Descrição de chapéu The New York Times

China retardou ações que poderiam conter vírus para fugir de embaraços políticos

Foco do governo chinês era em controlar narrativa, constrangendo quem tentava alertar sobre o possível surto

Chris Buckley Steven Lee Myers
Wuhan (China) | The New York Times

Uma doença misteriosa afligia sete pacientes de um hospital, e um médico tentou alertar seus colegas de turma na escola de medicina. “Estou em quarentena no departamento de emergência”, escreveu o médico, Li Wenliang, em uma mensagem a um grupo de chat, em 30 de dezembro, mencionando os pacientes.

“Isso é assustador”, respondeu um dos destinatários, antes de perguntar sobre uma epidemia que começou na China em 2002 e por fim matou quase 800 pessoas. “Será que a Sars [síndrome respiratória aguda grave] está chegando de novo?”

No meio da noite, as autoridades de saúde da cidade de Wuhan, no centro da China, convocaram Li e exigiram saber por que ele tinha divulgado a informação. Três dias mais tarde a polícia o forçou a assinar uma declaração na qual reconhecia que seu alerta representava “comportamento ilegal”.

A doença não era a Sars, mas algo parecido: um coronavírus que agora está se espalhando incansavelmente de Wuhan para o país e o restante do planeta, tendo matado pelo menos 304 pessoas na China e infectado mais de 14,38 mil em todo o mundo.

A condução inicial do combate à epidemia pelo governo permitiu que o vírus ganhasse terreno tenazmente. Em momentos críticos, as autoridades colocaram o segredo e ordem acima do combate aberto à crise cada vez mais grave, a fim de evitar causar alarme ao público e de escapar a embaraços políticos.

Uma reconstrução das primeiras sete e cruciais semanas entre o surgimento dos primeiros sintomas, no começo de dezembro, e a decisão do governo de bloquear o acesso a Wuhan, baseada em duas dúzias de entrevistas com moradores de Wuhan, médicos e autoridades, declarações do governo e reportagens na mídia chinesa, revela decisões que retardaram uma ofensiva coordenada de saúde pública contra o surto.

Nas semanas em questão, as autoridades silenciaram os médicos e outras pessoas que estavam tentando alertar sobre a doença. Minimizaram os riscos para o público, impedindo que os 11 milhões de moradores da cidade soubessem que precisavam se proteger. O mercado de comida no qual o vírus supostamente tinha surgido foi fechado, mas as autoridades não proibiram a venda de animais em outros locais.

Sua relutância em adotar medidas públicas se devia em parte a motivos políticos, já que as autoridades locais e nacionais estavam se preparando para seus congressos anuais em janeiro. Enquanto o número de casos subia, as autoridades ainda assim declaravam repetidamente que era provável que não tivessem surgido novas infecções.

Ao não agir agressivamente para alertar o público e os profissionais de medicina, dizem especialistas em saúde pública, o governo chinês perdeu uma de suas melhores oportunidades de impedir que a doença se tornasse epidemia.

“Foi uma questão de inação”, disse Yanzhong Huang, pesquisador sênior sobre questões mundiais de saúde no Conselho de Relações Exteriores, que estuda questões chinesas. “Não houve ação em Wuhan pelo departamento local de saúde a fim de alertar as pessoas quanto à ameaça”.

 

O primeiro caso, cujos detalhes não são conhecidos e cuja data específica não foi revelada, aconteceu no começo de dezembro. Quando as autoridades foram galvanizadas a agir, em 20 de janeiro, a doença já havia se tornado uma ameaça formidável.

Agora ela se tornou uma emergência de saúde mundial. Gerou restrições de viagem em todo o mundo, abalou os mercados financeiros e criou talvez o maior desafio já enfrentado pelo líder chinês Xi Jinping. A crise pode subverter a agenda de Xi por meses, ou ainda mais tempo, e pode até solapar sua visão de um sistema político que ofereça segurança e crescimento em troca da submissão do povo ao pulso férreo do autoritarismo.

No último dia de 2019, depois que a mensagem de Li foi compartilhada com pessoas que não faziam parte do grupo inicial de destinatários, o foco das autoridades era controlar a narrativa. A polícia anunciou que estava investigando oito pessoas por divulgar boatos sobre o surto.

No mesmo dia, a comissão de saúde de Wuhan, forçada pelos ditos “boatos”, anunciou que 27 pessoas estavam sofrendo de pneumonia de causa desconhecida, na cidade. A declaração delas afirmava que não havia motivos para alarme.

“A doença é evitável e controlável”, dizia o comunicado.

Li, que é oftalmologista, voltou ao trabalho depois da reprimenda. Em 10 de janeiro, ele tratou uma mulher que sofria de glaucoma.; Ele não sabia que ela já tinha sido infectada pelo coronavírus, provavelmente por sua filha. As duas adoeceram, e ele também terminaria adoecendo.

Trajes de proteção e desinfetantes

Hu Xiaohu, que vende carne de porco industrializada no Mercado de Atacado de Frutos do Mar Huanan, percebeu no final de dezembro que alguma coisa de errado estava acontecendo. Trabalhadores estavam sendo abatidos por febres persistentes. Ninguém sabia o motivo, mas, disse Hu, diversos deles estavam em quarentena no hospital.

O mercado ocupa boa parte de uma área de um quarteirão em uma parte nova da cidade, e sua localização parece incongruente, perto de edifícios de apartamento e lojas que atendem à classe média crescente. O labirinto de barracas que vendem carne, aves e peixes também abriga vendedores de produtos mais exóticos, entre os quais répteis vivos e animais selvagens que algumas pessoas consideram como iguarias na China. De acordo com um relatório do centro municipal de controle de doenças, o saneamento é péssimo, com ventilação insuficiente e lixo acumulado em pisos molhados.

Nos hospitais, médicos e enfermeiras estavam intrigados diante de um grupo de pacientes que mostravam sintomas de uma pneumonia viral que não reagia aos tratamentos usuais. Eles logo perceberam que muitos daqueles pacientes tinham algo em comum: trabalhavam no mercado Huanan.

Em 1º de janeiro, policiais foram ao mercado, em companhia de agentes de saúde pública, e o fecharam. As autoridades locais divulgaram uma notificação de que o mercado estava passando por uma limpeza ambiental e higiênica relacionada ao surto de pneumonia. Naquela manhã, trabalhadores usando trajes contra contaminação se apresentaram no local, lavando barracas e aspergindo desinfetantes.

Foi, para o público, a primeira resposta visível do governo para conter a doença. No dia anterior, 31 de dezembro, as autoridades nacionais haviam alertado o escritório da OMS em Pequim sobre o surto.

As autoridades municipais adotavam um tom de otimismo em seus comunicados. Deram a entender que haviam detido o vírus em sua fonte. O grupo de pessoas infectadas pela doença era limitado. Não havia provas de que houvesse contaminação de pessoa a pessoa.

“Projetar otimismo e confiança, se você não tem os dados, é uma estratégia muito perigosa”, disse Alexandra Phelan, instrutora de pesquisa no corpo docente do departamento de microbiologia e imunologia da Universidade de Georgetown.

“Isso solapa a credibilidade do governo em suas mensagens”, ela acrescentou. “E a saúde pública depende da confiança pública”.

Nove dias depois do fechamento do mercado, um homem que fazia compras lá regularmente se tornou a primeira vítima fatal da doença, de acordo com um relatório da Comissão de Saúde de Wuhan, a agência que coordena a saúde e saneamento públicos na cidade. O paciente de 61 anos, identificado apenas pelo seu sobrenome, Zeng, já sofria de uma doença crônica no fígado e de um tumor no abdome, e tinha se internado no Hospital Puren, de Wuhan, com febre alta e dificuldade para respirar.

As autoridades revelaram a morte do paciente dois dias depois que aconteceu. Não mencionaram um detalhe crucial para compreender o curso da epidemia: a mulher de Zeng desenvolveu os sintomas da doença cinco dias depois dele.

Ela nunca havia visitado o mercado.

A corrida para identificar a causa de morte

A cerca de 30 quilômetros do mercado, os cientistas do Instituto de Virologia de Wuhan estavam estudando amostras extraídas dos pacientes internados nos hospitais da cidade. Uma das cientistas, Zheng-Li Shi, era parte da equipe que rastreou as origens do vírus da Sars, que emergiu na província de Guangdong, no sul do país, em 2002.

O público continuava em geral desinformado sobre o vírus, e ela e seus colegas rapidamente determinaram que o novo surto estava relacionado à Sars. A composição genética sugeria um anfitrião inicial comum: os morcegos. A epidemia de Sars começou quando um coronavírus saltou de um morcego para uma civeta de palmeira asiática, uma criatura semelhante a um gato que é criada e consumida legalmente como alimento na China. Era provável que o novo coronavírus tivesse seguido percurso semelhante – possivelmente em algum lugar do, ou a caminho do, mercado Huanan ou outro mercado semelhante.

Mais ou menos ao mesmo tempo, Li e outros profissionais de medicina em Wuhan começaram a tentar alertar os colegas e outras pessoas a quem o governo não estava avisando. Lu Xiaohong, a diretora de gastroenterologia do Hospital Municipal nº 5, disse ao Diário da Juventude Chinesa que havia sido informada por volta de 25 de dezembro de que a doença estava se espalhando entre os profissionais de saúde – isso três semanas inteiras antes que as autoridades reconhecessem o fato. Ela não foi a público com suas preocupações, mas alertou em caráter particular uma escola localizada perto de outro mercado.

Pela primeira semana de janeiro, a enfermaria de emergência do Hospital nº 5 já estava ficado lotada, e os casos incluíam membros de famílias de vítimas, o que deixava claro que a doença estava sendo difundida por contato humano, algo que o governo havia dito ser improvável.

Ninguém percebeu, disse a médica, que ela era tão séria quanto provaria ser, até que fosse tarde demais para detê-la.

“Percebi que havíamos subestimado o inimigo”, ela disse.

No instituto de virologia, Shi e seus colegas isolaram a sequência genética e a variante do vírus durante a primeira semana de janeiro. Usaram amostras de sete dos primeiros pacientes, seis dos quais vendedores no mercado.

Em 7 de janeiro, os cientistas do instituto deram ao novo coronavírus sua identidade e começaram a se referir a ele pela designação técnica 2019-nCoV. Quatro dias mais tarde, a equipe revelou a composição genética do vírus em um banco de dados público, para que cientistas de outros lugares pudessem ter acesso à informação.

Isso permitiu que cientistas de todo o mundo estudassem o vírus, e compartilhassem rapidamente suas descobertas. Enquanto a comunidade científica agia com rapidez para desenvolver um exame que determinasse exposição ao vírus, os líderes políticos continuavam relutando em agir.

“A política vem sempre em primeiro lugar”

Enquanto o vírus continuava se espalhando, no começo de janeiro, o prefeito de Wuhan, Zhou Xianwang, alardeava planos futuristas quanto aos serviços de saúde da cidade.

Era a temporada política na China, quando autoridades se reúnem para as reuniões anuais do Congresso do Povo – o Legislativo dominado pelo Partido Comunista, que discute e elogia decisões políticas. Não era um momento para más notícias.

Quando Zhou apresentou seu relatório anual ao Congresso do Povo, em 7 de janeiro, diante de um pano de fundo formado por bandeiras chinesas de um vermelho reluzente, ele prometeu que a cidade teria escolas de medicina de primeira linha, uma Exposição Mundial de Saúde e um parque industrial futurista para companhias do ramo médico. Nem ele e nem outros líderes da província mencionaram o surto viral, uma vez que fosse.

“Enfatizar a política vem sempre em primeiro lugar”, disse Wang Xiaodong, governador de Hubei, a outros líderes políticos em 17 de janeiro, mencionando os preceitos de Xi quanto à obediência à hierarquia. “Questões políticas são sempre as grandes questões mais fundamentais”.

Pouco depois, Wuhan levou adiante a realização de um banquete anual para as 40 mil famílias de um de seus bairros, o que críticos mais tarde mencionaram como prova de que os líderes locais não estavam encarando o vírus com a seriedade devida.

Enquanto o congresso acontecia, as atualizações diárias divulgadas pela comissão de saúde sobre o surto informavam seguidamente que não havia casos novos de infecção, nenhuma prova firme de transmissão por contato humano e nenhuma infecção entre os profissionais médicos.

“Sabíamos que isso não era verdade!”, afirma uma queixa apresentada mais tarde à Comissão Nacional de Saúde, em um site do governo. O autor anônimo da queixa disse que ele era médico em Wuhan e descreveu uma alta no número de doenças peitorais incomuns, começando em 12 de janeiro.

As autoridades disseram aos médicos de um dos maiores hospitais da cidade que não usassem “as palavras pneumonia viral em seus relatórios de imagem”, de acordo com queixa, que foi removida do site posteriormente. As pessoas trataram o caso com complacência, “acreditando que, se os relatórios oficiais nada diziam, certamente devíamos estar exagerando”, o médico explicou.

Mesmo algumas das vítimas da doença reagiam com complacência.

Quando Dong Guanghe desenvolveu uma febre em 8 de janeiro, em Wuhan, sua família não se alarmou, disse a filha dele. Dong foi tratado em um hospital e mandado para casa. Mas 10 dias mais tarde, a mulher de Dong começou a apresentar os mesmos sintomas.

“O noticiário não estava dizendo coisa alguma sobre a severidade da epidemia”, disse a filha, Dong Mingjing. “Achei que meu pai tinha um resfriado”.

Os esforços do governo para minimizar a divulgação pública de informações persuadiram mais do que apenas os cidadãos leigos.

“Se não surgirem novos casos nos próximos dias, o surto estará encerrado”, disse Guan Yi, um respeitado médico e professor de doenças infecciosas na Universidade de Hong Kong, em 15 de janeiro.

As declarações da OMS no período ecoavam as palavras reconfortantes das autoridades chinesas.

Mas a doença já havia se espalhado. A Tailândia reportou o primeiro caso fora da China, em 13 de janeiro.

Uma cidade sitiada

As primeiras mortes e a difusão da doença no exterior parecem ter capturado a atenção dos principais líderes do país, em Pequim. O governo nacional enviou Zhong Nanshan, um epidemiologista renomado que teve papel de destaque na luta contra a Sars e estava parcialmente aposentado, a Wuhan, para avaliar a situação.

Ele chegou em 18 de janeiro, no exato momento em que o tom das autoridades locais começou a mudar acentuadamente. Uma conferência de saúde na província de Hubei, naquele dia, conclamou os profissionais de saúde a fazer da doença uma prioridade. Um documento interno do Hospital União, de Wuhan, alertava os trabalhadores da instituição de que o coronavírus podia ser difundido pela saliva.

Em 20 de janeiro, mais de um mês depois que os primeiros sintomas começaram a se espalhar, a corrente de ansiedade que vinha ganhando força explodiu em público. Zhong anunciou em uma entrevista à TV estatal que não havia dúvida de que o coronavírus se difundia via contato humano. Pior: um paciente havia infectado pelo menos 14 profissionais de saúde.

Xi, que acabava de voltar de uma visita oficial a Mianmar, fez sua primeira declaração pública sobre o surto, divulgando um breve conjunto de instruções.

Foi só com a ordem de Xi que a burocracia entrou em ação. Àquela altura, o total de mortes era de três, mas cresceria a mais de 200 nos 11 dias seguintes.

Em Wuhan, a cidade proibiu grupos de excursão turística, e os moradores começaram a usar máscaras.

Guan Yi, o especialista de Hong Kong que havia expressado otimismo anteriormente de que o surto já tivesse passado de seu pico, ficou alarmado. Ele visitou um dos outros mercados de alimentos da cidade e ficou chocado diante da complacência, disse. Guan informou as autoridades municipais de que a epidemia “já estava fora de controle” e que ele estava indo embora. “Reservei apressadamente um voo de partida”, disse o médico à organização noticiosa chinesa Caixin.

Dois dias mais tarde, o governo municipal de Wuhan anunciou que cortaria o acesso à cidade, uma decisão que só pode ter sido tomada com a anuência de Pequim.

Em Wuhan, muitos moradores disseram que só foram compreender a gravidade da epidemia quando a cidade foi isolada. O alarme em massa que as autoridades temiam no começo do surto se tornou realidade, alimentado pela escassez de informação nos dias precedentes.

Multidões de pessoas lotavam o aeroporto e as estações de trens para sair da cidade antes da data limite, a manhã de 23 de janeiro. Os hospitais também estavam lotados de pessoas desesperadas por saber se também estavam infectadas.

“Não usávamos máscaras no trabalho. Isso poderia assustar os clientes”, disse a garçonete Yu Haiyan, da região rural de Hubei, sobre os dias anteriores ao bloqueio. “Foi só quando fecharam o acesso a Wuhan que pensei que a coisa era realmente séria, e não só um vírus comum”.

Zhou Xianwang, o prefeito de Wuhan, mais tarde assumiu a responsabilidade pela demora em reportar a escala da epidemia, mas disse que suas ações foram restringidas pela lei nacional sobre doenças infecciosas. A lei permite que governos provinciais decretem emergências apenas depois de receberem aprovação do governo central. “Quando recebo informações, só posso divulga-las ao ser autorizado”, ele disse.

O reflexo oficial de suprimir informações perturbadoras agora parece estar sendo abandonado, com funcionários de diversos níveis tentando empurrar a alguém mais a culpa pela resposta ineficiente do governo.

Com o agravamento da crise, os esforços de Li já não são vistos como irresponsáveis. Um comentário na conta de mídia social no Supremo Tribunal do Povo criticava a polícia por investigar pessoas pela difusão boatos.

“Poderia ter sido uma maneira melhor de prevenir e controlar o novo coronavírus hoje se o público tivesse acreditado no ‘boato’, então, e começado a usar máscaras e executar medidas sanitárias, e evitar o mercado de animais selvagens”, o comentário dizia.

Li tem 34 anos e um filho. Ele e a mulher estão esperando um segundo bebê para o terceiro trimestre. Ele agora está se recuperando do vírus no hospital em que trabalhava. Em uma entrevista via mensagem de texto, ele disse que desaprovava as ações da polícia.

“Se as autoridades tivessem revelado a informação sobre a epidemia antes”, ele disse, “ creio que as coisas teriam sido muito melhores. Deveria haver mais abertura e transparência”.

The New York Times, tradução de Paulo Migliacci

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