Descrição de chapéu O que foi a Ditadura

Cor de campanha pela democracia, amarelo está presente nas religiões

Do candomblé ao hinduísmo, cor veste divindades e indica renovação

Vanessa Henriques
São Paulo

Um dos atos mais emblemáticos de enfrentamento à ditadura militar no Brasil envolveu três líderes religiosos. O cardeal dom Paulo Evaristo Arns, o rabino Henry Sobel e o reverendo James Wright celebraram, em outubro de 1975, um ato ecumênico na Catedral da Sé em memória do jornalista Vladimir Herzog, torturado e morto pelo regime.

Alguns anos depois, comícios em todo o país exigiam a realização de eleições presidenciais diretas. Inspirado nesse período das Diretas Já, a Folha lançou na última semana uma campanha em defesa da democracia, com o slogan #UseAmarelo pela Democracia.

Em diferentes religiões, a cor amarela remete a alguma simbologia. No candomblé, cada um dos orixás (divindades da religião iorubá) simboliza um elemento da natureza e possui uma cor de preferência. O amarelo seria a cor de Oxum, orixá feminino que representa a riqueza, a beleza e a fertilidade, explica o sociólogo Reginaldo Prandi.

Apesar da vaidade de Oxum, que carrega um espelho em sua mão, ela também é considerada uma guerreira e recorre à espada quando preciso. “Nos momentos nos quais o reino do qual ela faz parte está em perigo, Oxum deixa a beleza de lado, pega a espada e vai guerrear junto com os homens”, afirma Prandi, autor de “Mitologia dos Orixás”.

‘Oxum’, obra do pintor Carybé; orixá representa a beleza e a fertilidade - Divulgação

Para o sociólogo, Oxum pode ser uma alegoria da própria democracia. “Ela tem muitos elementos do que a gente imagina numa democracia ideal, como a prosperidade e o amor”, diz.
Em algumas vertentes do budismo, o amarelo representa o desapego aos bens materiais e a adoção de uma vida mais simples.

Na Bíblia hebraica, a cor é mencionada em poucos momentos, ora associada à pureza, transparência e brilho, ora à palidez de pânico ou a uma doença que deixa o corpo amarelo, explica Suzana Chwarts, professora de estudos bíblicos na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Na Cabala, o amarelo é a cor conceitual da emanação divina central denominada Tiferet, simbolizada pelo Sol.

Segundo o padre Gilvan Leite, professor da PUC-SP, na tradição cristã o amarelo é pouco recorrente em escrituras ou ritos. É comum a substituição da cor pelo dourado, que remete à realidade celeste. Em pinturas ou representações, o amarelo é usado em halos de anjos e santos em referência ao plano espiritual.

No hinduísmo, o amarelo é a cor do conhecimento e da aprendizagem, simbolizando a felicidade, a paz, a meditação e o desenvolvimento mental. “É a cor da primavera e que ativa a mente. O vestido da divindade Vishnu é amarelo, simbolizando sua representação do conhecimento. Seu avatar Krishna e o deus Ganesha também usam vestidos amarelos”, afirma Frank Usarski, professor da pós-graduação em Ciência da Religião da PUC-SP.

Para o antropólogo Rodrigo Toniol, os grupos religiosos poderiam se engajar mais na defesa da democracia, a exemplo do que ocorreu durante a ditadura. Ele critica o discurso religioso intolerante, que ganhou proeminência na última década na figura de líderes com atuação política. “O campo religioso mudou, mas não significa que o campo religioso inteiro esteja em oposição aos valores democráticos”, afirma.

Toniol também vê com receio o embrutecimento das relações, do diálogo e do debate de ideias. Para mudar esse cenário, o antropólogo Vagner Gonçalves da Silva sugere adotar o comportamento elegante e conciliador de Oxum. “Ela é mãe, fertilidade, irmandade e cuidado com o outro, e a democracia também é isso: nos sentirmos parte de uma coletividade que respeita os direitos e deveres estabelecidos igualmente para todos”, completa.

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