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Carille conta conselho de Ronaldo e vê Corinthians muito melhor que o de 2017

Técnico diz que conversa com ex-jogador o ajudou a definir volta para o clube

Técnico do Corinthians, Fábio Carille, durante treinamento da equipe - Karime Xavier / Folhapress
Luciano Trindade
São Paulo | Agora

Fábio Carille, 45, ouviu Ronaldo antes de dizer sim ao Corinthians. Em dezembro, pouco antes de o treinador acertar o seu desligamento do Al Wehda, o ex-atacante e hoje presidente do Valladolid aconselhou o técnico a buscar um desafio mais competitivo do que o futebol saudita. 

Isso poderia colocá-lo até mesmo na linha sucessória de Tite, na seleção brasileira, e ainda abrir as portas do futebol europeu. Carille tem o sonho de ser o primeiro técnico brasileiro a fazer um trabalho vitorioso em um grande time europeu.

"A partir do momento em que eu almejo um dia ser técnic o na Europa, em um grande clube, ou almejo chegar à seleção brasileira, eu acho que isso motiva não só eu como qualquer profissional", afirmou Carille à Folha. "É um sonho, sim." 

 

Na sua volta ao Parque São Jorge, o treinador diz ter tido participação ativa na formação do elenco e indicação de reforços. O atacante argentino Mauro Boselli, 33, por exemplo, só aceitou o convite do Corinthians após conversar com o técnico, que avalia o time atual como "muito melhor" do que o que comandou em 2017, vencedor do Paulista e do Brasileiro

"É uma equipe mais pronta. Eu lembro que, em 2017, o elenco tinha muitos jogadores buscando o seu espaço e eu também buscava o meu", diz.

 

Em que patamar está o técnico Fábio Carille no futebol brasileiro, é um técnico consolidado ou ainda promissor? Eu não vou me achar consolidado nunca. A partir do momento em que o profissional se vê dessa forma, ele cai no comodismo. Eu vou procurar melhorar a cada dia. Eu sei o peso que eu tenho hoje em relação a 2017. [Mas] tenho que ter mais paciência para achar o time e a forma de jogar.

 Quais são as ambições profissionais para curto e médio prazo? Meu primeiro objetivo agora e eu não consigo pensar em outra coisa que não seja formar o time [do Corinthians] e buscar a forma de jogar. Futuramente, com os cursos da CBF, estamos cada vez mais ganhando espaço para trabalhar na Europa. Os técnicos brasileiros vão ter mais entrada [no futebol europeu]. Quem sabe eu possa ser o primeiro técnico brasileiro a fazer um grande trabalho lá? O Felipão fez um grande trabalho na seleção portuguesa, mas não em clubes. A minha geração tem tudo para abrir espaço e fazer grandes trabalhos na Europa.

Essa ambição de ir para a Europa influenciou sua volta uma vez que o futebol brasileiro tem mais visibilidade do que o da Arábia Saudita? Também. O que me fez mudar em relação à Arábia Saudita foi o problema que eu tive lá foi com a estrutura do clube. E nós, eu e minha comissão, fomos para lá sabendo que não tinha nada de estrutura, mas que a gente iria participar de toda essa estruturação, que não houve.

O que faltava em termos de estrutura? Tudo. Lá não tinha nada. É um clube que subiu da Segunda Divisão e estava se estruturando. E o ministro que me contratou, a quem eu sou muito grato, ficou muito doente logo na sequência [à minha chegada]. Ele ficou uns sete meses fora, para se tratar em Manhattan (Nova York-EUA). Eu fiquei sabendo da situação dele e não iria ficar cobrando. Mas a gente tinha de participar de tudo, para contratar médico, fisiologista, nutricionista, suplementos, balança, enfim, tudo.  

Caso não houvesse a proposta do Corinthians, mesmo assim você teria saído do Al Wehda no fim do ano passado? Sim, sim. Em novembro, conversando com o meu empresário, fiquei sabendo que teve sondagens da China, do Japão e alguns clubes aqui do Brasil. Algumas foram sondagens, outras propostas oficiais. Então, foi quando começou a caminhar para uma saída de Arábia Saudita.

Voltar ao futebol brasileiro facilita para entrar na linha sucessória do Tite na seleção brasileira? É uma ambição que você tem? Entra nessa questão de a gente não se acomodar em tempo nenhum. A partir do momento em que almejo um dia ser técnico na Europa ou almejo chegar em uma seleção, eu acho que isso motiva não só eu como qualquer profissional. É um sonho. Eu não imaginava ser o que eu sou hoje. Mas passa a ser um objetivo, sim. 

Você comentou que o Ronaldo influenciou em sua volta ao Corinthians. Ele o aconselhou sobre seleção brasileira? Nós falamos pouco sobre seleção brasileira, falamos mais sobre a Europa e outras coisas que são muito pessoais. Quando eu voltei ao Brasil, ele estava alguns dias aqui em São Paulo, eu fui jantar na casa dele, onde a gente conversou bastante.

 O que exatamente sobre o futebol europeu? Falamos sobre a competitividade que tem lá. Por exemplo, na Arábia tinha algumas coisas que a gente estranha, como um dia em que eu perdi um jogo em casa, para o melhor time do campeonato, por 3 a 0, e sai do estádio ganhando presentes e tirando fotos com os torcedores. São coisas assim que mostram que não é um futebol de muita cobrança. Aquela cobrança natural. Lá tem que mudar um pouco essa cultura porque se não for assim, o jogador se acomoda. 

Antes de ir para lá, você sabia que era assim, sem cobrança? Sabia. Eu sabia de tudo. 

E como é para um treinador lidar com isso, como você motiva seus jogadores? A questão é deixar as coisas muito determinadas dentro de campo. Eu motivei lá como eu motivava aqui, não mudei em nada a minha forma de trabalhar. Saímos de lá em uma condição muito boa. Até o meu anúncio da saída, a gente estava em quarto no campeonato. É uma equipe que era para estar em 10º. 11º, na teoria. Mas, com o trabalho e entendimento que nós tivemos, saímos bem por cima. 

Como foi a sua participação na montagem do elenco do Corinthians? Foi diferente do que havia sido em 2017? Teve mais autonomia para indicar nomes? A partir do momento que fui anunciado, eu comecei a trabalhar junto com a diretoria para buscar jogadores com a característica do Corinthians. Eu lembro que, em 2017, eu pedi um jogador só, que foi o Pablo. Durante o ano, eu pedi o Clayson, que se destacou na Ponte Preta. Em 2018, eu pedi o Henrique, o Renê Júnior, o Vital e o Sidcley. Agora, eu estou participando mais porque precisa de uma mudança maior. Então, eu participei das chegadas do Ramiro, do Sornoza, do Boselli, e outros jogadores que possam chegar também terão a participação da comissão técnica. 

O Corinthians terminou o ano de 2018 em baixa. No Brasileiro, brigou para não cair. O que o clube apresentou a você para convencê-lo de que montaria um time forte? O segundo semestre do Corinthians em 2018 foi e não foi ruim assim. Independentemente das dificuldades, chegar a uma final de Copa do Brasil não é fácil. No Brasileiro, teve um pouco de dificuldade. Não vejo que foi um ano horrível. E eu estou surpreso com as contratações. Não me passaram nada disso. A diretoria passou que iria fortalecer, mas já está acima do que eu esperava.  

Quando o Corinthians lhe fez o convite, você teve algum receio de aceitar temendo que o clube não formasse um elenco para você brigar por títulos e acabar arranhando a imagem que você construiu? Não, porque nesse início de trabalho, dois anos como técnico, eu nunca me preocupei com títulos. Eu me preocupei em organizar a equipe, fazer um time com a característica do Corinthians, de bastante entrega, bastante doação, porque eu sei que a consequência disso é brigar por títulos. Não tive receio, não. 

Qual foi a sua participação na contratação do Boselli, com quem você teve uma conversa um pouco antes de ele fechar com o clube? Foi algo que me surpreendeu. Sempre que está para fechar com um atleta, eu entro em contato com ele para explicar sobre o clube, dar as boas-vindas. Com o Mauro [Boselli], eu não sabia como estava a negociação, mas a diretoria me avisou que ele queria falar comigo. Ele me ligou e perguntou o que eu esperava dele. Eu achei demais. Aí, eu comecei a falar as características dele que eu conheço, já que eu o acompanho desde 2009. Ele se surpreendeu e disse que eu sabia tudo.

Você vê com bons olhos uma possível troca entre Romero e Luan, do Atlético-MG? Tanto o Romero aqui, como o Luan no Atlético, são jogadores identificado com seus clubes, que fazem uma função muito parecida. O Luan dá uma possibilidade de jogar pelo meio, como jogou uma parte do Campeonato Brasileiro. São dois jogadores qualificados, fazem aquilo que você espera em um sistema de jogo. Então, a permanência desses atletas em seus clubes ou a troca eu vejo que podem ser muito boas.

Como você vai trabalhar com o Danilo Avelar, que foi bastante criticado pela torcida em 2018 e agora convive com a sombra do Guilherme Arana, que pode voltar? Para dar essa resposta eu teria de ter mais tempo com o atleta. Eu não sei ainda dizer sobre o [Danilo] Avelar, porque estou convivendo com ele agora. É um cara com uma cabeça muito boa. Mas tem jogadores que podem sentir, sim, se ficarem vendo vendo notícias de outros profissionais que possam chegar. Sobre o Avelar, não sei dizer ainda porque requer um tempo para você saber se pode afetar ou não. Mas, nesses primeiros dias que eu tenho convivido com ele, é um cara com uma cabeça muito boa e muito ciente das coisas que acontecem.

Você avalia que este elenco é melhor do que o elenco que você tinha em 2017 por ter, em quase todos os setores, pelo menos dois jogadores em condições de serem titulares? Falando no início do trabalho, eu não tenho dúvidas sobre isso. É claro que falar depois do sucesso que teve em 2017 não tem como comparar. Mas, é uma equipe mais pronta. Eu lembro que em 2017, o Balbuena era questionado, o Jô diziam que estava acima do peso, o Kazim chegando questionado. O elenco tinha muitos jogadores buscando o seu espaço e eu buscava o meu. Hoje, vejo jogadores com mais força, como o Sornoza, Manoel... No geral, é uma equipe mais equilibrada, e por isso é muito melhor que em 2017.

Quando você voltou ao Brasil, você disse que estava com saudade até dos "equívocos da imprensa", que não teriam na Arábia Saudita. No entanto, a Arábia Saudita vive em uma ditadura, a imprensa tem sérias restrições. Recentemente, um jornalista foi assassinado e há uma investigação sobre uma possível ligação do príncipe saudita com isso. O que você pensa sobre essa situação da Arábia Saudita e a atuação da imprensa nos dois países? É assim, mas não é assim também, não. Lá, eles [jornalistas] respeitam mais. O que me incomoda aqui são as fontes. O cara acorda de manhã e decide "hoje eu vou falar isso" e fala e depois disse que foi uma fonte. O cara cria. Eu sei que a imprensa vive de notícias, mas muitas vezes te colocam em uma saia justa sem ter necessidade. Até vou adiantar uma coisa: nas próximas coletivas, na hora que tiver uma pergunta com um "eu tive a informação de uma fonte..", eu não vou responder. Quando eu falei disso, da saudade dos equívocos, falei de uma forma brincando, mas algumas pessoas levaram a sério, dizendo que aqui a gente tem liberdade de expressão. Mas é só a imprensa que tem liberdade de expressão? Eu não tenho? Eu não posso falar que senti saudade dos equívocos da imprensa? Então, eu posso me manifestar já que o Brasil te dá essa abertura de liberdade de expressão

E sobre como é na Arábia Saudita? Mas a [restrição] de liberdade de expressão lá é em relação ao príncipe e à política. Se eles quiserem falar que eu estou negociando com o Barcelona e dizer que quem disse foi uma fonte, eles dizem. Lá, no tempo em que eu vivi lá e vivi muito bem, a questão mesmo é a política, de príncipe, de Arábia, de Emirados, de Catar, enfim, outros países que eu sei que há conflitos. Mas, em relação a isso [esporte], poderiam fazer tranquilamente.

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