No Brasileiro sem torcida, mandantes levam mais cartões e vencem menos

Levantamento da Folha mostra movimento semelhante também nos torneios europeus

São Paulo

Caldeirão, arapuca, panela de pressão. Muitos são os apelidos para estádios de futebol lotados, com torcidas vibrantes que empurram seu time e intimidam o adversário. Atualmente, as arquibancadas vazias em razão da pandemia do coronavírus parecem afetar o desempenho dos donos da casa.

Levantamento feito pela Folha mostra que, sem torcida e comparado ao ano passado, o Campeonato Brasileiro de 2020 até agora tem menos vitórias dos times mandantes, que também levam mais cartões.

Nesta temporada, os donos da casa receberam 186 amarelos ou vermelhos nas oito primeiras rodadas do Nacional, média de 2,51 por jogo ou 49,5% do total de cartões distribuídos, o maior percentual desde 2013 (a partir de quando os dados estão disponíveis no site da CBF). Ano passado, a média no mesmo período foi de 1,95 por partida (42,4% do total).

O movimento é semelhante ao verificado nos campeonatos nacionais da Alemanha, Itália, Espanha e Inglaterra em 2020, que também viram os mandantes receberem mais cartões sem as arquibancadas a favor.

Salvio Spinola, ex-árbitro Fifa e hoje comentarista da Globo, reconhece que o ambiente está menos hostil para a arbitragem, o que pode levar a mais punições para os mandantes.

"Às vezes a gente pensa só no árbitro, mas tem o bandeirinha. Ele perde a concentração próximo à arquibancada. Cheguei a apitar jogos em que no intervalo o bandeirinha teve que jogar a camisa no lixo, trocar o uniforme, não dava nem para lavar. Catarro, urina, cuspe… Tem grau de dificuldade pelo ambiente. Sem torcida, esse grau é zero”, afirma.

Salvio explica que, para o Brasileiro, a CBF conta com uma série de árbitros ainda em formação. Segundo ele, a tomada de decisão desses juízes é mais afetada pela pressão das arquibancadas, enquanto profissionais mais experientes não se deixam abalar com a mesma frequência.

O levantamento considerou as primeiras oito rodadas dos Brasileiros disputados desde 2013, de acordo com as súmulas da CBF. O Nacional de 2020 teve menos jogos nesse período que os anteriores em razão das partidas adiadas.

Na Europa, como os campeonatos tiveram seu final (e não o começo) disputado sem torcida, a base de comparação foi o mesmo número de jogos da reta decisiva das temporadas anteriores. Eles foram extraídos do site britânico Football Data.

Também houve mudança na proporção de vencedores que atuaram dentro e fora de casa. No Brasileiro deste ano, o time mandante venceu 32 dos 74 jogos analisados, pouco mais de 43%. Em 2019, em 80 partidas foram 57,5% de triunfos.

Longe de casa, as equipes venceram 21,2% dos jogos na última temporada e 27% na atual. Os empates subiram de 21,2% para 29,7%.

De novo, na Europa o movimento foi semelhante, com destaque para a Alemanha, onde foi melhor viajar do que jogar com suas arquibancadas vazias após a retomada da temporada 2019/20 da Bundesliga.

Lá, o índice de vitória dos donos da casa despencou de 47,5% para 31,7%, enquanto o do triunfo de visitantes subiu de 30,5% para 45,1%. Exceção, na Inglaterra tanto vitórias de visitantes quanto de mandantes caíram, respectivamente, 3% e 2%; os empates aumentaram.

Para Muricy Ramalho, ex-treinador e hoje também comentarista da Globo, no Brasil times tecnicamente inferiores por vezes conseguiam compensar essa diferença com ajuda da torcida. Cita como exemplos Athletico e Coritiba, ambos na parte de baixo do campeonato em 2020.

Lembra ainda que o início ruim do atual campeão Flamengo, que trocou seu treinador às vésperas do torneio, pode ter sido causado também pela ausência dos torcedores nas arquibancadas do Maracanã.

“Além do incentivo, tem a pressão, tudo faz parte de um time de futebol. A comissão e os jogadores estão se acostumando [a jogar sem torcida]. Parece que agora está faltando, além do torcedor, um pouco da pressão. Você vê o jogo ficar chocho, meio lento, entende."

Ele ressalta ainda que, pelas dimensões continentais do Brasil, a vantagem do visitante pode não ser tão grande quanto na Alemanha, por exemplo, pelo desgaste das viagens. Hoje elas são cercadas de preocupações devido aos protocolos de testagem e sanitização.

Membro da organizada Gaviões da Fiel desde os 13 anos de idade, Danilo Pássaro, um dos organizadores das recentes manifestações de torcedores em favor da democracia, vê que no caso do seu time as arquibancadas vazias são prejudiciais inclusive fora de casa.

“A torcida do Corinthians, que viaja pelo Brasil com o clube, acaba fazendo com que um jogo fora de casa também se torne um jogo em casa. Isso se perde, ou seja, o futebol perde a vida”, diz.

Na última quinta-feira (10), o Corinthians perdeu, em casa, por 2 a 0 para o Palmeiras
Na última quinta-feira (10), o Corinthians perdeu, em casa, por 2 a 0 para o Palmeiras - Amanda Perobelli/Reuters

Ele entende que, neste momento, o país ainda está longe de ter segurança sanitária para o retorno dos torcedores aos estádios e que também não é viável imaginar qualquer protocolo de distanciamento social para as arquibancadas de um jogo de futebol.

Na sua visão, não poder ir ao estádio nos finais de semana, além da perda de um espaço de lazer importante na vida cotidiana do brasileiro, também traz um prejuízo cultural.

“Você abraça o cara do lado que nem conhece e esse é um elemento importante também para formação das nossas relações sociais e humanas, e isso para mim é a grande magia de uma torcida, é espaço de pertencimento. Temos uma sociedade desigual, com pessoas marginalizadas, e na arquibancada ela é chamada de irmão e se sente parte de um todo, tratada como gente”, diz.

Salvio Spinola lembra que o torcedor não interfere só no apito, mas também nos jogadores. Lembra do pênalti sofrido por Fred na abertura da Copa do Mundo do Brasil, em Itaquera, contra a Croácia. No entendimento do ex-juiz, o atacante brasileiro aproveitou o clima do estádio para pressionar o árbitro a marcar a penalidade —deu certo.

Ele opina que, sem a torcida, dificilmente o camisa 9 arriscaria a simulação, e conta que é comum ver jogadores que tem o hábito de cavar faltas em casa, mas não fora.

Muricy Ramalho, tricampeão brasileiro pelo São Paulo e campeão da Libertadores com o Santos, nota que jogadas vibrantes, como carrinhos na lateral, tem acontecido menos atualmente.

O ex-treinador se diverte ao imaginar como deve ser passar instruções para o time na Vila Belmiro sem a torcida, já que os dois bancos de reserva são bem próximos. Com o silêncio, pensa que deve ser possível ouvir toda a conversa do adversário.

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.