Rafael Westrupp diz que COB precisa se abrir ao diálogo com governos

Candidatura do dirigente do tênis à presidência do comitê tem forte base em Brasília

São Paulo

Presidente da Confederação Brasileira de Tênis desde 2017, o catarinense Rafael Westrupp, 40, é o mais jovem entre os três candidatos à presidência do Comitê Olímpico do Brasil (COB).

Seus concorrentes são o candidato à reeleição, Paulo Wanderley, 70, e o presidente da Confederação Brasileira de Pentatlo Moderno, Helio Meirelles, 68. O pleito, primeiro com mais de uma chapa inscrita desde 1979, será realizado na próxima quarta-feira (7), em um hotel na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro.

Para tentar se fortalecer na disputa, Westrupp buscou apoio junto a nomes experientes da política esportiva, como o ex-ministro do Esporte Leandro Cruz, atualmente secretário de Educação do Distrito Federal, e o presidente do Comitê Paralímpico Internacional, o brasileiro Andrew Parsons.

Rafael Westrupp é um dos candidatos à presidência do COB
Rafael Westrupp é um dos candidatos à presidência do COB - André Gemmer/Green Multimídia

Seu candidato a vice, o campeão olímpico de vôlei de praia Emanuel Rego, estava na secretaria do Esporte do governo de Jair Bolsonaro até junho.

“O COB precisa buscar e se abrir ao diálogo com as esferas de governo, independentemente de partidos, sem personificação política”, afirmou o catarinense, que teve uma carreira modesta como tenista profissional e cursou administração de empresas, em entrevista por email à Folha.

Em fevereiro, o banco estatal de Brasília, o BRB, cujo acionista majoritário é o governo do Distrito Federal, fechou contrato de patrocínio com a CBT por R$ 2 milhões durante um ano.

Entre os apoiadores de Westrupp estão as confederações de futebol (CBF), vôlei (CBV) e basquete (CBB).

Emanuel também se desdobra para conquistar votos dos atletas, que passaram a ter 12 assentos nas assembleias da entidade a partir de 2017. Seria tarefa mais simples se Westrupp não estivesse entre os dirigentes de confederações que inicialmente votaram contra essa ampliação —duas semanas depois, após pressão, a proposta foi aprovada de forma unânime.

Além desses 12 atletas, formam o colégio eleitoral 35 representantes das confederações olímpica e dois integrantes brasileiros do Comitê Olímpico Internacional (COI) —o ex-jogador de vôlei Bernard Rajzman e Andrew Parsons.

O pleito poderá ter até dois turnos para confirmar o vencedor, que precisará chegar à maioria dos 49 votos.

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Quais serão suas prioridades caso seja eleito? Descentralização do poder, separando a figura do presidente do COB da figura do presidente do conselho de administração do COB. Criação dos comitês estratégicos e executivos, com a participação dos atletas e confederações. Estruturar a sede do COB no Parque Olímpico da Barra, por meio de parceria com a Secretaria Especial do Esporte e oferecendo um espaço digno a todas as confederações e à comissão de atletas. Também estabelecer parcerias com todos os principais atores do esporte nacional, como outras confederações (CBDE, CBDU), secretarias municipais e estaduais de esporte, bem como o SESI, por exemplo.

Qual é o papel do Emanuel na chapa durante a eleição e qual será durante um possível mandato? A parceria surgiu em razão de termos um vetor fundamental como proposta, a efetiva participação dos atletas no planejamento e nas principais decisões do COB. O Emanuel tem um papel muito importante nesse contexto, que visa a aglutinar boas ideias às melhores práticas.

Qual é a tática para conquistar os atletas da comissão, que têm a intenção de votar em bloco? Aos atletas cabe enxergarem o que é proposta e o que é promessa. Têm a responsabilidade de participar de uma mudança necessária no COB.

Pesa contra a sua candidatura o fato de ter sido contrário ao aumento da participação dos atletas com direito de voto nas assembleias do COB? Muito importante ressaltar que naquela ocasião a minha intervenção na assembleia foi em razão de eu clamar pela retificação do artigo 8 do então regimento da comissão, que era altamente excludente. Ele preconizava que, para se candidatar à Comissão de Atletas do COB, os atletas teriam de ter participado de no mínimo uma das duas últimas edições dos Jogos Olímpicos, Rio e Londres. Tenistas como Guga, Maria Esther Bueno [viva na época, morreu em 2018], Fernando Meligeni, entre outros, não poderiam se candidatar se quisessem. Uma vez retificado esse artigo, no ano passado [novembro], tivemos uma Assembleia e fui um dos presidentes que defenderam a ampliação da comissão de atletas para 25 membros.

A CBT conta com patrocínio do banco BRB, firmado na época em que Leandro Cruz Fróes da Silva, ex-ministro do Esporte, foi secretário da área no Distrito Federal. Há uma parceria com ele em torno da sua candidatura? Posso responder acerca dos patrocínios da CBT. Tivemos a oportunidade de apresentar todo o portfólio de gestão, que implementamos desde março de 2017 e animou os gestores do BRB. Apresentamos, ainda, um plano comercial e que culminou com o contrato de patrocínio de R$ 2 milhões para a temporada 2020.

Além da proximidade com o Leandro Cruz, o Emanuel esteve no governo federal até junho. O que a política de Brasília poderá auxiliar no COB? O COB precisa buscar e se abrir ao diálogo com as esferas de governo, independentemente de partidos, sem personificação política. É necessária a construção de pontes nas relações com o Congresso Nacional, e o COB precisa assumir o protagonismo neste processo. O hiato existente hoje precisa ser preenchido por meio do trabalho proativo do COB junto aos governos.

O senhor foi eleito presidente da CBT em 2017 como candidato de situação de Jorge Lacerda, que foi condenado em primeira instância por desvio em verbas da Lei de Incentivo ao Esporte. O que conseguiu fazer de diferente na sua gestão que desse mais credibilidade para a CBT? Fui eleito por aclamação, com o apoio de 100% da Assembleia Geral. Na gestão liderada por mim, implementamos uma política de transparência em todas as áreas. Abrimos espaço para os expoentes do tênis nacional, unindo toda a modalidade. Todos os tenistas têm o meu contato direto e temos uma comunicação frequente e de muita qualidade. Um dos desdobramentos disso é a credibilidade da entidade.

Ter proximidade com Jorge Lacerda não se tornou um problema? Desde de que assumi a confederação, o senhor Jorge Lacerda não tem qualquer contato com a CBT.

Essa é a primeira corrida eleitoral do COB em mais de 40 anos e teve muitos embates entre os concorrentes. Isso poderá tornar a relação entre o COB e as demais confederações conflituosa após o pleito? Prezo pelo alto nível das discussões. Não acredito no embate, acredito no debate. E na certeza de que COB e CBT, CBT e COB, sempre serão parceiros, independentemente das óticas políticas dos seus representantes.

O esporte deixou de ser ministério, no governo de Jair Bolsonaro, e passou a ser uma secretaria subordinada ao Ministério da Cidadania. Houve corte de investimentos e manobra no pagamento do Bolsa Atleta. É um governo que coloca em risco o futuro dos esportes olímpicos? Vamos trabalhar para que o COB cresça em representatividade e que mostre não só à comunidade esportiva mas também à sociedade civil que o esporte brasileiro estará bem gerenciado. Trabalharemos em conjunto com outras entidades para termos força suficiente e buscarmos um crescimento político. Voltar a ter um ministério poderá ser uma consequência desse trabalho.

Rafael Westrupp e o seu vice Emanuel Rego concorrem à presidência do COB
Rafael Westrupp e o seu vice Emanuel Rego concorrem à presidência do COB - André Gemmer/Green Multimídia

RAFAEL WESTRUPP

Rafael Westrupp, 40, nasceu em Florianópolis e começou a praticar tênis aos oito anos. Foi jogador profissional e treinou o tenista André Sá, de 2009 a 2013. Também cursou administração de empresas. Em 2010, passou a presidir a Federação Catarinense de Tênis. Antes de chegar ao cargo máximo da Confederação Brasileira de Tênis (CBT), em março de 2017, foi diretor executivo e financeiro da entidade na gestão de Jorge Lacerda. O atual mandato na CBT vai até 2021, mas ele já está reeleito por mais quatro anos, até 2025

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