Descrição de chapéu The New York Times Velocidade

Como piloto negro levou Nascar a banir bandeira ligada ao racismo

Bubba Wallace protestou contra símbolo do exército confederado, defensor da escravidão

Juliet Macur
The New York Times

Darrell “Bubba” Wallace Jr., o único piloto negro na principal série de competição da Nascar, atraiu muita atenção e elogios por seu posicionamento em defesa de princípios que levaram à proibição da exibição da bandeira confederada em um esporte majoritariamente branco.

Mas, depois de anos de aceitação silenciosa do “rótulo racista”, nas palavras dele, ninguém ficou mais surpreso do que a mãe do piloto por ele ter se tornado uma figura central na movimentação que vem acontecendo no mundo do esporte com relação às questões raciais.

“Fiquei chocada”, disse Desiree Wallace em entrevista por telefone. “Calma lá, eu disse, estamos mesmo falando do meu filho? Aquele cara que só se incomoda com entrar no carro e pilotar? Estou alucinando, se ele realmente deixou de ser piloto de corrida para se transformar em ativista. Quem, o Bubba?”.

Mas uma série de acontecimentos, especialmente o assassinato de um homem negro, Ahmaud Arbery, que estava fazendo jogging em um bairro predominantemente branco na Geórgia, fez com que Wallace perdesse a paciência, dizem o piloto e pessoas próximas a ele.

Diferentemente de outros atletas negros que agora estão se pronunciando durante o diálogo e debate sobre questões raciais e questionando a brutalidade policial, Wallace encontrou sua voz em um esporte no qual está cercado de colegas brancos. Muitos destes o apoiaram, mas outros mantiveram o silêncio.

Por muito tempo, Wallace, 26, tentou se concentrar exclusivamente nas corridas e não agitar a cultura de um esporte cuja base de fãs continua a ser predominantemente branca e conservadora. Desde que ele começou a correr, aos nove anos, pilotando um kart recreativo modificado, sua principal preocupação sempre foi andar rápido e cruzar a linha de chegada em primeiro lugar.

Wallace, nascido em Mobile, Alabama, cresceu na Carolina do Norte, o coração da Nascar, e costumava assistir a corridas com seu pai, Darrell Senior, que é branco, e às vezes com sua mãe, que é negra. Quando se tornou piloto, ele colocava o capacete e procurava se integrar.

Bubba Wallace com uma camiseta escrito "Eu Não Consigo Respirar", em protesto ao assassinato de negros, antes de uma corrida na Georgia
Bubba Wallace com uma camiseta escrito "Eu Não Consigo Respirar", em protesto ao assassinato de negros, antes de uma corrida na Georgia - Chris Graythen - 6.jun.2020/AFP

“Nunca observei o mundo pelo prisma da cor e nunca achei que era tratado de maneira diferente por ser negro”, disse Wallace em entrevista por telefone. “Eu era jovem demais para compreender que estava desbravando caminhos, que era um pioneiro."

Mas aos 13 anos, o pai de um piloto rival e um dirigente de prova usaram um epíteto racial para insultá-lo, e isso levou Desiree Wallace a se sentar com o filho para uma conversa séria.

Ele perguntou o que o epíteto queria dizer.

“São pessoas ignorantes, Bub”, Desiree Wallace recorda ter respondido, usando a versão abreviada do apelido que a irmã dela, Brittany, deu ao menino quando ele ainda era bebê.

Ela explicou também que “você não deve usar a violência e não deve brigar quando disserem isso a você. O modo certo de reagir é vencendo. Você conquista o respeito deles quando vence."

À medida que Wallace avançava no esporte, foi se tornando claro que a Nascar via nele o potencial de diversificar seu elenco de competidores e sua audiência.

Aos 16 anos de idade, em 2010, ele conseguiu vaga no programa de desenvolvimento Drive for Diversity, da Nascar. A academia de pilotagem é dirigida por Max Siegel, advogado e ex-presidente mundial de operações da Dale Earnhardt Inc. A escola oferece treinamento às mulheres e aos pilotos minoritários mais promissores do esporte.

Wallace ainda usava aparelho nos dentes quando começou a treinar, e demonstrou um grau de determinação que imediatamente impressionou Siegel, que, contatado esta semana, disse ter percebido de imediato que o piloto era “o pacote completo”, por ser inteligente e mostrar imenso talento.

“Ele se comportava com maturidade desde o dia em que o conheci”, disse Siegel, que se tornou presidente-executivo da Federação de Atletismo dos Estados Unidos em 2012, mas ainda continua a comandar a Revolution Racing, a equipe de corridas do programa Drive for Diversity. “Ele nunca se deixou comprometer como pessoa, boa, má ou indiferente, e traz uma grande autenticidade."

Siegel disse que Wallace começou a compreender o peso adicional que carregava por representar toda uma comunidade de pessoas com participação baixa em seu esporte, e que ele encarava essa responsabilidade seriamente.

Wallace concluiu o programa de desenvolvimento e em 2013 se tornou o primeiro piloto negro desde Wendell Scott, em 1963, a vencer uma prova em uma das séries nacionais da Nascar. Em 2017, ele foi contratado para dirigir o famoso Chevrolet nº 43 para a Petty Motorsports, em todas as provas da principal série da Nascar. Wallace diz que a cada dia tem de encarar comentários racistas dos torcedores, na mídia social.

No topo, a bandeira dos EUA e, logo abaixo, duas bandeiras confederadas, símbolo hasteado há décadas pela Nascar e banido em 2020 por sua associação à escravidão
No topo, a bandeira dos EUA e, logo abaixo, duas bandeiras confederadas, símbolo hasteado há décadas pela Nascar e banido em 2020 por sua associação à escravidão - Todd Warshaw - 10.jul.2015/AFP

As críticas o incomodavam, tanto que ele decidiu postar uma mensagem em sua página de Twitter lembrando os leitores de que ele será conhecido como “o piloto negro” por muitos anos, porque só existe um atleta negro nas categorias mais altas da Nascar. “Encarem o fato, aceitem e divirtam-se na viagem”, ele disse.

No entanto, Wallace disse ter enfrentado dificuldades, em alguns momentos. Ele sabe, bem no fundo, que para manter seu posto na principal categoria da Nascar, ele tem de continuar vencendo.

Em 88 largadas, Wallace só completou corridas nos cinco primeiros postos em duas ocasiões, e só chegou entre os 10 primeiros seis vezes. Na segunda-feira, ele disse que estar sem vencer desde 2017 “é algo que me incomoda todos os dias”. Além disso, sua equipe, como muitas outras da Nascar, enfrentou dificuldades para obter patrocínios duradouros.

Embora Wallace se preocupe com a possibilidade de incomodar os atuais patrocinadores os patrocinadores em potencial, ele disse que sua perspectiva mudou no mês passado quando um de seus primos postou um vídeo sobre a morte de Arbery no Instagram.

O piloto afirmou que não conseguiu dormir naquela noite, e que assistiu ao vídeo repetidamente. Conta que não conseguia esquecer que um homem negro, de sua idade, podia ser abatido a tiros por brancos que pareciam o estar caçando enquanto ele se exercitava. Wallace disse que continua a ouvir os tiros, em seus pensamentos.

O assassinato de Arbery partiu seu coração, ele disse, e abriu sua cabeça quanto à urgência de lutar pela justiça racial.

Não muito depois veio o caso de George Floyd, um homem negro que morreu em 25 de maio depois que um policial branco forçou seu pescoço contra a calçada com o joelho por diversos minutos. Wallace enviou uma mensagem de texto aos demais pilotos, se declarando frustrado com o silêncio de muitos deles sobre o assunto, enquanto pessoas protestavam em todo o país.

Ele disse aos colegas que compreendia que todos precisam ser cautelosos quanto ao que dizem em público, mas que se pronunciar sobre as injustiças era mais importante.

“Nosso esporte sempre foi rotulado como um tanto racista”, disse Wallace em entrevista no podcast de Dale Earnhardt Jr. no começo deste mês. “Quando as pessoas pensam na Nascar, pensam em sulistas toscos, bandeiras confederadas, racismo. E odeio isso. Odeio porque sei que a Nascar é muito mais. Perguntei a eles se o que estava acontecendo no mundo não os incomodava."

Muitos de seus colegas, disse Wallace, entenderam e o apoiaram no momento em que decidiu se abrir como nunca havia feito.

Jimmie Johnson, sete vezes campeão da série Nascar Cup, organizou a participação de cerca de duas dúzias de pilotos em um vídeo que condena a desigualdade racial e o racismo. “É responsabilidade de todos nós não mantermos mais o silêncio”, eles disseram no vídeo.

No Instagram com outro piloto, Ty Dillon, Wallace descreveu suas experiências com o racismo das autoridades, entre as quais ser parado por policiais que sacaram as armas e expressaram dúvida de que ele fosse o dono do Lexus que estava dirigindo.

Em “Nascar Race Hub”, um programa da rede Fox de TV, Wallace chorou ao ler uma mensagem de texto que sua mãe lhe enviou depois da morte de Floyd.

“Eu rezo, como mãe, para que jamais tenha de ouvir você dizendo que não consegue respirar”, a mensagem dizia. “Amo você, Bubba, e sua vida importa para mim."

Assistindo em casa, Desiree Wallace também chorou. “Eu não sabia que tinha tido esse impacto sobre ele até a entrevista”, ela disse na quarta-feira. “Foi um choque para mim ver o quanto as vidas das pessoas negras importavam para Bubba”.

Bubba Wallace diz que enfim compreende a dor que sua mãe sentiu em 2003, quando seu primo, Sean Gillispie, foi morto a tiros por um policial branco, aos 19 anos, no estacionamento de uma loja de conveniência de Knoxville, Tennessee.

A polícia afirmou que ele estava sacando uma arma, mas a família e uma testemunha rebatem que Gillispie estava apenas apanhando seu celular. A família processou a prefeitura por negligência, mas saiu derrotada.

E Wallace disse que por fim chegou à conclusão de que a bandeira confederada não deveria ser exibida nas corridas porque representa o ódio, e não uma herança cultural. Dois dias depois de ele dizer isso em uma entrevista à rede CNN de notícias, e horas antes da largada de uma corrida na qual seu Chevrolet nº 43 exibia o lema #BlackLivesMatter, a Nascar proibiu o uso da bandeira confederada.

“Minha mãe me enviou uma mensagem de texto na semana passada para me dizer que Deus tinha um plano maior para mim do que simplesmente o de eu ser um piloto de corrida”, disse Wallace. “E ela estava certa."

Na corrida de Martinsville, Bubba Wallace pintou seu carro de preto, desenhou nele símbolos antirracistas e escreveu a hashtag de protesto contra o assassinato de negros, #VidasNegrasImportam
Na corrida de Martinsville, Bubba Wallace pintou seu carro de preto, desenhou nele símbolos antirracistas e escreveu a hashtag de protesto contra o assassinato de negros, #VidasNegrasImportam - Steve Helber/USA TODAY Sports

Tradução de Paulo Migliacci

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