Descrição de chapéu Seleção Brasileira

Não me vejo trabalhando no futebol feminino, diz Vadão após seleção

Ex-técnico da equipe feminina elogia sucessora e afirma que era o momento de trocar

Bruno Rodrigues
Campinas

Demitido da seleção brasileira feminina na última segunda-feira (22), o técnico Oswaldo Alvarez, o Vadão, diz não se ver trabalhando novamente no futebol feminino na sequência de sua carreira.

Treinador há 28 anos, dedicou cinco à modalidade somando as duas passagens pela CBF, a primeira entre 2014 e 2016, e a segunda entre 2017 e 2019, que encerrou com a eliminação para a França nas oitavas de final da última Copa do Mundo, na França.

"Pra ser bem sincero: o futebol masculino paga muito mais que o feminino. Vamos supor que eu vá trabalhar em um clube do futebol feminino aqui do Brasil. Não, eu tenho um mercado melhor no masculino, financeiramente falando. Mas se amanhã tiver um convite de fora do país, de alguma seleção, e a gente entender que seja válido, tudo bem. Mas no momento estou focado em voltar pro futebol masculino", disse Vadão, 62, em entrevista à Folha em sua residência, em Campinas, interior de São Paulo.

Vadão em entrevista à Folha em sua residência em Campinas, interior de São Paulo
Vadão em entrevista à Folha em sua residência em Campinas, interior de São Paulo - Karime Xavier/Folhapress

Para o lugar do técnico, a CBF anunciou na quinta-feira (25) a contratação da sueca Pia Sundhage, bicampeã olímpica com os Estados Unidos (2008 e 2012) e medalha de prata com a seleção sueca nos Jogos de 2016, no Rio. 

Pressionado principalmente pelos resultados antes do Mundial (nove derrotas consecutivas até chegar à França), Vadão reconhece que se desgastou no comando e crê que o momento para a troca de treinadores foi oportuno, mas considera seu trabalho positivo à frente da equipe nos cinco anos em que treinou a seleção.

"Dentro daquilo que a gente se propôs a fazer, e está classificado para a Olimpíada, nos classificamos para o Mundial, os objetivos foram alcançados. O que não foi alcançado foi um resultado melhor no Mundial", afirma.

Em relação à nova técnica da seleção, acredita que a contratação de Sundhage foi um acerto por parte da entidade que comanda o futebol brasileiro.

"Eu acho que a CBF foi no máximo. Foi buscar uma técnica que tem uma experiência muito grande dentro da modalidade do feminino, vencedora, tem uma experiência que pode ser muito bem aproveitada. Vai ser uma troca interessante", opina o técnico, que disse ter sido informado da negociação com a sueca antes mesmo de sua demissão.

Como você encarou sua demissão da seleção brasileira? Considera o saldo do trabalho positivo? Natural. Foi uma demissão absolutamente normal, os resultados não aconteceram, a pressão vinha acontecendo já desde os amistosos. Para você ter uma ideia, fui contratado duas vezes pelo mesmo presidente, que foi o Marco Polo [Del Nero]. Depois que ele saiu, tive um apoio muito grande do coronel Nunes no período que ele [Del Nero] tinha se afastado (foi banido do futebol pela Fifa por envolvimento em casos de corrupção). Agora com o Rogério [Caboclo], no momento mais difícil que atravessei com a seleção, que foi esse final, os amistosos antes do Mundial, o Rogério bancou minha permanência. O fato de eles terem optado pela troca, eu me desgastei mesmo. E para mudar, tinha que mudar agora. Não dava para mudar no final do ano.

Como foi a conversa na saída da CBF? O presidente conversou com você? O comunicado [de demissão] desta semana era uma coisa que a gente já tinha conversado. A CBF disse para esperar um pouquinho até para conversar com a Pia. Não foi feito nada às minhas costas, a CBF não pisou na bola. Conversei rapidamente com o presidente, analisamos e nós chegamos à conclusão de que seria um desgaste muito grande para todo mundo, inclusive para mim e pro próprio presidente, de saber que existia uma pressão grande e bancar aquilo, ficar mais um ano nessa tortura que foi.

Qual a sua opinião sobre a contratação da Pia Sundhage? Eu acho que a CBF foi no máximo. Foi buscar uma técnica que tem uma experiência muito grande dentro da modalidade do feminino, vencedora, tem um trabalho prestado aos EUA e à própria Suécia. Tem uma experiência que pode ser muito bem aproveitada. É de uma escola diferente. Lógico, as atletas vão ter que se adaptar a ela e ela vai ter que se adaptar um pouco com a própria característica do futebol brasileiro. Vai ser uma troca interessante. 

Pesou o fato de ser mulher para a contratação? Ela foi a treinadora que nos desclassificou na Olimpíada [na semifinal de 2016, no Rio]. A gente ganhou o primeiro jogo na fase classificatória por 5 a 1 da Suécia. E no segundo jogo ela usou uma estratégia extremamente defensiva e teve seu mérito, levou para os pênaltis e ganhou. Ali ela já deixou uma boa impressão. Depois ela veio dar uma palestra aqui [no Brasil] e ali estreitou mais a amizade com a CBF. O fato de ser mulher também ajudou bastante, porque a Fifa também tem pedido que se use o máximo de mulheres possíveis. Tanto que você é obrigado a levar uma fisioterapeuta ou uma médica para competições oficiais.

Você vê a Marta jogando por mais quanto tempo? Outro dia ela falou uma frase engraçada, disse: "Se a Formiga me ensinar como é que faz isso". Porque a Formiga ainda vai disputar Olimpíada [de Tóquio, em 2020], com 42 anos. Ela tem uma saúde, não vou dizer parecida com a da Formiga, mas muito próxima. Tinha foco. Acho que ela ainda vai pro outro Mundial [em 2023].

Uma das principais críticas ao seu trabalho foi o aspecto tático. Envolvia principalmente a discussão sobre a Marta, melhor jogadora da equipe, fechando linha de marcação pelo lado do campo. Faria algo diferente? Na Olimpíada, com a Cristiane e a Bia, duas atacantes de área, fortes, não dava para colocar a Marta pelo centro. Como o 4-4-2 estava bem treinado, falamos com ela e disse que estava tranquilo, já tinha jogado aberta na temporada. Ela nunca se opôs. Essas críticas surgiram agora nos amistosos por causa de um jogo. Tivemos um jogo com a Espanha que a Marta fez o gol, na mesma situação que ela vinha jogando. No segundo tempo, a Espanha nos pressionou de uma forma que não conseguimos sair, mas foi um jogo atípico [espanholas venceram por 2 a 1].

Oswaldo Alvarez, o Vadão, teve duas passagens pela seleção feminina que somaram quase cinco anos
Oswaldo Alvarez, o Vadão, teve duas passagens pela seleção feminina que somaram quase cinco anos - Karime Xavier/Folhapress

​​Você trabalha há mais de 25 anos no futebol. Com o retrospecto pré-Copa, de nove derrotas seguidas, acha que​ conseguiria manter o cargo em situação semelhante no futebol masculino? É difícil a gente analisar, porque aí cabe a cabeça do dirigente. No caso ali o Caboclo foi lá e bancou. Os nossos jogos foram pau a pau. A não ser o jogo da Espanha, no segundo tempo que eu não gostei, os outros jogos foram todos normais. Agora, as pessoas pulam o jogo do Canadá. Na verdade foram sete jogos [com derrota]. Por uma questão burocrática, foi com portões fechados, e aí falaram que foi jogo-treino (o site da CBF traz o relato como jogo-treino). Não, por questão de propaganda e burocracia, foi com portões fechados. Tinha trio de arbitragem, súmula, as mesmas seis substituições. Foi um jogo normal.

Você se vê trabalhando no futebol feminino novamente, tem alguma perspectiva? Não, não me vejo. Porque veja bem, para ser bem sincero: o futebol masculino paga muito mais que o feminino. Vamos supor que eu vá trabalhar num clube do futebol feminino aqui do Brasil. Não, eu tenho um mercado melhor no masculino financeiramente falando. Mas se amanhã tiver um convite de fora do país, de alguma seleção, e a gente entender que seja válido, tudo bem. Mas no momento estou focado em voltar pro futebol masculino.

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