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Brasileiro só jogou amistosos no Barça e ouviu comentário racista

Walter Machado da Silva defendeu o Barcelona em 15 amistosos no ano de 1967 e marcou 8 gols

Silva posa para a Folha na Gávea, sede social do Flamengo, clube pelo qual jogou e onde trabalha atualmente
Silva posa para a Folha na Gávea, sede social do Flamengo, clube pelo qual jogou e onde trabalha atualmente - Ricardo Borges/Folhapress
Bruno Rodrigues
São Paulo

"Batuta, telefone!", diz a secretária da Gávea, sede social do Flamengo, do outro lado da linha. Quem atende com a voz extremamente rouca que o caracteriza é Walter Machado da Silva, ex-atacante de Corinthians, Santos, Vasco e Flamengo que, desde a aposentadoria na década de 1970, trabalha como funcionário do clube rubro-negro.

Silva, o Batuta, é o único brasileiro artilheiro de um Campeonato Argentino na história. Foi em 1969, pelo Racing, onde até os dias de hoje é lembrado com carinho.

Houve, porém, uma outra passagem do jogador pelo exterior que poderia ter sido igualmente marcante, mas foi encerrada precocemente e manchada por um comentário racista.

Participante do elenco da seleção brasileira que foi à Copa do Mundo de 1966, na Inglaterra, Silva foi titular na derrota por 3 a 1 para Portugal, jogo que eliminou o Brasil do Mundial.

Naquele 19 de julho, no estádio Goodison Park, em Liverpool, Silva fez companhia a Pelé, Jairzinho e Paraná no ataque. Mas quem brilhou foi um outro negro, que vestia vermelho: Eusebio, autor de dois gols --o lateral-esquerdo Rildo marcou o gol brasileiro.

Apesar do fraco desempenho da seleção na competição, Silva, que estava emprestado pelo Corinthians ao Flamengo e vinha de boas temporadas seguidas por esses clubes, chamou a atenção do Barcelona, que adquiriu seu passe às vésperas do Natal daquele ano por 600 milhões de cruzeiros.

Negro, alto e forte, foi anunciado na Espanha como o "novo Pelé", alcunha que vários outros, brasileiros ou não, receberam depois do Rei.

"Foi uma coisa maravilhosa. Eu havia jogado a Copa do Mundo e fui para o Barcelona, que acertou com o Corinthians a minha ida. Cheguei e fui muito bem recebido, como todos os artilheiros que chegam na Espanha", diz o rouco Batuta à Folha.

Entretanto, havia um problema. Os clubes espanhóis estavam impedidos de contratar jogadores estrangeiros, uma medida que foi instituída em 1962 pelas autoridades esportivas do país após o fracasso do país na Copa do Mundo do Chile. A intenção era fechar o mercado para que os jovens talentos locais tivessem mais oportunidades de jogar e, consequentemente, renovar a seleção.

Enrique Llaudet (1916-2003), então presidente do Barcelona, confiava que Juan Antonio Samaranch, Delegado Nacional de Esportes e posteriormente presidente do COI (Comitê Olímpico Internacional), pudesse alterar a lei para a abertura de contratações estrangeiras. Era o que queria não só o Barcelona, mas também o Real Madrid.

Quem não mostrava tanta confiança era a imprensa catalã, que indagou Llaudet a respeito da incerteza de poder contar ou não com Silva no time do Barça. Foi quando o dirigente soltou uma infeliz declaração racista.

"Se não puder jogar, o usarei como chofer. Sempre quis ter um chofer negro", afirmou.

A frase, inclusive, é reconhecida pelo próprio Barcelona e está presente no documento encaminhado pelo Centro de Documentação e Estudos do clube à Folha, com informações sobre a passagem do brasileiro pelo Barça.

Llaudet tentou se redimir em uma entrevista posterior, afirmando: "Sinto grande simpatia pelos negros e, se fosse necessário, eu seria chofer dele".

Apesar da declaração racista, Silva diz que nunca se sentiu incomodado com as palavras do presidente.

"Na época nem se falava em racismo no futebol. Nessa época nem se cogitava essas coisas. Eu fui tomar conhecimento dessa situação aqui no Brasil, quando eu retornei e o Flamengo foi lá fazer a contratação. Aqui eu soube que o Llaudet falou isso. Mas eu não acredito muito não, porque eu não vi e nem ouvi", conta o ex-atacante.

A aposta de Llaudet no contato com Samaranch acabou naufragando. A abertura do mercado para atletas estrangeiros só seria promulgada em maio de 1973.

Com isso, Silva pôde atuar apenas em jogos amistosos. De qualquer forma, foi relativamente bem com a camisa do Barcelona. Em 15 partidas, marcou oito gols.

Sua estreia no clube foi em Caracas, na Venezuela, no dia 31 de janeiro de 1967, em uma derrota por 3 a 2 para o Botafogo. Silva, que havia tomado um avião do Rio de Janeiro para a Venezuela, marcou os dois gols do time catalão.

Quando finalmente pisou em Barcelona pela primeira vez, foi recebido no aeroporto por um representante do Barça, que o levou até o Camp Nou, segundo conta o escritor Marcelo Schwob em "Silva, o batuta", biografia que escreveu sobre o atacante.

Só chegando no estádio é que o jogador brasileiro soube de quem se tratava o tal representante: era Enrique Llaudet, que saiu do banco do motorista direto para a cadeira da presidência, dando início às formalidades burocráticas da chegada de Silva à Catalunha.

"[O Llaudet] Me tratou muito bem, me respeitou muito, deu todas as condições para que eu permanecesse. Em Barcelona me trataram muito bem. Mas infelizmente não foi possível porque a liga estava fechada. Foi uma pena", completa Silva, rubro-negro de coração e que em seu último jogo pelo Barcelona enfrentou justamente o Flamengo, onde hoje trabalha no agendamento de eventos e festas na sede social do clube.

Na derradeira apresentação com a camisa do Barcelona, em 26 de junho de 1967 pelo Troféu Ibérico, um torneio amistoso disputado na cidade de Badajoz, na Espanha, Silva perdeu um pênalti e o Barça foi derrotado por 1 a 0, gol de Fio Maravilha, negro e tema de música de Jorge Ben Jor, que jogou com febre.

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