Especialistas apostam em tratamento com anticorpos, vacinas terapêuticas personalizadas e edição genômica para combater câncer

Enquete feita pela Fiocruz e pela Federal do Rio com mil médicos, pesquisadores e ativistas aponta o que eles consideram mais promissor

J. Marcelo Alves
São Paulo

A terapia contra o câncer evoluiu muito nas últimas décadas. Pesquisas em genética, biologia molecular, celular e imunologia têm levado a tratamentos direcionados para as células tumorais –a chamada medicina de precisão, específica para cada câncer e até para cada paciente.

Até o início do século 20, somente os cânceres bem pequenos e localizados, em estágios iniciais, podiam ser curados, seja por cirurgia ou, desde os anos finais do século 19, também por radioterapia.

As primeiras quimioterapias efetivas vieram de uma descoberta acidental: ao perceber que o gás mostarda utilizado como arma química na 1ª e 2ª Guerras Mundiais afetava a multiplicação celular, médicos logo começaram a experimentar com o uso de derivados do gás para tratar linfomas, iniciando a era da quimioterapia.

Na metade do século 20, começam a aparecer também os temas ligados à prevenção e à detecção precoce do câncer, como os primeiros estudos mostrando a ligação causal entre tabagismo e câncer de pulmão.

Paciente realiza tratamento de radioterapia com acelerador linear no Hospital A.C. Camargo, em São Paulo, em 2014 - Lalo de Almeida/ Folhapress

Segundo Luiz Antônio Santini, pesquisador do Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz, as únicas abordagens para o combate ao câncer até o final dos anos 1990 –cirurgia, quimioterapia e radioterapia– eram pouco variáveis em face do fato de que o câncer é, na verdade, um complexo de doenças que muitas vezes parecem só ter em comum a multiplicação desordenada de células.

Os avanços recentes em biologia do câncer trouxeram vários tipos de tecnologias promissoras. O tema foi discutido, nesta terça-feira (22), no sétimo Congresso Todos Juntos Contra o Câncer, realizado virtualmente.

Em uma pesquisa online da Fiocruz e da Universidade Federal do Rio de Janeiro com mais de mil respondentes –entre pesquisadores internacionais, médicos brasileiros dos setores público e privado e ativistas do Movimento Todos Juntos Contra o Câncer–, as mais frequentemente citadas como tratamentos de impacto, atual ou futuro, são as terapias com anticorpos, as vacinas terapêuticas personalizadas e a edição genômica (mudar o genoma do paciente para corrigir mutações relacionadas ao câncer).

No diagnóstico, métodos de biópsia líquida, que identificam na corrente sanguínea fragmentos de DNA do tumor, têm a grande vantagem de serem rápidos, não invasivos e capazes de detectar tumores em estágios iniciais de desenvolvimento.

A maioria dos respondentes é otimista quanto à incorporação, tanto no SUS quanto na medicina privada, da inteligência artificial e das tecnologias de informação e comunicação para melhorar o acesso e a eficiência dos sistemas de saúde no combate ao câncer.

Tecnologias leves, que cuidam dos aspectos mais relacionados a humanização, melhora das políticas sociais e previdenciárias, e a utilização de práticas integrativas complementares também foram identificadas como muito importantes no combate ao câncer em todas as suas fases.

Há também desafios e incertezas para que as inovações tecnológicas entrem no mercado. Em especial, alto custo de produção e desenvolvimento, acesso ao conhecimento e à tecnologia de produção, dificuldades na incorporação e organização pelos sistemas de saúde e tratamentos personalizados com grupos menores de pacientes elegíveis –quanto menos pacientes se beneficiam de um tratamento, mais difícil é testar sua eficácia e, por falta de economia de escala, mais caro ele fica.

O Congresso Todos Juntos Contra o Câncer segue com programação até sexta-feira (25), e as inscrições ainda podem ser feitas pelo site oficial​.

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