Descrição de chapéu Coronavírus Rio de Janeiro

RJ vê internações e filas por leitos caírem, mas risco segue alto

Médicos e pesquisadores temem efeitos do Carnaval e da nova variante do coronavírus em Manaus

Rio de Janeiro

Após dois colapsos durante a pandemia, o Rio de Janeiro vive hoje um respiro nos seus hospitais. As internações e a fila por leitos vêm sofrendo uma queda nas últimas semanas e intrigando médicos e pesquisadores num estado onde os serviços não fecharam e as ruas permanecem cheias.

Ainda é difícil saber quando essa curva descendente começou exatamente e quanto tempo ela vai durar. Fato é que, por enquanto, o nível de hospitalizações permanece alto e não permite baixar a guarda nos cuidados ou desmobilizar leitos, segundo esses especialistas.

Um dos motivos do temor é o feriado de Carnaval, que está mantido para os fluminenses, embora sem o desfile das escolas de samba e blocos. O outro é a nova variante do coronavírus que foi encontrada primeiro em Manaus, depois em São Paulo, e agora provavelmente já está se espalhando.

“Pode ser precipitado falar que estamos caminhando em uma direção favorável, mas os sinais indicam que não vivemos um agravamento. Se estivéssemos com crescimento muito grande, estaríamos observando indícios”, diz Marcelo Gomes, pesquisador da Fiocruz e coordenador da plataforma InfoGripe.

O número de novos pacientes internados na rede pública, que chegou a 2.163 na primeira semana de dezembro, caiu para 799 na segunda semana de janeiro. Já a fila por leitos de UTI ou enfermaria passou de um pico de 1.020 pacientes, há um mês e meio, para uma média diária de 80 na última semana.

Médicos da linha de frente contam que só notaram a tendência nos últimos dias. Pedro Archer, um dos diretores do sindicato dos médicos (Sinmed/RJ), afirma que o hospital municipal de referência de Niterói chegou a ficar quatro dias sem receber pacientes novos e está com duas UTIs (cerca de 20 leitos) em “stand by”.

“Começou a cair no final de janeiro e início de fevereiro, os hospitais de referência estão ficando com vagas disponíveis. Mas não é o momento de desmobilizar leitos, ainda estamos vendo mundo afora essas variações: reduz, aumenta, reduz, aumenta.”

Outro médico que trabalha no Hospital Municipal Ronaldo Gazolla, referência na capital, diz que começou a sentir a redução no dia 28. Segundo ele, hoje seu setor está com 28 dos 40 leitos cheios, quando o normal sempre foi 100% de ocupação, mas é preciso esperar as próximas semanas para verificar se a queda será real.

Na rede privada o cenário é o mesmo. “Estamos notando uma diminuição da pressão tanto nas emergências quanto nas internações nas duas últimas semanas. Chegamos a 98% de ocupação no começo de janeiro e agora estamos abaixo de 90%”, afirma Graccho Alvim, diretor da principal associação de hospitais do estado (Aherj).

É importante ponderar que os registros do governo estadual, que indicam uma queda nas hospitalizações já a partir do final de dezembro, podem acumular um atraso na alimentação do sistema, e portanto não refletir os períodos exatos das tendências.

A plataforma InfoGripe da Fiocruz, por exemplo, faz uma projeção da curva de casos graves (incluindo internações e mortes) semanalmente. À medida que os números vão sendo atualizados, a curva “anda mais para a direita”, indicando que o que vemos como queda agora pode não estar caindo tanto quanto pensávamos.

Diego Xavier, epidemiologista da fundação, explica que o represamento dos dados está maior do que o normal. As equipes que digitam as informações no sistema, já pequenas, estão reduzidas em função das férias e têm passado por mudanças após as trocas de gestão nos municípios.

“Os indicadores hospitalares apontam diminuição, e os casos e óbitos devem se manter ainda elevados devido ao atraso do registro”, diz ele, esclarecendo por que ainda não é possível observar nos painéis o declínio do número de infectados e mortos.

Essa imprecisão torna ainda mais difícil estimar os motivos da queda. Para Xavier, as comemorações de fim de ano podem ter causado um aumento de infectados: “Por isso agora estamos vendo uma diminuição lenta, primeiro nas hospitalizações, e depois veremos nos casos e nos óbitos”.

Foi o que sentiu também o médico do hospital Ronaldo Gazolla. Segundo ele, houve um pico com as festas e depois veio a queda, no fim de janeiro. Ele afirma que se tiver Carnaval, provavelmente a curva vai aumentar novamente.

O pesquisador Marcelo Gomes acha difícil palpitar, mas cita um forte movimento de conscientização que teria acontecido em dezembro como possível contribuidor da redução. “Não tem outro fator claro que possa explicar, não tem motivo para supor que atingimos a imunidade de grupo, então seria algo comportamental.”

Já Graccho Alvim, da associação de hospitais privados, levanta a hipótese de muitas pessoas estarem sendo tratadas fora de suas cidades por causa das férias. “Não conseguimos entender essa diminuição, principalmente na cidade do Rio. Talvez o que tenhamos é uma mudança do local do atendimento”, opina.

Todos concordam, porém, que não foi o início da vacinação a causa da redução. “Antes de julho não veremos um impacto da imunização, e o receio é que o vírus seja mais rápido do que ela. Ainda não sentimos a pressão pela nova cepa de Manaus, mas São Paulo talvez tenha começado a sentir, e ela deve chegar em algum momento por aqui”, diz Alvim.

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