Terço, amplitude, entrelinhas? O que Tite e outros querem dizer

Como ocorreu com Lazaroni em 1990, termos do 'tatiquês' despertam antipatia

São Paulo

No momento em que Tite se sentou para a entrevista coletiva após o empate da seleção brasileira em 1 a 1 com o Panamá, no fim de março, o técnico certamente não previa que ao menos por uma semana seria criticado mais pelo vocabulário utilizado do que pelo desempenho da equipe em campo.

O termo "externo desequilibrante", equivalente ao ponta driblador, causou a revolta de alguns analistas e de muitos torcedores, incomodados com a forma rebuscada com a qual o treinador procurou explicar os aspectos do jogo.

 

Tratando-se de Tite, porém, a utilização de palavras estranhas ao dicionário mais tradicional do futebol brasileiro não é uma novidade.

Em 2015, no comando do Corinthians, ele utilizou a expressão "box a box" para definir o estilo de jogo do meia Rodriguinho. Oriundo do inglês "box to box", que traduzido livremente seria algo como "de caixa a caixa", o termo define o meio-campista que joga de uma área à outra, participando do início da jogada na defesa e chegando até o ataque para concluir.

Técnico da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1990, Sebastião Lazaroni passou por situação semelhante quando esteve no comando.

"Treinamento invisível", "formatação" e "galgar parâmetros" eram algumas das expressões que faziam parte do cotidiano do treinador. Para a imprensa na época, porém, elas geravam mais dúvidas do que esclarecimentos sobre o que ele queria transmitir.

De acordo com Lazaroni, 68, o surgimento de novos termos no futebol faz parte de um processo de evolução que, aos poucos, vai se assentando. Mas pondera que nos últimos anos o processo foi acelerado em razão de um fluxo maior de informação e estudo dos profissionais da bola.

"Essa mudança no vocabulário acontece mais a partir de 2015, quando a CBF começou a ministrar os cursos para os treinadores [por meio da CBF Academy]. Antes o perfil de técnico era outro, os treinadores tinham a experiência de campo. A CBF começou a pegar muita coisa de fora. Esses termos são mais usados em função dos estudos que eles [os técnicos mais novos] são obrigados a fazer", diz Lazaroni à Folha.

Osmar Loss, 43, é um dos treinadores da nova geração que utiliza com frequência expressões do "futebolês" moderno. No Corinthians, ele conviveu com Tite enquanto treinava as categorias de base e foi auxiliar de Fábio Carille antes de substituí-lo no ano passado na equipe principal.

Frequentador dos cursos ministrados pela CBF e dono da Licença Pro (a mais alta oferecida pela entidade), Loss crê que se investe energia excessiva para discutir o uso dos termos, como no caso recente de Tite, mas ainda há pouca profundidade no debate a respeito de seus significados e os aspectos do jogo de futebol como um todo.

"Acho que a gente discute com muita simplicidade as questões. Lá fora o enfoque é muito mais tático. Em uma coletiva de 30 minutos, a imprensa debate os termos quando na verdade poderia estar debatendo o jogo. A gente se preocupa muito com os pormenores do futebol", afirma o técnico, que comandou o Guarani no Paulista.

Assim como Lazaroni, Loss cita a influência estrangeira, no caso a literatura sobre futebol produzida em outros centros, como fator decisivo para a renovação do vocabulário futebolístico no Brasil.

Em 2015, a CBF Academy reuniu uma série de termos em um glossário do futebol brasileiro que foi apresentado aos treinadores, contando também com a contribuição desses profissionais para a confecção do documento. Esse projeto vem sendo complementado desde então, mas não há previsão de publicação do material atualizado.

E os atletas, entendem a nova linguagem do futebol?

Meio-campista de Flamengo, Grêmio e Vasco entre as décadas de 1970 e 1980, Tita trabalhou com Lazaroni e fez parte da seleção que foi ao Mundial da Itália, em 1990. De acordo com o ex-jogador, o "lazaronês", como ficou conhecido o discurso do técnico, ficava apenas para o contato com a imprensa.

"Na realidade, o jogador acha isso muito chato. Trabalhei com ele [Lazaroni], fui campeão e não me lembro de ele usar essas coisas com a gente. A linguagem, a comunicação, sempre foi bastante direta", diz Tita.

No Corinthians, Osmar Loss trabalhou com um elenco que tinha Emerson Sheik, de 39 anos, e Pedrinho, de 20. Os mais jovens, segundo o treinador, já vêm com alguns conceitos novos de jogo desde a base, mas ele diz que também não teve dificuldades com os mais experientes.

Assim como os jogadores já trabalham com a nova linguagem, Loss acredita que os torcedores irão, em breve, passar a utilizá-la. E isso passa também pela aceitação dos profissionais da imprensa.

"Esse processo vai se consolidar, não tem volta. Os termos estão mudando. Estamos nos aproximando para que [o uso dos termos] não seja um impeditivo. É um processo cultural, vai mudar à medida que forem usados e aceitos."

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