Sem auxílio público, moradores da periferia de SP recebem comida de voluntários

Doações de centenas de cestas básicas chegaram ao Jardim Papai Noel após reportagem da Folha

São Paulo

Uma multidão de pessoas que sofrem com falta de alimentos reuniu na última sexta-feira (10) para receber cestas básicas no Jardim Papai Noel, em Parelheiros, extremo sul da capital paulista.

A fome se espalhou pela periferia da cidade e, no Jardim Papai Noel, cheio de trabalhadores autônomos, o problema atinge parte importante da vizinhança.

As cestas foram doadas por várias pessoas que leram reportagem da Folha, da série Fome na Pandemia, mostrar a falta de alimentação no bairro. Devido às medidas da querentena autônomos e moradores de rua ficaram sem dinheiro para comprar comida e crianças, sem as refeições que faziam na escola, conforme vem mostrando na série Fome na Pandemia.

Conforme a Folha mostrou, no Jardim Papai Noel, muitas crianças ficaram sem merenda e algumas vezes fazem refeições compostas apenas por arroz. Auxílios prometidos pelo poder público durante a quarentena ainda não chegaram a muitos moradores do bairro.

As principais medidas para garantir a alimentação e despesas básicas durante a quarentena contra o coronavírus só chegaram semanas depois do início do isolamento e ainda podem deixar de fora pessoas pessoas em situação de vulnerabilidade.

Só na sexta 250 cestas básicas foram doadas aos moradores, em ação organizada pela Associação Unidos Comunitário do Jardim Papai Noel, tocada por Maria de Loudes dos Anjos Pereira, 57, e sua família. A empresa Engeform, que fez as doações, afirma que iniciou uma campanha e enviará mais mantimentos em breve.

Entre os que receberam ajuda, estava Rosângela Silva, 36, mãe de cinco filhos que teve a história contada pela Folha.

Voluntários distribuem cesta básica para Rosângela da Silva, em Parelheiros
Voluntários de associação distribuem cesta básica para Rosângela da Silva, em Parelheiros - Reprodução

Ela mora na parte mais pobre de um bairro paupérrimo, em um barraco de madeira com chão de terra, onde só se chega por uma trilha. Os filhos dela, o mais novo com três anos, sentiram a mudança na alimentação após a escola ter as aulas interrompidas e ficarem sem merenda.

Sem opção, ela sustenta os filhos vendendo chicletes e por meio de doações que recebe nas ruas. No entanto, não consegue comprar frutas, verduras, carne ou pão.

O pedreiro Márcio Pereira da Silva, 40, também entrevistado pela Folha, recebeu alimentos também.

Ele diz que já teve ocasiões em que a comida era arroz puro. "Ô bicho ruim, só com o tempero do sal mesmo." Sem gás, ele agradece quando tem o feijão como par do arroz. Tudo feito num fogão a carvão, improvisado por ele para substituir o gás.

O filho mais novo, de três anos, não se conforma com o novo cardápio. "Diz todo dia: 'Pai, eu quero danone. Pai, eu quero maçã'. Ontem bem cedo estava pedindo o quê? Morango! Eu digo: 'Ah, meu filho, você não tá na creche não, você tá em casa. Na creche você tinha essas coisas'", conta.

Após reportagem da Folha, a Defensoria Pública e o Ministério Público conseguiram decisão judicial que obriga a Prefeitura de SP e o governo estadual a darem um voucher para todos os alunos de escola. Antes, os valores que oscilam entre R$ 55 e R$ 101 eram voltados apenas a alunos cujas famílias estavam em cadastros de assistência social.

Voluntários organizam cestas básicas para doação em Parelheiros
Voluntários organizam cestas básicas para doação em Parelheiros - Reprodução
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