Palmeiras vai à polícia apurar falso testemunho de árbitros de final

Clube usa dossiê de empresa americana, leitura labial de peritos e contradições em audiência

Diego Garcia
São Paulo

O Palmeiras vai pedir a abertura de inquérito policial para apurar falsos testemunhos cometidos por árbitros e funcionários da FPF (Federação Paulista de Futebol) em depoimentos feitos ao TJD-SP (Tribunal de Justiça Desportiva de São Paulo) em audiência sobre suposta interferência externa na final do Campeonato Paulista deste ano.

Na ocasião, o time alviverde foi derrotado pelo Corinthians, no Allianz Parque, mas o jogo ficou marcado por pênalti marcado em Dudu que a arbitragem voltou atrás após oito minutos de paralisação. O Palmeiras acusa interferência externa no lance - ocorrido aos 26 minutos do segundo tempo - o que é proibido por regulamento.

 

O advogado criminalista José Luis Oliveira Lima, que representa o empresário José Hawilla no caso Fifa e defendeu também nomes como o ex-ministro José Dirceu no episódio do Mensalão, foi contratado pelo Palmeiras para acompanhar o caso - inclusive acompanhou o procedimento no TJD-SP - e confirmou a iniciativa de ir à polícia.

“Com base nas contradições, nas versões apresentadas pelas testemunhas que prestaram depoimentos com o compromisso de dizer a verdade, vamos requerer a instauração de inquérito policial para apurar o crime de falso testemunho”, disse o advogado à Folha.

O Código Brasileiro de Justiça Desportiva, em seu artigo 63, parágrafo 1, especifica que toda pessoa que servir como testemunha assumirá o compromisso de dizer a verdade sobre o que souber e lhe for perguntado. A pena prevista para um crime de falso testemunho é de 2 a 4 anos de reclusão, mais multa.

A FPF, por sua vez, se defende e diz que abriu uma sindicância interna por parte da corregedoria da entidade, comandada por uma delegada da polícia civil, e que o procedimento concluiu que não ocorreu interferência externa na decisão do Campeonato Paulista deste ano - veja nota oficial mais abaixo.

O Palmeiras baseia sua defesa em dossiê da empresa americana Kroll, considerada a maior de investigação corporativa do mundo, e laudo pericial do IBP [Instituto Brasileiro de Peritos], autoridade em auditoria e perícia forense. Ambos foram remunerados pelo clube para apurar a interferência externa.

No Brasil, a Kroll  ganhou projeção ao ser contratada para fazer o rastreamento de contas da Operação Uruguai, durante o processo de impeachment do ex-presidente Fernando Collor, em 1992. Anos depois, em 2004, foi acusada de ter espionado o governo federal brasileiro durante um contrato da Brasil Telecom, sendo alvo de busca e apreensão em pelo menos três Estados.

LEITURA LABIAL

Segundo informações obtidas pela Folha, o Palmeiras utiliza no processo uma leitura labial feita pelo IBP em cima dos árbitros, que detectou algo diferente ao que o delegado da partida, Agnaldo Vieira, disse em seu depoimento. Para o clube, além da contradição, isso mostra um contato externo com a equipe de arbitragem.

O laudo pericial do IBP aponta que o delegado, oito segundos antes de o árbitro Marcelo Aparecido decidir voltar atrás na marcação do pênalti, chamou nominalmente o quarto árbitro, Adriano Miranda, em meio a um bolo de atletas. Isso vai contra o pronunciamento de Agnaldo Vieira junto ao tribunal.

No foro, então questionado se falou o nome do quarto árbitro nesse instante em específico, negou. 

Afirmou que, no momento em questão, disse apenas “ei, sai, vai pra lá”, como se tentasse dispersar o aglomerado de gente, sem dizer a alcunha "Adriano". Não é o que mostra a leitura labial do IBP. Oito segundos depois, o árbitro Marcelo Aparecido levantou os dois dedos da mão para chamar um membro de cada equipe para conversar e informar que tinha decidido voltar atrás na marcação do pênalti.

​O Palmeiras vê ainda mais força em seu argumento de interferência externa porque, segundo a investigação da Kroll, pouco antes de chamar o quarto árbitro Adriano pelo nome, o delegado da partida estava reunido com o Márcio Verri, membro da comissão de arbitragem da FPF flagrado com um celular na mão durante a marcação do pênalti polêmico.

REUNIÃO 

A Kroll argumenta que também participaram dessa reunião o diretor de arbitragem da FPF, Dionísio Roberto Domingos, e o presidente da comissão de arbitragem da FPF, José Henrique de Carvalho. O Palmeiras aponta que, nesse momento, Verri portava um celular consigo, o que é proibido.

A investigação da Kroll ainda menciona que, em seguida à reunião, o diretor de arbitragem da FPF se aproxima do assistente Anderson Coelho – outro com sistema de rádio conectado aos árbitros -, em duas ocasiões para, seja por palavras ou gestos, comunicar que a marcação do pênalti estava incorreta.

Uma dessas aproximações ocorreu exatos nove segundos após o replay do lance do pênalti marcado em Dudu ser transmitido na TV pela primeira vez. Nesse momento, Dionísio estava ao lado de Verri, que consultava o celular naquele instante.

Em seu depoimento ao TJD-SP, o diretor do departamento de arbitragem da FPF afirmou, ao ser questionado se tinha entrado em contato com Márcio Verri, que “não, em nenhum momento, por que eu [Dionísio] fico lá em cima, e o Verri fica lá embaixo”. Ainda afirmou que Márcio Verri estava fazendo “papel de segurança” na partida final.

Em seu pedido de impugnação, o Palmeiras rebate com imagens que mostram que Verri está listado no site da FPF como integrante da escala de árbitros, além de ser membro da comissão da arbitragem da FPF, e que também não estava escalado para a partida final.

CONTRADIÇÕES

O Palmeiras também viu contradições em outros depoimentos, como o do quarto árbitro, Adriano Miranda. Ao tribunal, ele falou que jogadores do Corinthians ouviram ele dizer as palavras “canto, canto, canto” no imediato momento em que o pênalti foi assinalado. E citou o volante Gabriel.

Contudo, pouco depois, Adriano voltou atrás e disse não saber se o meio-campista corintiano ouviu ele dizer as palavras citadas.Também apontou que tanto ele quanto o árbitro estavam cercados por atletas, razão pelo qual nenhum membro da equipe de arbitragem - que se comunicam entre si por rádio - ouviu ele dizer "canto, canto, canto".

O relatório da Kroll aponta que Adriano não estava cercado por ninguém no momento da marcação da penalidade e demorou seis segundos para começar a ser questionado por atletas do Corinthians.

Já o árbitro Marcelo Aparecido afirmou em seu depoimento que só ouviu o quarto árbitro falar a palavra “canto” posteriormente à marcação do pênalti, após ele aplicar o cartão amarelo ao zagueiro Balbuena por reclamação, mas Adriano declarou só dito “canto” no momento da marcação do pênalti.

"O tribunal deveria ter efetuado uma acareação entre todas as testemunhas. Infelizmente, o TJD não se aprofundou na investigação. O TJD determinou o arquivamento por questões processuais, não pelo mérito, o que, com o devido respeito, não tem respaldo na legislação, tanto que estamos recorrendo. Os depoimentos que foram prestados na audiência de instrução demonstraram, de maneira transparente, a interferência externa na arbitragem", disse o advogado do Palmeiras, José Luis Oliveira Lima.

Procurado, o presidente do TJD, Antônio Olim, disse que, para ele, "o assunto está encerrado".

Árbitro Marcelo Aparecido é pressionado por corintianos após marcar pênalti; ele voltou atrás após oito minutos
Árbitro Marcelo Aparecido é pressionado por corintianos após marcar pênalti; ele voltou atrás após oito minutos - Ricardo Nogueira 8.abr.18/Folhapress

OUTRO LADO

A Folha enviou questionamentos à FPF, com 17 perguntas específicas não apenas à própria federação, mas também ao quarto árbitro, Adriano de Assis Miranda, ao árbitro, Marcelo Aparecido Ribeiro de Souza, a o diretor do departamento de arbitragem da FPF, Dionísio Roberto Domingos, e ao delegado da partida, Agnaldo Vieira.

A Federação Paulista de Futebol respondeu tudo por meio de uma nota oficial. Segue abaixo:

"A FPF reafirma sua posição, dada tanto em suas manifestações na Justiça Desportiva quanto em nota oficial, de não ter havido interferência externa. A FPF informa ainda que, imediatamente após a final, foi determinada a instauração de uma sindicância snterna por parte da corregedoria da FPF. Conduzido pela dra. Margarete Barreto, delegada da polícia civil, o processo de sindicância foi finalizado nesta semana e concluiu que não houve interferência externa na partida".

Nesta quarta (9), o Palmeiras encaminhou recurso ao pleno do TJD-SP e um mandado de garantia junto ao STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva), vinculado à CBF (Confederação Brasileira de Futebol). Em seu pedido de impugnação da partida, o time alviverde quer que o resultado da decisão do Paulista não seja homologado até o julgamento final do mérito. 

 

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