Descrição de chapéu Coronavírus

Pesquisas com hidroxicloroquina contra coronavírus ainda são preliminares

Esgotada em farmácias após anúncio de Donald Trump, hidroxicloroquina carece de novos testes

São Paulo

A busca por um tratamento contra a Covid-19 levou os cientistas a revisitar remédios que já são usados para outros fins e testá-los contra a nova doença. A escolha não é indiscriminada. Os pesquisadores partem de estudos publicados anteriormente e pinçam os químicos que têm a maior chance de combater o novo coronavírus.

A hidroxicloroquina, usada em casos de malária, lúpus e artrite reumatoide, entre outros, está sob os holofotes desde quinta (19), quando o presidente americano Donald Trump disse que a FDA, agência americana de regulamentação de alimentos e remédios, havia aprovado o uso de cloroquina e hidroxicloroquina em pacientes do coronavírus.

A hidroxicloroquina é um derivado menos tóxico da cloroquina, mas com efeitos semelhantes no corpo humano.

A decisão se baseia em estudos feitos com os remédios e que já tiveram os resultados publicados. Mas, entre artigos frágeis e robustos, especialistas da área concordam que as pesquisas são ainda muito preliminares e carecem de novas coletas de dados.

Uma dessas pesquisas, realizada in vitro, foi publicada por cientistas chineses na revista científica Nature na quarta (18) e trouxe resultados promissores do uso da hidroxicloroquina para combater o novo coronavírus em células do rim de uma espécie de macacos.

Pesquisadora com máscara que cobre nariz e boca, óculos de proteção transparente com aro preto, roupa preta e luvas azuis manipula pequeno recipiente em ambiente de laboratório
A pesquisadora Kylene Karnuth trabalha com amostras de coronavírus em teste com hidroxicloriquina na Universidade de Minnesota, em Minneapolis, nos EUA - Craig Lassig/Reuters

O artigo sugere que o remédio seria capaz de travar o mecanismo pelo qual o vírus entra na célula. Sem contato com o citoplasma —o fluido que fica ao redor do núcleo celular— o vírus não consegue fazer com que a célula produza mais cópias dele mesmo, que serviriam para contaminar outras células.

“É uma forma prática de encontrar um tratamento nesse cenário de surto da doença”, diz Rômulo Neris, virologista e pesquisador visitante na Universidade da Califórnia em Davis. “Alguns autores já haviam descrito o uso da cloroquina e derivados para tratar infecções virais. Mas são achados pré-clínicos, insuficientes para justificar o uso do remédio em casos da Covid-19”, afirma.

Segundo Neris, pesquisas como essa servem apenas para mostrar que o remédio tem potencial para combater o vírus e descrever os mecanismos de funcionamento da droga. “Isso não significa que ela seja eficiente para combater a infecção nas pessoas”, diz.

Para Rafaela Rosa-Ribeiro, bióloga brasileira que faz parte de projetos de pesquisas do novo coronavírus no Ospedale San Rafaelle, em Milão, o estudo chinês mostra que a droga tem potencial, assim como outros trabalhos que surgem agora.

"Muitos artigos começam a ser publicados e para a ciência isso é importante, quanto mais informação tivermos sobre o funcionamento do vírus, melhor. Mas esses estudos acabam trazendo conclusões um pouco precipitadas também”, diz a pesquisadora.

Nesta mesma semana, um artigo escrito por pesquisadores franceses ainda não publicado em revista científica, ou seja, não revisado por outros cientistas, trouxe resultados positivos do uso do remédio para tratar pacientes da Covid-19.

O estudo tem fragilidades do ponto de vista científico, como o número pequeno de pacientes —um grupo de 26 pessoas que tinham a confirmação da Covid-19 receberam a hidroxicloroquina, em alguns casos combinada com o antibiótico azitromicina. Outras 16 pessoas também infectadas formaram o grupo de controle e não receberam a droga.

A pesquisa não foi randomizada, o que significa que os dois grupos não eram iguais e comparáveis.

“É uma evidência de má qualidade”, afirma o cardiologista Luis Correia, professor da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, onde dirige o Centro de Medicina Baseada em Evidência.

“Não estamos diante de um tratamento que tem uma probabilidade especial de funcionar. Temos um trabalho no início, que é uma coleção de vieses. Embora indique um benefício, não aumenta em nada a probabilidade de que ele seja verdadeiro”, completa Correia.

O médico aponta ainda que, no estudo, pacientes que não completaram o tratamento foram excluídos dos dados. “Mas esse dado é muito importante para entender o resultado”, diz Correia.

A divulgação dos resultados com o medicamento e o endosso de Trump levaram a uma corrida até as farmácias que fez com que o remédio ficasse indisponível em algumas cidades brasileiras. Pacientes que dependem da droga tiveram dificuldade em encontrá-la.

Segundo Correia, essa é só uma das consequências desse tipo de ação. “O artigo não deveria ter sido publicado. A ciência precisa de tempo. Não há justificativa para ter pressa agora porque o preço que vamos pagar ali na frente é muito alto. O preço é a perda da racionalidade”, afirma o médico.

A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) afirmou que os medicamentos são registrados para o tratamento de artrite, lúpus eritematoso, doenças fotossensíveis e malária e que, apesar de promissores, não existem estudos conclusivos que comprovam o uso desses medicamentos para o tratamento da Covid-19. Também passará a cobrar que empresas que fabricam cloroquina e hidroxicloroquina peçam aval da agência para exportação dos produtos.

"Assim, não há recomendação da Anvisa, no momento, para o uso em pacientes infectados ou mesmo como forma de prevenção à contaminação. Ressaltamos que a automedicação pode representar um grave risco à sua saúde."

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