Clubes deixarão de faturar milhões com jogos sem torcida no Paulista

Proibição de público por causa da pandemia afeta arrecadação em momento de crise

São Paulo

O retorno do Campeonato Paulista, a partir da próxima quarta-feira (22), não será suficiente para que os grandes clubes de São Paulo tenham alívio na crise financeira que vivem, agravada pelos quatro meses de paralisação do futebol.

Faltam duas rodadas da fase de grupos, antes do início das quartas de final. A decisão está marcada para 8 de agosto.

Com a proibição de público nos estádios, medida central da retomada do esporte na maior parte dos países para mitigar a transmissão do novo coronavírus, Corinthians, Palmeiras, São Paulo e Santos deixarão de arrecadar milhões que poderiam obter com venda de ingressos na reta final da competição.

Nas edições de 2018 e 2019 do Paulista, os quatro chegaram às semifinais. Em 2017, apenas o Santos parou antes, nas quartas.

Campeão das três últimas edições, o Corinthians foi quem mais faturou no jogos de mata-mata. Com a venda de 326.675 ingressos, arrecadou R$ 17,3 milhões somando nove partidas como mandante nas edições de 2017, 2018 e 2019 (média de R$ 5,8 milhões por ano).

Somente no torneio do ano passado, o clube alvinegro recebeu R$ R$ 6,2 milhões de bilheteria: R$ 710 mil contra a Ferroviária (quartas de final), R$ 1,8 milhão contra o Santos (semifinal) e R$ 3,7 milhões na decisão do título diante do rival São Paulo, em sua arena.

O levantamento considera somente a arrecadação líquida, descrita no boletim financeiro da Federação Paulista de Futebol (FPF), com os descontos de impostos e taxas.

Em 2020, o torneio passou a ter jogo único nas quartas e semis. Apenas a final contará com ida e volta. É possível, porém, que o Corinthians nem possa lamentar a falta de arrecadação no mata-mata, já que suas chances de avançar para essa fase da competição são pequenas.

A equipe do técnico Tiago Nunes está a cinco pontos da zona de classificação e, nas duas últimas rodadas da fase de grupos, terá que vencer Palmeiras e Oeste, além de contar com tropeços do Guarani contra Botafogo e São Paulo.

Ainda assim, o clássico em Itaquera contra o rival alviverde também representará uma perda de oportunidade considerável para arrecadação.

Em grave crise financeira, com déficit de R$ 177 milhões em 2019, o clube destina o valor com a venda de ingressos para quitar o empréstimo feito junto à Caixa Econômica Federal para construção do estádio, inaugurado em 2014. Por contrato, o clube tem de pagar a quantia mensal de R$ 5,7 milhões.

Em setembro de 2019, o banco recorreu à Justiça para cobrar uma dívida de R$ 536 milhões. O clube, por sua vez, afirma que o débito é de R$ 470 milhões.

A pedido da Caixa e do Corinthians, o processo está suspenso desde outubro, mas não extinto, enquanto as partes tentam um acordo amigável.

Procurado pela Folha, o presidente Andrés Sanchez diz que a volta do torcedor deverá ser aceitável somente com a descoberta de uma vacina. Ele lamenta o cenário provocado pela pandemia, já que, com o dinheiro do Paulista, conseguiria ao menos diluir o saldo devedor com a Caixa.

A bilheteria rendeu o mesmo valor para Palmeiras e São Paulo (R$ 9,8 milhões) na soma das últimas três participações das equipes no mata-mata estadual (sete partidas como mandante para cada).

O departamento financeiro do Palmeiras previa que, com a presença de torcedores no Allianz, o time conseguiria um lucro líquido de R$ 7,5 milhões em caso de ida à final.

“A venda de ingressos seria um dinheiro fundamental, ainda mais agora, em uma crise como essa”, afirma Elias Barquete Albarello, diretor executivo de finanças do São Paulo. “A única perspectiva de uma nova receita [fora contratos já firmados com patrocinadores e TV] hoje é a venda de jogadores.”

O São Paulo também vem de prejuízos na temporada passada. Apresentou déficit de R$ 156 milhões em 2019.

Antes da paralisação do futebol, São Paulo e Santos jogaram Morumbi no dia 14 de março de portões fechados - Eduardo Knapp 14.mar.2020/Folhapress

Derrotado pelo Corinthians na decisão do ano passado, o time tricolor, que há 16 anos não avançava à final do Paulista (foi campeão em 2005 com a melhor campanha nos pontos corridos), obteve uma renda de R$ 5,2 milhões somente no primeiro jogo da final. Na ocasião, foram comercializadas 58.713 entradas no Morumbi.

Dirigentes dos grandes paulistas estimam que o prejuízo possa chegar a R$ 150 milhões, contabilizando bilheterias perdidas também da Libertadores e do Campeonato Brasileiro, premiações por desempenho, patrocinadores e contratos de TV.

A FPF também irá amargar uma queda brusca de rendimentos com os portões fechados. Nos mata-matas das três últimas edições, a entidade embolsou, somente com a taxa de 5% referente ao faturamento bruto, R$ 3,2 milhões. Foram mais R$ 1,2 milhão com a cobrança do Fundo de Promoção e Desenvolvimento do Futebol Paulista.

Para esta última, a federação recolhe 2% da renda de Corinthians, Palmeiras, Santos e São Paulo, quando mandantes, e 1% dos demais times da competição.

Em nota, a FPF diz que os jogos sem público geram impacto esportivo e financeiro. Como consequência, a entidade afirma que adotou a Medida Provisória 936, reduzindo em 25% a carga horário e salários dos funcionários e enxugou em 48% gastos com empresas contratadas e prestadores de serviço.

Torcedor do São Paulo beija o escudo do time na camisa. Atrás dele estão outros vários torcedores do clube
Torcedores do São Paulo antes da final do Paulista 2019 contra o Corinthians - Eduardo Anizelli - 14.abr.2019/Folhapress

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