Descrição de chapéu Campeonato Paulista

4ª divisão tem Ferguson caipira, presidente mulher e padre cartola

Último estágio do futebol paulista reúne histórias curiosas pelo estado

Santos

É comum ouvir nos corredores da Federação Paulista de Futebol declarações orgulhosas sobre o Campeonato Paulista, tido como o mais rentável estadual do país. Mas há no futebol de São Paulo quem viva uma realidade bem diferente da mostrada na principal vitrine da federação, o torneio da Série A1 (primeira divisão).

Antes das decisões das semifinais da elite, 41 clubes iniciam neste sábado (6) a disputa da Segunda Divisão do Campeonato Paulista, que, apesar do nome, é equivalente à quarta divisão estadual.

Com quase sete meses de duração, a competição termina em 3 de novembro e é restrita a atletas de até 23 anos.

O campeonato é pródigo em casos pitorescos. Só na última edição, um W.O. chamou atenção logo na estreia. O motivo: erros de digitação nos contratos dos jogadores.

A competição ainda reúne histórias como a do técnico mais longevo do país, a única mulher presidente de clube entre os 147 filiados à entidade e um padre que faz as vezes de cartola no interior.

Há 15 anos no mesmo clube, Ferguson Caipira só ganhou um título

Luiz Carlos Vilela, à direita na foto, com a taça de vice-campeão do Paulista sub-20 da 2ª divisão em 2018
Luiz Carlos Vilela, à direita na foto, com a taça de vice-campeão do Paulista sub-20 da 2ª divisão em 2018 - Arquivo pessoal

Luiz Carlos Vilela, 55, pode ser considerado quase que uma utopia no futebol brasileiro.

O treinador chegou em 2019 à sua 15ª temporada consecutiva como técnico do Elosport, da cidade de Capão Bonito, a cerca de 230 km de São Paulo. Somadas outras duas passagens pelo clube, são 21 anos de trabalho na agremiação que só teve mais dois treinadores em toda a sua história.

"Ele é honesto e competente. Por que vou demiti-lo?", diz o presidente do clube, Irineu Rodrigues Gonzalez, 58.

A longevidade no cargo rendeu a Vilela uma série de apelidos, como "o técnico que não cai" e "Ferguson Caipira". Esse último, uma bem-humorada comparação ao treinador escocês Alex Ferguson, que ficou por 27 anos à frente da equipe do Manchester United.

"Até gosto disso, mas o meu objetivo é trabalhar e ser correto no que faço", diz o treinador, com simplicidade.

Vilela chegou ao clube no início dos anos 1990, logo após pendurar as chuteiras. Como jogador, teve passagens por Ferroviária e São Paulo. Formou ao lado de outros ex-profissionais um time amador considerado imbatível em Capão Bonito. Ficou na cidade e foi convidado para iniciar a era profissional do Elosport.

"Ele era bom, mas foi reserva do Pedro Rocha. Como ia jogar?", brinca Gonzalez.

No início dos anos 2000, deixou Capão para ser observador das categorias de base do Palmeiras e tentar carreira por outros clubes, mas voltou de vez quatro anos depois para ser uma espécie de faz tudo.

Vai atrás de alimentação, faz os contratos dos jogadores, liga para empresas para conseguir patrocinadores, avalia as indicações de jogadores, entrega documentação na federação e treina até as categorias de base se for preciso.

"Hoje ele é treinador, diretor e vice-presidente do clube. Coloquei-o no cargo para que possa assinar documentos, também", conta o presidente, que trabalha em São Paulo.

"A diferença no nosso acordo é que ele ganha o ano todo, enquanto os clubes da Segunda Divisão só pagam durante o campeonato", completa.

Curiosamente, em tantos anos de trabalho, Vilela tem somente uma conquista, a do campeonato sub-20 da Segunda Divisão de 2009. Outro motivo de orgulho foi o acesso a uma extinta divisão do campeonato estadual.

A parceria duradoura, porém, corre risco para a próxima temporada devido à falta de investimentos.

"Nunca vendi um atleta. Se não tivermos incentivo, no ano que vem paro tudo", diz Gonzalez.

No Tupã, única mulher a presidir clube em SP almeja vaga na elite

Fabiane Bizo Menezes, com o microfone na mão, é a  presidente do Tupã FC
Fabiane Bizo Menezes, com o microfone na mão, é a presidente do Tupã FC - Arquivo pessoal

"Quero começar dizendo uma coisa: não sou uma aventureira", afirma Fabiane Bizo Menezes, 41, presidente do Tupã FC desde 2011, com a convicção que a tornou a única mulher no comando de um clube filiado à federação paulista.

"Sempre troquei novela por futebol. Nunca gostei do convencional", diz a cartola de Tupã, a 514 km da capital.

Fabiane entrou para o futebol apoiada pelo marido, hoje diretor de futebol e seu braço direito dentro do clube, Gilson Menezes. "Falaram-me que eu terminaria com o futebol de macho da cidade".

O sonho dela, no entanto, vai bem além de provar que poderia vencer barreiras e preconceitos. Ela quer seguir exemplos que chegaram longe. "Se Penapolense e Linense chegaram à elite. Por que não? Vivo por essa vontade".

Em 2013, veio o sonhado acesso para a Série A3 do Paulista, mas um polêmico episódio esfriou a ascensão. Em 2015, ela e o marido foram denunciados ao Sindicato de Atletas de São Paulo por um jogador por agressão. O caso terminou com a queda de divisão da equipe, que nunca mais conseguiu voltar.

"Nos primeiros anos não tinha a experiência que possuo hoje. Esse atleta tentou causar um motim. Se passou por outro junto ao sindicato e agrediu o meu marido com um soco. Não o agredimos", diz.

"Passávamos por um momento difícil e pagávamos só parte do salário, mas sempre com clareza", afirma.

Fabiane quer o Tupã de volta aos melhores dias. Para isso, convenceu o ex-atacante e ídolo corintiano Tupãzinho, técnico responsável pelo acesso, a voltar para o clube nesta temporada.

Caçula no Paulista, Catanduva tem dupla de padres dirigentes

Osvaldo de Oliveira Rosa, presidente fundador, gestor e conselheiro do Catanduva FC
Osvaldo de Oliveira Rosa, presidente fundador, gestor e conselheiro do Catanduva FC - Divulgação/Catanduva FC

Caçula da Segunda Divisão, o Catanduva FC nasceu de um projeto do padre da cidade.

Osvaldo de Oliveira Rosa, 52, iniciou em 2011 um trabalho com crianças da comunidade local. Em 2017, com quase 300 alunos, o projeto alavancou times que já eram conhecidos nos campeonatos estaduais.

"Tinham muitos meninos se destacando. Alguns com 17 anos, já não conseguíamos mais atendê-los", afirma.

Veio, então, a sugestão de fundar um novo clube. O Catanduva virou uma realidade em 14 de novembro de 2017. Em 2018 disputou pela primeira vez a Segunda Divisão.

Padre Osvaldo é o presidente fundador, membro do conselho e gestor do clube, mas, pelos seus compromissos na paróquia, nem sempre pode estar presente. Atualmente, o Catanduva é presidido por seu irmão, o também padre Ernesto Pedro de Oliveira Rosa, 47.

O fato de ser comandado por uma dupla de padres, não muda o dia a dia do clube. Não há uma cartilha para os jogadores e nem proibições sobre manifestações religiosas.

Mesmo sendo um clube pequeno, a ambição é grande. "A meta é subir uma divisão a cada dois anos", diz Osvaldo.

Se der certo, até 2026 o "time do padre" estará na elite.

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