Falta de mensagens claras do governo causou exposição ao coronavírus, diz especialista

Live discutiu efeitos das fake news e desinformação com a presidente do Instituto Palavra Aberta, Patrícia Blanco, e Natália Leal, da Agência Lupa

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A falta de mensagens claras do governo federal durante a pandemia do novo coronavírus levou os brasileiros a ficarem expostos a riscos desnecessários. Ainda que não seja possível relacionar as falas do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) a um maior número de mortes em decorrência da Covid-19 —sem que uma pesquisa séria aponte isso—, não temos condições de bancar situações como essa.

"Em um país tão desigual, não podemos nos dar ao luxo de lidar com a desinformação", afirma Natália Leal, coordenadora de conteúdo, da Agência Lupa, que faz checagem de informações.

Essa situação é agravada pelo cenário de polarização política que o país vive. "A tendência de negar fatos em razão da suas crenças, da sua ideologia, que é a pós-verdade, acaba criando um ambiente de polarização", completa a presidente do Instituto Palavra Aberta, Patrícia Blanco, que trabalha com temas ligados à liberdade de informação e, entre outros, a educação midiática.

Natália e Patrícia foram as entrevistadas no Ao Vivo em Casa, série de lives da Folha para o período de quarentena. A entrevista foi conduzida pelo jornalista Emilio Sant'Anna.

Segundo Patrícia, esse ambiente polarizado, em que as informações podem ser distorcidas para o uso de acordo com a crença pessoal, resultou na descrença de parte da população na letalidade e perigo do vírus.

"Sem saber em quem acreditar, a gente acredita em qualquer um. Isso faz com que o ambiente informacional fique cada vez mais poluído e a gente não consiga ver uma luz no fim do túnel", afirma.

Natália lembrou de casos de fake news checadas e esclarecidas pelo trabalho da Agência Lupa. Assim como o vírus, as notícias falsas se propagaram com rapidez durante esta pandemia e causaram problemas como hospitais invadidos —após o boato de que eles estariam vazios— e pessoas abrindo caixões lacrados por suspeitarem que as mortes também fossem falsas.

"Estamos falando de histórias, teorias conspiratórias e de uma grande distorção de casos e de dados, que muitas vezes são verdadeiros, mas são distorcidos para serem levados para outro lugar, para outra conclusão", diz Natália.

Casos como esses reforçam a necessidade de investimentos na educação midiática, ou "news literacy", conjunto de habilidades que preparam os alunos para analisar, criar e participar de maneira crítica do ambiente informacional e midiático.

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) já prevê a educação midiática, mas sua implementação de forma consistente ainda parece longe de ser uma realidade, o que favorece a continuidade da disseminação de notícias falsas —com potencial para causar até problemas de saúde.

ao vivo em casa com Patrícia Blanco e Natália Leal
Ao Vivo em Casa, com Patrícia Blanco e Natália Leal - Reprodução
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