e não de varejistas em estados onde a maconha medicinal ou recreativa é legalizada. Porém, as autoridades do CDC enfatizaram que ainda não identificaram um único produto químico claro ou a causa do surto.

Homem fuma com cigarro eletrônico
Mais de três quartos dos doentes são homens e metade tem menos de 25 anos ORG XMIT: XNYT81 - Theo Stroomer/The New York Times

A falta de respostas começou a provocar frustração em vários setores, incluindo consumidores, especialistas em políticas e grupos do setor. Desde meados de agosto, quando as autoridades de saúde pública revelaram pela primeira vez que quase 30 pessoas ficaram doentes, uma causa clara não foi identificada.

Autoridades de saúde do CDC e da FDA (agência de fiscalização e regulamentação de remédios dos EUA) disseram que os pacientes relatam o uso de diferentes produtos em vaporizadores: THC, THC e nicotina e alguns apenas nicotina.

As agências apontaram a complexidade dos testes de produtos e os desafios de obter um histórico detalhado do comportamento dos pacientes.

Ao mesmo tempo, um número crescente de críticos disse que deveria haver resultados mais evidentes da investigação federal, que conta com estrutura massiva —mais de 80 pessoas no CDC estão trabalhando no assunto e um laboratório da FDA em Cincinnati está trabalhando com mais de 150 amostras de pacientes que ficaram doentes.

"Não estamos obtendo as informações específicas que precisamos para proteger o público", disse Michael Siegel, pediatra da Universidade de Boston, que tem sido um forte defensor do uso de cigarros eletrônicos como uma alternativa menos perigosa ao fumo tradicional. Ele aponta que o governo implicou fortemente que o problema é amplamente resultante do uso de produtos vaporizadores ilícitos relacionados ao de THC fabricados, mas não exonerou os cigarros eletrônicos, criando a confusão.

"Eles não estão divulgando o número de casos envolvidos com o THC", disse ele. "Essas informações devem ser divulgadas."

O CDC disse que, por enquanto e por segurança, as pessoas não devem fumar de maneira alguma, seja nicotina ou THC.

Algumas críticas também foram levantadas quanto ao FDA, que tem sido o órgão que mais apontou suas preocupações com o THC como sendo o principal culpado pelas doenças. Mas, dada essa preocupação, o FDA não fez nenhum esforço regulatório para eliminar o problema, disse Eric Lindblom, especialista em política de tabaco na Escola de Direito de Georgetown e ex-consultor sênior do FDA.

Lindblom disse que se, de fato, os vaporizadores de THC falsificados são os principais culpados, a agência tem a capacidade e até a obrigação de intervir. Ele disse que seria fácil proibir a venda de líquido de THC para vaporizadores, mesmo em estados onde a maconha recreativa é legalizada —ou proibir vendas que incluem outros solventes que não sejam seguros.

"Eles precisam fazer alguma coisa", disse. “Eles deviam fazer algo para impedir essas coisas. É uma situação em que não podemos para perder.”

Mitchell Zeller, diretor do centro para produtos de tabaco da FDA, afirma que seria prematuro tomar mais medidas até ter respostas. “Nós estamos em uma situação desesperada por fatos e evidências”, disse Zeller. Ele também afirmou que há múltiplos componentes nas misturas dos vaporizadores, como acetato de vitamina E e outros aditivos.

Zeller disse que o braço de investigações criminais da FDA já começou investigações, mas se negou a revelar os alvos da apuração.

Schuchat, do CDC, afirmou que entende o pedido por informações mais precisas. “Nós queremos fazer isso”, mas disse que ao passar dados parciais, as autoridades podem acabar prematuramente reafirmando uma possível segurança dos cigarros eletrônicos, o que pode ser problemático.
 

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