Choe Sang-Hun
PyeongChang
​LeeJi-Seol estava no Ensino Fundamental quando sua cidade, PyeongChang, candidatou-se pela primeira vez para sediar os Jogos Olímpicos de Inverno. Durante uma visita das autoridades olímpicas, ela recorda que todos os alunos de sua classe saíram às ruas para receber os visitantes com bandeiras.

Apesar de todo esse entusiasmo, a candidatura não parecia promissora. Localizada a 80 quilômetros da Coreia do Norte, PyeongChang era conhecida principalmente como um vilarejo pacato de montanha, um polo da pecuária e cultivo de batatas. 

O centro da cidade era um cruzamento entre duas ruas ocupadas por motéis e casas de karaokê decadentes. A região abrigava dois resorts de esqui, mas eles enfrentavam dificuldades, já que a neve raramente era suficiente.

As primeiras candidaturas da cidade, para sediar os Jogos de 2010 e 2014, fracassaram, mas enfim chegou o dia em que o COI (Comitê Olímpico Internacional) atribuiu a PyeongChang, uma cidade de 44 mil habitantes, a responsabilidade de organizar a Olimpíada de Inverno, que começa na sexta-feira (9).

Foi uma vitória para aqueles que nunca deixaram de acreditar em uma das mais improváveis sedes na história das Olimpíadas.

“A cidade inteira saiu dançando na rua”, disse Lee, 22, sobre o dia da escolha. “Antes, poucos sul-coreanos sabiam que existíamos, os estrangeiros muito menos.”

Os obstáculos para PyeongChang eram tanto econômicos quanto físicos. A cidade fica em uma das áreas mais pobres de Gangwon, a mais isolada e a menos desenvolvida província sul-coreana, e dotada de longa fronteira com a Coreia do Norte.

Além disso, embora a cidade fique a apenas 127 km de Seul, ir da capital a PyeongChang costumava ser uma viagem de muitas horas, por estradas tortuosas “como os intestinos de um carneiro”, como dizem os locais.

Choi  Mong-Soon, o governador da província, a chama de “o último lugar em que o governo pensa quando o assunto é investimento”. E acrescenta: “Nossa esperança era que uma Olimpíada mudasse isso”.

Até mesmo o nome da cidade era um problema. Originalmente grafado “Pyongchang”, era comum que fosse confundida com Pyongyang, capital norte-coreana. Por isso, em 2000, a cidade adicionou uma letra e mudou a grafia de outra para maiúscula. Tornou-se “PyeongChang”.

A despeito da repaginação, um queniano convidado a uma reunião da ONU em PyeongChang em 2014 conquistou manchetes ao viajar por engano para Pyongyang.

Com o tempo, a Coreia do Sul abraçou a candidatura olímpica e fez dela um projeto nacional. Os líderes do país estavam ansiosos por ganhar prestígio internacional e viam os Jogos de Inverno como uma chance de completar a “trinca” dos grandes eventos esportivos —a Coreia do Sul já havia sediado a Copa do Mundo de 2002, em parceria com o Japão, e a Olimpíada de Seul, em 1988.

Em um país no qual os esportes de inverno nunca se tornaram populares, só mais uma cidade dotada de pistas de esqui, Maju, demonstrou interesse por sediar os Jogos. 

PyeongChang derrotou a rival na conquista da adesão nacional, talvez porque fique em uma província muito disputada eleitoralmente.

O governo sul-coreano injetou US$ 13 bilhões (R$ 42,3 bilhões) na região, construindo uma nova ferrovia para trens de alta velocidade —com 97 túneis e 78 pontes—, a fim de melhorar o acesso de Seul a PyeongChang, além de instalações esportivas.

Embora alguns moradores se preocupem com o impacto das obras sobre as florestas locais, o apoio à Olimpíada sempre foi grande. 

Uma pesquisa conduzida na época da candidatura constatou apoio da ordem de 94%, e ele não diminuiu.

Muita gente acredita que o futuro da região esteja no turismo e espera que os Jogos de Inverno ajudem.

O setor de serviços já responde por 70% da economia local, em parte para atender visitantes de férias atraídos pelas belas paisagens da costa da província. Mas PyeongChang, localizada no interior, não se beneficiou disso.

Ao promover a candidatura da cidade, a Coreia do Sul usou um potencial problema —a proximidade com a fronteira norte-coreana— como argumento positivo. As autoridades alegaram que realizar os Jogos na cidade promoveria a paz entre duas nações.

A suspeita quanto à Coreia do Norte tem raízes profundas por aqui, mais do que em qualquer outra região da Coreia do Sul. O sonho de aliviar a tensão e um dia reunir as duas Coreias também é mais forte aqui do que em outras áreas da Coreia do Sul.

Muitos dos moradores mais velhos da área vieram do norte como refugiados de guerra e se assentaram perto da fronteira na esperança de retornarem rapidamente quando a reunificação dos dois países acontecesse.

“Nosso sonho é um dia poder tomar o trem, passar pela Coreia do Norte, por toda a Sibéria, e chegar a Berlim”, disse Noh Yeon-Su, curador do Museu da DMZ [zona desmilitarizada], referindo-se às linhas ferroviárias interrompidas na fronteira.

A província também abriga a chamada Represa da Paz, uma grande estrutura erigida no rio Han por medo de que uma segunda represa, rio acima na Coreia do Norte, possa causar uma inundação devastadora, acidentalmente ou de propósito.

Mas o governador Choi minimiza as preocupações.

“Nós, que vivemos aqui, não temos medo da Coreia do Norte. Apesar de todos os seus testes de mísseis e ameaças, eles não têm capacidade de travar uma guerra”, disse. “A coisa mais feliz sobre a Olimpíada é que, quando os estrangeiros virem os Jogos acontecendo aqui, isso eliminará o estigma de que somos um lugar perigoso.”

Tradução de PAULO MIGLIACCI


The New York Times
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