Descrição de chapéu Coronavírus

Pesquisa comprova eficiência de telas de vidro ou acrílico contra Covid em salas de aula

Outras recomendações incluem abrir as janelas, distanciar as carteiras e evitar assentos do meio da sala

Ana Paula Lisboa
Brasília

Um estudo da Universidade do Novo México comprovou a eficácia de instalar barreiras de vidro, acrílico ou acetato em salas de aula para evitar a disseminação da Covid-19. A pesquisa também recomenda espaçar mais as carteiras e manter as janelas abertas.

As conclusões tomam como base simulação computadorizada que investiga a circulação de gotículas e aerossóis (partículas muito pequenas em suspensão no ar) no ambiente. As descobertas foram publicadas na revista Physics of Fluids, do Instituto Americano de Física (API, na sigla em inglês).

As barreiras transparentes utilizadas no estudo tinham 70 cm de altura. O ideal é que a proteção seja aproximadamente 30 cm mais alta do que o aluno sentado. A sala analisada era equipada com ar-condicionado, e as barreiras de vidro ou de acetato se mostraram eficazes nessa condição.

Alunos participam de aula presencial em uma escola na cidade de Manaus em julho - Lucas Silva/AGIF

“Elas não param as partículas de 1 mícron [milésima parte do milímetro] diretamente, mas influenciam o campo de fluxo de ar local perto da fonte e reduzem a transmissão de forma consistente”, afirma Khaled Talaat, um dos autores da pesquisa.

Talaat recomenda a instalação desse tipo de barreira em frente às carteiras em qualquer sala de aula, com ou sem ar-condicionado.

“Essas telas podem proteger parcialmente contra gotículas liberadas durante tosse e espirros. Não são uma alternativa às máscaras, apenas uma camada extra de proteção”, diz.

“Quando há uma barreira, você muda a dinâmica do fluxo de ar naquele espaço confinado. Se um jato de ar sai da boca de uma pessoa, a barreira pode mudar a trajetória de modo que as partículas não fiquem na altura da respiração da criança da carteira seguinte”, reforça Milena Ponczek, pós-doutoranda em ciências atmosféricas no Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP).

Ponczek explica que, quando uma pessoa fala, tosse ou espirra, joga para fora ar repleto de partículas de diferentes tamanhos.

“Se alguém estiver infectado com coronavírus, essas gotículas estarão com o vírus. Uma gotícula expelida pode conter centenas deles”, diz. Um complicador é que, com o passar do tempo, essas partículas perdem água, ficam mais leves e, consequentemente, passam mais tempo flutuando. “Quanto maior o período num espaço fechado, maior o risco”, alerta.

Os estudiosos da Universidade do Novo México sugerem ainda eliminar as cadeiras da parte central da sala de aula, já que verificaram que os alunos nessa área, atingidos por maior fluxo de ar e cercados de colegas, transmitem mais partículas.

Da mesma forma, existem posições nas quais os estudantes recebem menos partículas de aerossol. No caso analisado, os cantos de trás eram os locais mais seguros. “Isso porque quem senta nesses lugares está cercado por paredes de dois lados”, afirma Khaled Talaat.

Identificar os assentos considerados mais seguros não é tarefa simples, e tentar achar lugares resguardados pode ser perigoso, como alerta Milena Ponczek. “A gente não pode extrapolar resultados para outros ambientes. Vai depender de cada sala em particular, de onde está a fonte de ar.”

A pesquisa norte-americana reforça a importância de higienizar as mãos constantemente, mesmo sem ter contato físico com outras pessoas e seus objetos. Os pesquisadores observaram que partículas contendo o novo coronavírus podem se fixar em carteiras, roupas, cadernos e outras superfícies mesmo com as pessoas separadas por uma distância de 2,40 m.

“As partículas menores viajam por muito mais que dois metros. Ainda não há um número considerado totalmente seguro para ambientes fechados”, observa Milena Ponczek.

Porta-voz da Sociedade Brasileira de Infectologia, o médico José David Urbaéz reconhece que as medidas de distanciamento de 1,50 m e 1,60 m são insuficientes para espaços fechados, considerados locais de altíssimo risco de transmissão.

Em salas de aula, Urbaéz recomenda usar máscara o tempo todo, garantir uma boa circulação de correntes do ar e a limpeza de todas as superfícies das salas de aula, incluindo as barreiras de vidro ou acrílico, a cada hora, ou ao menos três limpezas por período (matutino, vespertino ou noturno).

Os autores norte-americanos ponderam que o ar-condicionado traz riscos e, para ser usado, deve contar com um sistema eficaz de filtração e de esterilização. Caso a escola opte por utilizar esse aparelho, a recomendação é deixar as janelas abertas.

“Isso pode não ser eficiente do ponto de vista do consumo de energia, mas aumenta significativamente a fração das partículas de aerossol que saem da sala”, explica Talaat.

O uso de aparelhos de ar-condicionado é fortemente desencorajado por infectologistas como Urbaéz. “Além disso, para climatizar, você tem que fechar o ambiente”, aponta o médico. Usar o aparelho com a janela aberta, como sugerido pelos pesquisadores, seria, assim, pouco prático.

Milena Ponczek observa que a identificação do melhor local para instalar ventiladores dependeria de mais estudos. Para evitar erros, o melhor cenário é ter as janelas abertas e, se possível, um sistema de circulação de ar forçada, por meio de um exaustor, que promova trocas entre o ar de dentro e de fora da sala.

Outro equipamento recomendado pela estudiosa é um monitor de CO2, Ponczek acrescenta que, mesmo antes da pandemia, esse tipo de equipamento era utilizado em elevadores na França, onde ela fez doutorado em química atmosférica e climatologia. Em ambientes fechados, ele ajuda a verificar que esteja havendo renovação do ar.

Esta reportagem foi produzida no âmbito do Programa de Treinamento em Jornalismo de Saúde, que conta com o patrocínio do Laboratório Roche e da Rede D’Or São Luiz​.

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