Espanha usa inteligência artificial para definir horários de jogos e ajudar VAR

Diferentes tecnologias ajudam a melhorar qualidade do esporte e do entretenimento

Raphael Hernandes
Barcelona

 Na Espanha, as datas e horários das partidas do campeonato nacional, que tem Real Madrid e Barcelona como maiores potências, são definidos com ajuda da IA (inteligência artificial). Ela prevê qual será a audiência na TV espanhola e quantos torcedores irão ao estádio, de acordo com a data do jogo.

Segundo a La Liga —que organiza o Campeonato Espanhol— a margem de erro nas estimativas é de 1%. O projeto deve ser expandido para determinar também os telespectadores fora do país.

A La Liga tem apostado em tecnologia para oferecer ao público um futebol melhor e um entretenimento de maior qualidade.

Eles aproveitaram a Mobile World Congress, principal evento do mundo para o setor de telecomunicações, em Barcelona, para demonstrar à imprensa algumas de suas empreitadas tecnológicas.

Sistema converte jogos do campeonato espanhol para animação estilo futebol de botão para análises táticas
Sistema converte jogos do campeonato espanhol para animação estilo futebol de botão para análises táticas - Raphael Hernandes/Folhapress

Outro sistema no Espanhol usa modelos 3D de cada um dos estádios usados na primeira e na segunda divisão para analisar como será a incidência do Sol no estádio.

A informação é importante para saber se a iluminação será boa para a transmissão na TV e também pode ser usada para melhorar a posição das luzes dos refletores. Além disso, leva em consideração o público no estádio. “Dá para evitar ter metade do estádio cego devido ao Sol na cara”, diz Joris Evers, chefe de comunicação da La Liga.

Há também o uso de big data (processamento de um grande volume de dados) para análise estatística das partidas a partir das imagens de 12 câmeras espalhadas em cada estádio. Com isso, é possível rastrear a movimentação de cada jogador em campo com inteligência artificial.

A essa informação se somam os dados anotados manualmente, método um pouco mais antigo, por uma empresa especializada em estatísticas de futebol –coletam, por exemplo número de passes ou divididas por jogador.

Dados coletados pela LaLiga são enviados em tempo real para tablets das equipes durante as partidas; na tela da televisão, uma reprodução da vista pela comissão técnica nos jogos
Dados coletados pela LaLiga são enviados em tempo real para tablets das equipes durante as partidas; na tela da televisão, uma reprodução da vista pela comissão técnica nos jogos - Raphael Hernandes/Folhapress

Tudo é repassado sem custos a todos os clubes das duas divisões. Evers afirma que, como o projeto começou há muito tempo (em 2010), a La Liga não saberia dizer quanto investiu nele.

Essa massa de dados é analisada com ajuda de inteligência artificial. Parte dela pode ser vista em tempo real nos tablets das comissões técnicas durante as partidas. Fisiologistas podem, por exemplo, verificar as corridas de um jogador para detectar o momento de fazer uma substituição a fim de evitar lesões.

Se o Barcelona quiser ver, por exemplo, quantos passes o Messi deu em uma partida específica, a ferramenta rapidamente marca todos os momentos em uma linha do tempo com os 90 minutos do jogo.

É desse sistema que saem as estatísticas, mais simples, que vão para o público em geral.

Uma última camada, voltada também aos clubes, cria representações virtuais animadas das partidas como se os jogadores fossem peças de futebol de botão. Isso permite ao corpo técnico analisar linhas táticas e posicionamento.

A ferramenta também auxilia nas transmissões de TV. Por saber onde a ação do jogo ocorre –basicamente, onde a bola está–, aciona os microfones mais próximos automaticamente para captar o áudio em campo.

Também pensando na televisão, há duas temporadas, a liga traz a possibilidade de fazer replays em 360º de jogadas. Por enquanto, é a única do mundo a fazer isso –a tecnologia deve ser adotada pela Inglaterra na próxima temporada.

“Hoje, o desafio é ficar mais parecido como um videogame. Antigamente, era o contrário”, diz Evers.

O sistema não é usado em transmissão ao vivo porque as imagens levam até 90 segundos para serem geradas.

Outra firula focada na diversão dos fãs é a gravação em 360º de diferentes momentos de uma partida por fim de semana: o jogo na beira do gramado, clima no vestiário, nos túneis, torcida do lado de fora do estádio... Os vídeos são transformados em clipes a serem exibidos em óculos de realidade virtual, e podem ser assistidos em quatro espaços promocionais da La Liga pela Espanha.

Evers diz que a La Liga não pretende vender essas soluções tecnológicas para outros países. “Não somos uma organização que vende software”, disse o executivo. Ele reconheceu, no entanto, que isso pode mudar no futuro.

Parcerias com ligas estrangeiras acontecem em outras frentes, afirma Evers, como um trabalho conjunto para evitar pirataria das transmissões.

VAR

A arbitragem de vídeo (VAR) foi adotada pela La Liga nesta temporada. O sistema, segundo a entidade, é um pouco mais sofisticado que o usado pela Fifa durante a Copa do Mundo do ano passado.

Isso porque também usa inteligência artificial. Ela aparece para mapear as linhas do campo ao gerar retângulos coloridos para a análise de impedimentos –semelhante às vistas na TV. Segundo a EVS, fornecedora da ferramenta, a vantagem é economizar as duas horas necessárias para fazer uma  calibragem manual para delimitar as quatro linhas do gramado.

Para o futuro, La Liga e EVS trabalham em um relógio inteligente que exibe textos e imagens para possibilitar o envio de informações da cabine do VAR aos árbitros em campo. A ideia é diminuir a necessidade da comunicação falada, complicada no meio do barulho de um estádio lotado.

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