Médicos que viraram pacientes falam em livro sobre suas fragilidades

Anorexia, câncer, alcoolismo e outras doenças fazem parte de relatos da obra Quando Fui Paciente

São Paulo

Médicos nas cadeiras dos pacientes. Aquele que cuida da saúde de outras pessoas agora é quem adoece, quem precisa de tratamento.

Na obra “Quando Fui Paciente” (ed. Guayabo), médicas e médicos de família trazem, por meio de contos, crônicas e poemas, relatos de suas dores e fragilidades diante de doenças e refletem sobre o que significa adoecer.

É o segundo livro do projeto Causos Clínicos, da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade. No primeiro, de 2018, os profissionais relatam histórias de atendimentos de pacientes.

Agora, são eles os protagonistas do adoecimento, vivenciando casos de câncer, hepatite, anorexia, depressão, transtorno bipolar, abuso de álcool, febre, convulsões, infecções, lesões de ligamento entre outros problemas.

“Não apenas somos vulneráveis como talvez sejamos até  mais vulneráveis que a maioria das pessoas, exatamente por incorporar o papel social de quem cuida, não de quem é cuidado. É doído sentar na cadeira do paciente. Mas também é transformador”, afirma o médico Rodrigo Lima, coordenador do projeto.

Um dos autores do livro, ele relata sobre o diagnóstico e tratamento quimioterápico de um câncer de testículo.

Discorre sobre a culpa causada pela falsa ideia de que poderia ter descoberto o tumor antes (“Imbecil, vacilão. Devia ter investigado isso...”) e do inconformismo numa internação na UTI (“Qualquer pessoa sabia que eu não deveria estar ali, e eu jamais vou me conformar em ver gente que aplica protocolo sem ter o mínimo de crítica ao processo”).

Rodrigo Lima, Jessica Leão, e Natália Henke e Antônio Modesto, quatro dos médicos de família que escreveram ‘Quando Fui Paciente’  - Gabriel Cabral/Folhapress

Lima conta que em alguns textos, em que houve muita exposição, contatou os autores para checar se era aquilo mesmo que eles desejavam. “Ninguém voltou atrás.”

Ele mesmo só conseguiu entregar o relato no final do prazo. “E olha que o problema que eu tive, o câncer, envolve menos estigma, não se trata de uma questão de saúde mental. Há histórias fortíssimas. O pessoal escreveu na veia.”

Várias das doenças são psiquiátricas como depressão, ideação suicida, bipolaridade, anorexia e abuso de álcool e cigarro, o que torna os relatos ainda mais corajosos.

“Às vezes eu choro por vergonha. Pela vida jogada fora. Pela obesidade e a falta de ar. Pela bronquite e pelo câncer à espreita. Quase sempre me prometo um dia diferente. É um trio de cordas: o cigarro para animar, a cerveja para acalmar, o corpo para arrebentar”, escreve o médico Antônio Modesto.

“Não é fácil viver numa montanha-russa. Ora você está lá em cima, no ápice da sua vida, sendo linda, feliz, plena e capaz. No outro, você está pior e mais perdida que a pulga do cavalo do bandido”, relata Jessica Leão, diagnosticada anos atrás com transtorno bipolar.

“Será que estou vivendo, sobrevivendo ou sendo um estorvo para todos ao meu redor? Tenho certeza de que a vida de todo mundo seria bem melhor sem a minha presença pra atrapalhar”, escreveu Natália Henke em 2015, quando foi diagnosticada com depressão.

Para Jessica, 28, o pior do processo de escrever sobre a doença não foi nem de expor publicamente suas fragilidades e pensar no que as pessoas iriam dizer, mas sim de olhar para dentro de si mesma.
“A gente se esconde por trás de tudo isso, quer ser forte, quer ser muralha, mas ninguém é assim. As pessoas vão ler e vão ver que eu sou vulnerável, mas ao mesmo tempo vão perceber também o quanto eu sou forte.”

Segundo a médica, falar sobre doenças mentais ainda é um tabu muito grande. “Se você é doido, parece que não pode fazer mais nada da vida. Não é isso. Que bom ter estado do lado de cá [na condição de paciente], porque me ajuda a construir uma forma de ver o mundo diferente, olhar os pacientes de uma forma diferente. A empatia se transforma em uma coisa muito real.”

Foi o que sentiu a médica Mara Costa Vieira, quando em dezembro de 2017 sofreu uma fratura no pé. “Foi um divisor de águas. Aprendi que não sabia nada além da teoria sobre empatia. Aprendi a ter, ainda mais, solidariedade com as pessoas com deficiência e infelizmente aprendi também que o mundo não está preparado para elas”, escreve.

Mas como é se expor diante da categoria médica e dos próprios pacientes? “Entre médicos de família é muito tranquilo, somos uma rede de apoio. Mas é possível que colegas de de outras especialidades não vejam com bons olhos. E muitos pacientes também. Parece que médico não pode ficar doente, é aquele ser elevado”, afirma Jéssica.

Hoje, ela diz que se sente plena. “Se eu não estivesse bem, não teria dado conta de olhar tão fundo, falar tantas coisas.” 

Escrever e atuar em grupos Balint [que objetivam prevenir o burnout e aprimorar a relação médico-paciente], além de práticas de medicina tradicional chinesa e meditação, são ferramentas que a ajudam. “Há quase três anos não uso nenhuma medicação.”

Foi na adolescência que Andressa Paz passou a ter sintomas de anorexia nervosa, a Ana, como ela chama. “Comecei a viver em função da magreza que Ana me sugeria seguir. Logo pela manhã, ao acordar, lá estava ela me esperando no espelho”, relata ela, hoje no sexto ano de medicina.

A ficha de que estava doente caiu durante a faculdade de medicina, quando visitou um estande do curso de nutrição e calculou o seu IMC (índice de massa corpórea): 1,65 m, 47 kg, IMC de 17,26.

“Hoje aos 25 anos, com o IMC na faixa da normalidade, posso afirmar que venci a maioria das batalhas, mas a guerra não acabou. Pensamentos sobre o corpo oscilam, encontrei o peso que eu me sinto satisfeita e, definitivamente, não é mais 47 quilos.”

O processo de adoecimento de Natália Henke, 28, com transtorno depressivo e ideação suicida, começou em 2015, quando ela entrou para o internato de medicina e viveu uma quebra de expectativas.

“Via os pacientes sendo maltratados, situações de vida muito frágeis. Chegava em casa angustiada, com o peito apertado. Mas não encontrava compreensão entre os meus colegas ou na família. Minha válvula de escape era escrever, escrever.”

Ela diz que naquele período cogitou abandonar a medicina, mas o que a resgatou, além da escrita, foi descobrir a especialidade medicina de família e comunidade.

Hoje ela diz estar bem emocionalmente. “O processo durou um ano e meio, até meados de 2016. Foi resolvido com terapia e remédios. Escrever sobre as nossas fragilidades ajuda as pessoas a perceberem que somos humanos.”

Para Rodrigo Lima, o livro está gerando um impacto positivo. “Muitos médicos já vieram comentar. Você começa a enxergar a doença do seu paciente de forma diferente.”

Ele espera que a obra provoque reflexões também do ponto de vista do paciente. “É uma possibilidade de ele ver como a gente costuma enxergá-lo, isso humaniza a relação. Ou de perceber que já passaram por profissionais que não os enxergaram. Questionar essa relação também está valendo.”

Quando Fui Paciente

  • Preço R$ 60 (216 págs.)
  • Autor vários
  • Editora Guayabo
  • Vendas pelo email causosclinicos@sbmfc.org.br
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