COB vai deixar de ficar como avestruz, afirma Helio Meirelles

Dirigente do pentatlo diz que, se for eleito presidente, ações do comitê passarão a aparecer

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São Paulo

Presidente da Confederação Brasileira de Pentatlo Moderno desde 2002, o carioca Helio Meirelles, 68, evoca o seu currículo profissional como trunfo na eleição à presidência do COB (Comitê Olímpico do Brasil).

O pleito, primeiro com mais de uma chapa inscrita desde 1979, será realizado na próxima quarta-feira (7), em um hotel na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. O atual presidente do comitê, Paulo Wanderley, e o presidente da Confederação Brasileira de Tênis, Rafael Westrupp, também concorrem.

Em entrevista à Folha por chamada de vídeo, Meirelles adotou tom bastante crítico à respeito da gestão de Paulo Wanderley, iniciada em 2017 após a prisão seguida de renúncia do ex-presidente Carlos Arthur Nuzman.

O dirigente do pentatlo comparou o comitê com um avestruz, pela lenda de que esse animal costuma esconder a cabeça em um buraco quando se vê em perigo, e também a um patinete obsoleto.

Hélio Meirelles é um dos candidatos à presidência do COB
Helio Meirelles é um dos candidatos à presidência do COB - Fabiano Veneza/Divulgação

Seu candidato a vice é o ex-velocista Robson Caetano, duas vezes medalhista olímpico. A escolha atende ao objetivo de se aproximar de um grupo que passou a ter peso significativo no pleito.

Uma mudança no estatuto do COB em 2017 ampliou de 1 para 12 o número de representantes da Comissão de Atletas nas assembleias da entidade. Apesar disso, o voto da CBPM foi contrário a essa ampliação numa primeira votação —após muita polêmica e uma nova apreciação do tema, a medida foi aprovada por unanimidade.

Meirelles diz que não esteve presente na votação porque viajou para um compromisso da federação internacional e que seu diretor financeiro acompanhou o voto de três presidentes, que ele mesmo havia sugerido seguir, contra a ampliação. "Dizer que eu votei contra não é a realidade", se justifica.

Além desses 12 atletas, formam o colégio eleitoral 35 representantes das confederações olímpicas, além dos dois integrantes brasileiros do Comitê Olímpico Internacional (COI) —o ex-jogador de vôlei Bernard Rajzman e Andrew Parsons, presidente do Comitê Paralímpico Internacional.

O pleito poderá ter até dois turnos para confirmar o vencedor, que precisará chegar à maioria dos 49 votos.

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Quais serão suas prioridades caso seja eleito? Quero dizer, antes de mais nada, sobre a importância de ter o executivo na presidência do COB, uma pessoa que foi treinada nos quadros da Petrobras, engenheiro químico, economista. Estamos propondo 40 medidas para o COB funcionar em outro ritmo. O tema principal é juntar transparência com gestão mais moderna e voltada para o resultado. Quem manda numa empresa e delibera o seu futuro são os acionistas. A diretoria executa aquilo que os acionistas desejam. No COB é o contrário, as confederações e os atletas não têm voz. Vamos mudar essa sistemática

Como? Envolver confederações e atletas desde o início do planejamento estratégico, como se fossem acionistas. A outra mudança é a área de patrocínio e marketing. Não é possível que o COB não tenha vários patrocinadores. Temos 27 federações pequenas que não têm patrocinadores e vivem pela Lei Piva [que garante transferência de recursos das loterias federais], mas com ótimos atletas. A ideia é convidá-los e, junto ao COB, fazer um pacote de valor para o mercado. Vamos receber mais recursos e rateá-los. Agência de viagem, por exemplo, cada uma [confederação] tem que ralar para fazer a sua licitação. O COB não tem uma política para ter um pacote melhor e beneficiar todos.

Quando o senhor decidiu se candidatar à presidência do COB? A nossa chapa é resultado do esforço de cinco confederações: tênis de mesa, levantamento de peso, remo, tiro esportivo e pentatlo moderno. Participamos das negociações iniciais da inserção do nosso grupo em outra candidatura. As portas, infelizmente, ficaram fechadas. Queríamos uma chapa com um atleta ou uma atleta, conversamos com cinco mulheres e três atletas masculinos. A prioridade era mulher, mas por motivos diversos elas declinaram. Houve a opção do Robson Caetano.

Qual é o papel do Robson na chapa durante a eleição e qual será durante um possível mandato? O Robson tem uma conversa muito dinâmica e estreita com os atletas, encaixou muito bem na nossa proposta de ter os atletas conosco. Vamos tratar do jovem atleta, criar uma diretoria específica de talentos e priorizar o trabalho de base, que é fundamental para formar campões olímpicos. Digo que, se recebermos os votos em bloco dos atletas, independentemente do resultado, cumprimos a nossa missão.

As confederações no Brasil são dependentes de dinheiro público e de patrocínio de estatais. É possível captar investimentos e recursos em outros campos? Vamos formar um tripé para dar visibilidade ao COB na sociedade. Ele vai deixar de ficar como avestruz e aparecer. De um lado, a nossa ideia é mobilizar ex-atletas e técnicos do hall da fama para contribuírem com sua imagem, como a cultura faz com seus artistas. Do outro lado do tripé, vamos convidar empresários com viés social para o conselho de notáveis. E na terceira perna convidar a Frente Nacional de Prefeitos para que faça parte dessa discussão. Esse sistema vai interagir e elaborar programas pedagógicos.

O esporte deixou de ser ministério, no governo de Jair Bolsonaro, e passou a ser uma secretaria subordinada ao Ministério da Cidadania. Houve corte de investimentos e manobra no pagamento do Bolsa Atleta. É um governo que coloca em risco o futuro dos esportes olímpicos? Lógico que perdemos visibilidade na medida em que deixou de existir o ministério. Era um ambiente mais propício para que o esporte se desenvolvesse. Mas é bom mensurar que, já depois dos Jogos do Rio, vimos uma redução significativa das verbas. Vamos ter Olimpíada em 2021 e precisamos manter atletas. Não vou sair de Brasília enquanto não estreitar a melhor relação para o Bolsa Atleta.

O COB, em 106 anos, teve oito presidentes. Não seria melhor fomentar a alternância de poder nas confederações? Quando o Nuzman renunciou, o Paulo Wanderley deu caminho novo ao COB, falou-se muito de transparência e todos ficaram felizes de poder ver os salários dos dirigentes, do presidente do COB. Problema maior é que o uso da verba do COB não é transparente. A assembleia de prestação de contas é o mesmo modelo do que era antes. Simplesmente projeta o relatório da auditoria independente, uma maçaroca, uma mistura de recursos públicos e privados. Tem coisas mais importantes para se atacar do que a alternância. O COB precisa deixar de ser patinete mecânica e se transformar numa locomotiva, num trem-bala de vidro.

O senhor preside desde 2002 a CBPM. Acredita que os longos mandatos contribuem para o esporte? Um presidente novo vai ter dificuldade de entender regulamentos, dificuldade de ser ouvido. O presidente [da federação internacional] do pentatlo é um alemão excelente, e está há 28 anos no cargo. Outros, como o vice, são antigos. Tudo raposa que sabe muito. Se um presidente novo chegar lá, vai ter muita dificuldade de perceber a melhor maneira de se posicionar em assuntos polêmicos.

Ex-velocista Robson Caetano é candidato à vice-presidência do COB
Ex-velocista Robson Caetano é candidato à vice-presidência do COB - Fabiano Veneza/Divulgação

HELIO MEIRELLES

Helio Meirelles Cardoso, 68, nasceu no Rio de Janeiro e preside a Confederação Brasileira de Pentatlo Moderno (CBPM) desde 2002. Também é auditor da federação internacional da modalidade. Graduado em engenharia química e economia, foi secretário estadual da Indústria e Comércio do Rio de Janeiro, em 1998, e trabalhou por 22 anos na Petrobras.

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