Ídolos já trocaram genialidade por dia de fúria nos gramados

Ex-atletas recordam casos em que o futebol foi esquecido e deu lugar a agressões

Toni Assis
São Paulo
Segundo a Fifa, cerca de 715 milhões de pessoas assistiram à final da Copa do Mundo de 2006, entre Itália e França. Poucas devem ser as que não apontariam a cabeçada de Zinédine Zidane em Marco Materazzi como o momento mais marcante da partida.
 
Considerado um dos maiores jogadores da história, Zidane se consagrou pela técnica apurada e estilo discreto, nada condizentes com a reação que lhe rendeu o cartão vermelho naquele que foi o seu último jogo como profissional.

“A competência psicológica ganha destaque por ser o diferencial competitivo dos atletas. A cabeçada do Zidane foi uma marca de indisciplina irreparável”, afirma a psicóloga do esporte Suzy Fleury, que já trabalhou no Corinthians e na seleção brasileira.

Para ela, o grau de expectativa que um atleta tem sobre seu trabalho é diretamente proporcional à frustração em caso de fracasso. “Quando o resultado não vem e você se esforça ao máximo, o jogador pode perder o controle. É um ser humano”, afirmou.

O ex-camisa 10 da França talvez seja o exemplo mais icônico, mas há outros grandes nomes do futebol, lembrados por belos gols e jogadas, que viveram momentos de ira antes dele.

Em 1982, também durante uma Copa do Mundo, os argentinos chegaram para a partida contra o Brasil precisando da vitória. Quando o placar já estava em 3 a 0 para a seleção verde-amarela, Diego Armando Maradona ergueu a sola da chuteira e acertou Batista. Uma despedida melancólica do Mundial da Espanha.

“Você nunca ia esperar uma coisa daquela vinda do Maradona. A bola estava no alto e eu entrei para fazer o domínio. Ele me pegou de frente e a pancada foi de cima para baixo. Pegou na virilha. Imagina meu drama”, lembrou o ex-volante de Internacional e Grêmio à Folha.

Em entrevista ao site da Fifa divulgada em 2017, Maradona, tentou justificar. Disse que se irritou com Falcão, que pedia para o Brasil tocar a bola, e resolveu acertá-lo, mas errou o alvo.

Anos depois, o argentino se reencontraria com Batista pelo Campeonato Italiano de 1984. Para apresentar o jogo entre Lazio e Napoli, os jornais do país estamparam a foto do lance de dois anos antes.

“O juiz entrou em campo e ficava olhando só para nós dois. Mas lembro que foi uma partida normal e não teve nada demais. Inclusive, acabou empatada”, contou o ex-jogador.

O ex-meia Diego Maradona, considerado o maior jogador da história da Argentina, disputou quatro Copas  e foi campeão do mundo em 1986, no México
O ex-meia Diego Maradona, considerado o maior jogador da história da Argentina, disputou quatro Copas e foi campeão do mundo em 1986, no México - France Presse- AFP

No futebol brasileiro também não faltam exemplos de atletas com momentos de desequilíbrio emocional em campo. O ídolo do Vasco Roberto Dinamite, que se envolveu em uma briga após as quartas de final do Campeonato Brasileiro de 1983, é um deles.

Precisando derrotar o Flamengo por dois gols de diferença, o time cruzmaltino vencia por 1 a 0 até que Zico empatou o jogo aos 43 minutos do segundo tempo.

“Clássico é diferente. Alta tensão. Daí você tá perdendo e o cara [Valquir Pimentel, árbitro do confronto] vai e te expulsa. No lance [que originou a expulsão], o Andrade prendeu a bola no meio dos pés e eu dei um bico na bola. Eu acertei a bola e fui expulso”, afirmou Dinamite.

Revoltado, o vascaíno precisou ser contido pelo rival Zico, pois queria agredir o juiz que o tirou de campo. “Meu perfil mostra que eu nunca fui disso. É que às vezes acontecem coisas que deixam você chateado. Não dá para falar de maneira calma”, defendeu-se.

Se em 1983 Zico conteve Dinamite, anos antes o flamenguista foi quem precisou ser acalmado. Após cobrar o escanteio que originou gol do título do Campeonato Carioca de 1978, ele se desentendeu com o volante Guina, do time adversário. Jornalistas, dirigentes e policiais tomaram conta do gramado e até o técnico Leão, do rival Vasco, tentou segurar o jogador.

Zico em ação no Maracanã contra o Botafogo no final dos anos 70; ele foi principal jogador do time que ganhou Libertadores e o Mundial de clubes em 1981
Zico em ação no Maracanã contra o Botafogo no final dos anos 70; ele foi principal jogador do time que ganhou Libertadores e o Mundial de clubes em 1981 - Manoel Pires/Folhapress

“Essas coisas acontecem. Às vezes é um problema mal resolvido que você leva para o campo ou uma provocação que você aceita”, disse o ex-meia Tita. Com 20 anos na época, ele era uma jovem promessa do Flamengo e estava em campo no dia do incidente.

Quem não era jovem, mas que também perdeu a cabeça em outro momento, foi Romário. Em 2002, durante um duelo contra o São Paulo, no Morumbi, o atacante agrediu o zagueiro Andrei. A diferença dessa vez, porém, é que eles não eram rivais, mas sim colegas de clube.

Romário deu um soco no defensor, que não revidou. “Eu não devia ter feito aquilo com o Andrei, que é um cara legal”, afirmou Romário tempos depois. “Já pedi desculpas a ele e à família dele. Naquele momento até covarde eu cheguei a ser.” Perdido em campo, o time carioca foi goleado por 6 a 0.

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.