Bélgica ultrapassa China em mortos por coronavírus

Mortalidade é 3ª do mundo e 47% das mortes ocorreram em asilos; nem todas tiveram contágio confirmado

Bruxelas

Não houve caos nos hospitais nem falta de caixões ou sepulturas, mas a Bélgica viu seu número de mortos por coronavírus ultrapassar o da China neste sábado (11).

Com pouco mais de 11 milhões de habitantes, uma população semelhante à do Rio Grande do Sul, o país europeu chegou a 3.346 mortes nesta pandemia, 7 a mais que a China, que supera 1,4 bilhão de habitantes.

Na proporção da população, a Bélgica tem uma das maiores taxas de mortalidade do mundo, cerca de 29 por 100 mil habitantes. Tirando San Marino e Andorra (pequenos Estados​, com 33 mil e 7.000 residentes, respectivamente), a Bélgica só é superada por Espanha e Itália, dois dos países que mais sofreram durante esta pandemia, com hospitais entrando em colapso e doentes morrendo sem atendimento.

Nos hospitais belgas, porém, a ocupação das UTIs nunca ultrapassou 60% desde 4 de fevereiro, quando foi confirmado o primeiro caso de Covid-19 (doença provocada pelo coronavírus).

O fenômeno da alta mortalidade no país está diretamente ligado aos asilos: de cada 100 mortes contabilizadas pelo governo belga, 40 ocorreram nessas instituições onde vivem idosos, sem que eles chegassem a ser hospitalizados.

Embora sejam incluídos no número oficial de mortes pelo governo da Bélgica, parte dessas pessoas não chegou a ter a infecção por coronavírus confirmada. Metade dos mortos no país tinha mais de 85 anos, e cerca de 80% já haviam passado dos 70.

A situação dos asilos é mais grave na região de Flandres, de língua flamenga: quase a metade (47%) das mortes registradas ali foram em asilos. Nas outras duas regiões belgas, Valônia e Bruxelas, as porcentagens são 38% e 36%, segundo relatório desde sábado.

Com o crescimento de casos da doença na Europa, a Bélgica proibiu visitas a residências de idosos, mas isso não foi suficiente para conter a transmissão. Em pelo menos 20 asilos de Flandres há número alto de infectados com o coronavírus, e mortes acima das esperadas.

Bruxelas adotou normas restritas de quarentena para tentar conter a pandemia de coronavírus
Bruxelas adotou normas restritas de quarentena para tentar conter a pandemia de coronavírus - Kenzo Tribouillard - 11.abr.2020/AFP

“Não há como fechar o estabelecimento hermeticamente. Ainda existe um risco de infecção, e de ela se espalhar”, disse um porta-voz do governo a uma TV belga no final de março, quando 19 casos foram diagnosticados num único lar onde viviam 229 idosos na cidade de Saint-Gilles-Waas.

O governo começou a enviar para as casas de repouso profissionais da “reserva técnica de saúde”: residentes, médicos e enfermeiros aposentados e outros técnicos com formação em assistência a doentes.

Segundo Yves Coppieters, epidemiologista e professor da Escola de Saúde Pública da Universidade Livre de Bruxelas, uma solução para prevenir mais mortes em asilos seria transferir idosos com suspeita ou sintomas de Covid-19 para hospitais.

No caso de Saint-Gilles-Waas, três pessoas foram hospitalizadas, e uma morreu. O médico diz que as casas de idosos não têm as condições mais adequadas para tratar doentes, mas é preciso avaliar também os leitos disponíveis nos hospitais.

Na Alemanha, que tem uma das menores taxas de mortalidade até agora, a estratégia é de antecipar o atendimento hospitalar de pessoas mais vulneráveis, assim que surgem os primeiros sintomas.

Outra medida fundamental é testar todos os funcionários das casas de repouso. Na Bélgica, a proporção é de 4 funcionários para cada 10 idosos, e, sem controle de infecção eles se tornam foco de transmissão da doença.

Os testes também são necessários para evitar que os funcionários levem o coronavírus dos asilos para suas casas. Em um asilo de Bruges, 45 moradores e 7 funcionários se contaminaram, e 7 idosos morreram.

Nesta sexta, a OMS chamou a atenção para o número de trabalhadores da saúde contaminados pelo coronavírus (em alguns centros, chegam a 10%, segundo a agência da ONU), e reforçou a importância de acompanhar o contágio em instituições de longa permanência, como os asilos.

No começo de abril, o governo belga anunciou que destinaria 20 mil kits de testes para os asilos, número insuficiente para verificar a contaminação dos funcionários. Só na Valônia, 18 mil pessoas trabalham nessas instituições.

Em Flandres, devem ser testados funcionários de 55 asilos e, em outros 30, feitos exames por amostragem.

A Bélgica registrou a primeira morte por Covid-19 no dia 11 de março; suspendeu eventos no dia 14, fechou escolas no dia 15 e proibiu a abertura de lojas não essenciais no dia 17.

Também determinou que as pessoas só devem sair de casa para comprar comida ou remédios, ir ao médico ou fazer exercícios físicos. O uso de máscara nas ruas não é obrigatório.

Em Bruxelas, as pessoas se mantêm à distância de cerca de dois metros em filas ou quando se cruzam nas calçadas. Na maioria das lojas, há um limite de clientes, e só é permitido entrar quando outra pessoa sai.
Funcionários de supermercados e algumas lojas menores usam máscaras e luvas e, em alguns estabelecimentos, uma vitrine de vidro ou plástico foi montada em frente às caixas registradoras.

Na última semana, o governo belga montou uma comissão de dez pessoas ---cientistas, consultores jurídicos e economistas--- para discutir uma estratégia de relaxamento das medidas de distanciamento e isolamento.

Segundo o governo, isso pode acontecer a partir de 5 de maio, de forma gradual. A Bélgica confirmou 28.018 casos nesta pandemia, 10º maior número global. Cerca de 18 mil continuam internados, 1.262 em estado crítico. Quase 6.000 pessoas se recuperaram até este sábado.

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.