Descrição de chapéu Coronavírus

Isolados, quilombolas da ilha da Maré, em Salvador, têm vacinação em massa

Sem ligação por terra com o continente, moradores da região enfrentam percalços para garantir assistência à saúde

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Salvador

O pescador Carlos Alberto Santana, 44, pouco sai da comunidade de Bananeiras, na Ilha de Maré, uma das três ilhas da Baía de Todos-os-Santos que pertencem a Salvador.

Mas, quando precisou fazer a travessia de 40 minutos de barco para a parte continental de Salvador, no ano passado, voltou infectado pelo novo coronavírus e contaminou a mulher e os filhos.

Carlos respirou aliviado nesta sexta-feira (26), quando tomou a primeira dose da vacina contra a Covid-19. Ele é um dos cerca de 2.500 moradores das comunidades quilombolas da Ilha de Maré que estão sendo vacinados pelas equipes da Prefeitura de Salvador.

Esta é a primeira comunidade quilombola da capital baiana a receber vacinação em massa, incluindo jovens acima de 18 anos. A ideia é que todas as comunidades sejam contempladas, inclusive as que estão no continente, como Quilombo Rio dos Macacos.

“Começamos pela Ilha de Maré por ser uma região que consideramos mais vulnerável”, explica o secretário de Saúde de Salvador, Leonardo Prates.

Com cerca de 6.000 moradores, sendo 92% pretos ou pardos, a ilha ainda servirá como um laboratório para monitorar a evolução da Covid-19 em uma área com alto patamar de vacinação.

A ideia da prefeitura é vacinar cerca de 4.000 pessoas, que é o total dos moradores considerados quilombolas de acordo com entidades locais. Para isso, contudo, ainda precisa da autorização do governo federal, já que apenas 2.500 são certificados como quilombolas.

Ao longo da pandemia, foram 182 moradores contaminados pelo novo coronavírus na Ilha de Maré, incluindo uma morte.

Uma das principais dificuldades na pandemia foi fechar as praias e impedir o fluxo de embarcações que vinham aos fins de semana aproveitar as praias da ilha, onde, em geral, apenas dois policiais fazem a segurança.

“Mesmo com as restrições, as lanchas particulares continuaram circulando aqui”, explica a enfermeira sanitarista e servidora Adriana Miranda.

Um dos contaminados foi o pescador Uine Lopes, 24. Ele teve a Covid-19 em julho do ano passado e ficou 14 dias em isolamento em uma casa vizinha, com sintomas leves.

O também pescador Augusto Alves Bonfim, 29, não teve Covid-19, mas viu a sua mãe ser acometida pela doença. Ela foi internada em um hospital na parte continental de Salvador por um problema de diabetes, mas acabou contraindo o vírus e morreu poucas semanas depois.

Mesmo com um caso da doença na família, estava reticente quanto a se vacinar, mas acabou sendo convencido pela esposa, Fernanda Simões, 21, que enfrentou o sol forte com o filho no colo para tomar a primeira dose.

A família vive da pesca e coleta de mariscos. No quintal da casa, Augusto aferventava siris em um fogão à lenha improvisado com tijolos. Depois, com uma bacia no colo, Fernanda separava a carne da casca do crustáceo. Um quilo do siri catado é vendido na ilha por R$ 35.

Ambos são filhos de pescadores e marisqueiras, profissão de quase todos os moradores da Ilha de Maré. É uma tradição que passa de pai e mãe para filhos.

“Essa é a única coisa que tenho para deixar para o meu filho. Ele vai aprender todos os segredos sobre os mariscos”, diz Augusto. Ao lado, seu filho Vitor Hugo, 3, abocanhava uma puã de siri.

A pandemia, contudo, fez com que a venda dos peixes de mariscos caísse brutalmente na Ilha de Maré, já que os principais compradores eram restaurantes de frutos do mar de Salvador.

Com a queda nas vendas, a maior parte das famílias de povoados como o de Bananeiras tem a pesca e o marisco como subsistência, uma forma de manter a comida na mesa. “O dinheiro saiu de circulação”, disse o pescador Carlos José Lopes, 67, enquanto consertava redes de pesca.

Mesmo com o cenário de vulnerabilidade social, as famílias têm raízes fortes na Ilha de Maré e, por isso, permanecem no lugar onde aprenderam a tirar o seu sustento.

Mas enfrentam percalços para ter acesso a qualquer coisa além do básico. Ensino médio e superior, só fora da ilha, assim como exames e procedimentos de saúde de média e alta complexidade.

Em comunidades como Bananeiras, por exemplo, não há sequer um píer para atracação dos barcos, dificultando o transporte de idosos e pessoas com deficiência.

Líder comunitária na Ilha de Maré, Marizelia Lopes, integrante do Movimento dos Pescadores e Pescadoras Artesanais, afirma que a falta de estrutura e as dificuldades enfrentadas pelos moradores da ilha são históricas e se agravaram ainda mais com a pandemia.

O cemitério da ilha não tem estrutura para sepultar corpos de vítimas da Covid-19. A região também não foi contemplada com um dos gripários criados pela prefeitura para atender pacientes com sintomas de síndrome respiratória —a estrutura foi erguida na ilha vizinha de Bom Jesus dos Passos.

“Graças a deus, aos encantados e aos orixás, a gente nunca precisou sair da ilha um morador com Covid-19 em estado grave, sentindo falta de ar. Se acontecesse isso, ia morrer muita gente”, afirma.

Como alento, a vacinação foi recebida com festa ela comunidade.

A aposentada Ionice Paraguassu, 92, já foi vacinada e diz que agora está mais tranquila. Sua filha, a marisqueira Marli Bispo, 68, tomará sua primeira dose na próxima semana e comemora: “Foi um ano inteiro muito difícil. Só saia mesmo para ir à igreja”.

Após a aplicação dos imunizantes no povoado de Bananeiras, um almoço com caruru, vatapá, siris e mariscos feitos no dendê foi servido para os profissionais de saúde. De sobremesa, doce de banana enrolado na palha da bananeira.

A vacinação segue na próxima semana e atenderá às oito comunidades da ilha.

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.