Descrição de chapéu The New York Times

Sistema de saúde da Itália vacila com o coronavírus, uma advertência ao mundo

Pacientes foram mandados para casa, médicos não trataram os idosos e sistema foi sobrecarregado depois

Roma | The New York Times

O prefeito de uma cidade se queixou de que os médicos foram obrigados a decidir não tratar os muito velhos, deixando-os à morte. Em outra cidade, pacientes com pneumonia causada pelo coronavírus foram mandados para casa. Em outro lugar, uma enfermeira desmaiou com a máscara no rosto e sua imagem se tornou um ícone dos profissionais médicos exaustos.

Em menos de três semanas, o coronavírus sobrecarregou o sistema de saúde do norte da Itália. Ele transformou a região duramente atingida da Lombardia, no norte, em um feia visão do que aguarda os países se não conseguirem conter a disseminação do vírus e "achatar a curva" de novos casos --permitindo que os doentes sejam tratados sem esgotar a capacidade dos hospitais.

Do contrário, até os hospitais em países desenvolvidos com o melhor atendimento de saúde correm o risco de se tornar alas de triagem, obrigando médicos e enfermeiros comuns a tomar decisões extraordinárias sobre quem poderá viver ou morrer. O norte rico da Itália já enfrenta uma versão desse pesadelo.

"Isto é uma guerra", disse Massimo Puoti, chefe de medicina infecciosa no Hospital Niguarda de Milão, um dos maiores da Lombardia, região no norte da Itália que é o centro da epidemia de coronavírus no país.

Ele disse que o objetivo é limitar as infecções, afastar a epidemia e aprender mais sobre a natureza do inimigo. "Precisamos de tempo."

A Itália depois implementou medidas draconianas —restringindo o movimento e fechando todas as lojas, exceto farmácias, supermercados e outros serviços essenciais. Mas elas não vieram a tempo de evitar o aumento de casos que sobrecarregou até seu bem avaliado sistema de saúde.

A experiência da Itália salientou a necessidade de agir com decisão —rápida e prematuramente—, bem antes que o número de casos chegue perto de níveis críticos. Nesse ponto, talvez seja tarde demais para evitar um pico de casos que force os sistemas além de seus limites.

Como a Itália parece ter ultrapassado esse limite, seus médicos se veem em uma posição extraordinária, geralmente inexistente em países europeus desenvolvidos, com sistemas de saúde pública desde a Segunda Guerra Mundial.

Médicos comuns estão de repente vivendo situações de guerra. Eles enfrentam questões de triagem enquanto cirurgias são canceladas, os respiradores se tornam recursos raros e as autoridades propõem transformar espaços de exposição abandonados em pavilhões de tratamento intensivo.

Os hospitais estão erguendo tendas seladas para doenças infecciosas. Em Brescia, os pacientes estão amontoados nos corredores.

"Vivemos em um sistema em que garantimos a saúde e o direito de todos a ser curados", disse o primeiro-ministro Giuseppe Conte na segunda-feira (9), ao anunciar medidas para manter os italianos em suas casas.

"É um alicerce, um pilar, e eu diria uma c aracterística de nosso sistema de civilização", disse ele. "Portanto, não podemos nos permitir baixar a guarda."

Por enquanto, especialistas em saúde pública italianos afirmam que o sistema, embora fortemente ameaçado, está se mantendo e que os milhares de pessoas que fazem testes, atenção em pronto-socorros e tratamento intensivo os estão recebendo de graça, mantendo intacto o princípio central da democracia italiana.

Mas antes que a região da Lombardia centralizasse sua comunicação na quinta-feira (12), parecendo reprimir os médicos e enfermeiros que falaram sobre as condições, surgiram imagens perturbadoras da vida nas trincheiras contra a infecção.

A foto da enfermeira Elena Pagliarini, que desmaiou com sua máscara em um hospital na cidade de Cremona, no norte, depois de trabalhar dez horas seguidas, tornou-se o símbolo do sistema sobrecarregado.

"Estamos em nossas últimas forças, física e emocionalmente", disse Francesca Mangiatordi, uma colega que tirou a foto, na televisão italiana na quarta, pedindo que as pessoas se protejam para evitar a propagação do vírus. "Se não a situação vai desmoronar, se é que já não desmoronou."

Fabiano Di Marco, chefe de pneumologia no Hospital Papa Giovanni 23 em Bérgamo, que passou a dormir em seu consultório, disse na quinta que os médicos literalmente "traçam uma linha no chão para dividir a parte limpa do hospital da suja", onde qualquer coisa que eles toquem é considerada contagiosa.

Giorgio Gori, prefeito de Bérgamo, disse que em alguns casos na Lombardia o abismo entre os recursos e o enorme influxo de pacientes "obrigou os médicos a decidir não intubar alguns pacientes muito velhos", basicamente deixando-os entregues à morte.

"Se houvesse mais unidades de tratamento intensivo, seria possível salvar mais vidas", disse ele.
Di Marco contestou a declaração do prefeito, dizendo que todos receberam cuidados, mas acrescentou: "É evidente que neste momento, em alguns casos, pode acontecer de termos uma avaliação comparativa entre pacientes".

Flavia Petrini, presidente do Colégio Italiano de Anestesia, Analgesia, Ressuscitação e Tratamento Intensivo, disse que seu grupo emitiu diretrizes sobre o que fazer em um período que se aproxima da "medicina catástrofe" da época da guerra.

"Em um contexto de grave escassez de recursos", diz o documento, o tratamento intensivo deve ser dado a "pacientes com maior chance de sucesso" e aqueles com a "melhor esperança de vida" devem ter prioridade.

As diretrizes também dizem que "no interesse de maximizar os benefícios ao maior número" de pessoas, limites podem ser impostos às unidades de tratamento intensivo para reservar recursos escassos aos que têm, em primeiro lugar, "maior probabilidade de sobrevivência e, segundo, os que têm mais anos de vida em potencial".

"Ninguém está sendo mandado embora, mas estamos oferecendo critérios de prioridade", disse Petrini. "Essas opções são feitas em tempos normais, mas não é normal você ter de atender 600 pessoas ao mesmo tempo."

Giulio Gallera, a autoridade da Lombardia que comanda a resposta de emergência, disse na quinta que espera que as diretrizes não precisem ser aplicadas.

Ele também disse que a região está trabalhando com a agência de defesa civil da Itália para estudar a possibilidade de usar um espaço de exposições abandonado por convenções canceladas como uma ala de UTI com 500 leitos.

Mas a região precisa de médicos e de respiradores, disse ele. "O surto colocou os hospitais sob estresse sem precedentes desde a Segunda Guerra Mundial", disse Massimo Galli, diretor de doenças infecciosas no Hospital Universitário Sacco, em Milão, que está tratando muitos pacientes de coronavírus. "Se a maré continuar subindo, as tentativas de construir diques para contê-la se tornarão cada vez mais difíceis."
Galli indicou que os decretos de emergência do governo tentaram promover a contratação de milhares de médicos e trabalhadores de saúde —incluindo médicos residentes no último ano de faculdade--, mas é demorado treinar novos médicos, mesmo os transferidos de outros departamentos, que têm pouca experiência com doenças infecciosas. Os médicos também são altamente expostos ao contágio.

Carlo Palermo, presidente da associação que representa os médicos de hospitais públicos da Itália, disse que o sistema até agora aguentou, apesar de anos de cortes de orçamento. Também ajudou, segundo ele, o fato de ser um sistema público. Se fosse baseado em seguros, haveria uma reação "fragmentada", disse.

Palermo afirmou que como 50% das pessoas que deram positivo no teste do vírus exigiam alguma forma de hospitalização, há um evidente estresse no sistema. Mas os 10% que exigem tratamento intensivo, que requer entre duas e três semanas de internação, "podem saturar a capacidade de resposta".

Muitos especialistas comentaram que se o rico e sofisticado sistema de saúde do norte da Itália não conseguir suportar o peso do surto é altamente improvável que o sul mais pobre consiga reagir.

Se o vírus se espalhar para o sul no mesmo ritmo, disse Palermo, "o sistema não aguentará e não poderemos garantir o tratamento."

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves 

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