Folha nasceu em momento de consolidação do futebol como força popular

Jornal surgiu testemunhando período de transformações das quais o esporte não escapou

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São Paulo

Nascida em um momento de franca transformação de São Paulo e do Brasil, há 100 anos, a Folha deu seus primeiros passos testemunhando também um período decisivo para o esporte no país. Era o momento em que o futebol superava a resistência da elite, dona da bola no início do século 20, e se consolidava como força popular.

Não foram eventos meramente coincidentes na linha do tempo. Os operários que passaram a ocupar as fábricas no processo de industrialização nacional ganharam também os campos, formando seus próprios times e escolhendo o desporto antes restrito aos ricos como opção de lazer —algo registrado pela Folha da Noite, primeiro jornal da Folha, logo em sua edição número dois.

O Paulistano, do artilheiro Friedenreich (terceiro jogador da fileira de trás, a partir da esquerda), foi o campeão paulista de 1921 - Acervo/Club Athletico Paulistano

“Nem a canicula implacavel de hontem, nem as eleições federaes demoveram os nossos apaixonados de se transportarem para a Floresta”, observou o diário, em 21 de fevereiro de 1921, referindo-se —com a grafia da época— ao calor daquele domingo, ao pleito que definiu deputados e senadores da República e à região paulistana onde o Corinthians tinha seu campo, perto da atual Ponte das Bandeiras.

“Foi o bastante annunciar-se um jogo entre o quadro desta sociedade e outro do São Bento, para que o publico se alvorotasse. As archibancadas apinharam-se ás primeiras horas. Vimos aquellas mesmas caras, indefectiveis, que sempre estão juntos dos campos, a apreciar os lances dos torneios ou, nos intervallos, a commentar os ultimos succesos esportivos”, relatou a Folha da Noite.

O Corinthians venceu por 4 a 2 o amistoso, na Ponte Grande, triunfo que lhe valeu a Taça Antarctica, oferecida pela Companhia Antarctica Paulista. Longe de ser marcante na história alvinegra, o jogo mostra que a equipe do craque Neco já movimentava multidões mesmo em duelos de menor importância.

Neco (à esq.), do Corinthians, era um dos principais jogadores do Brasil - Reprodução

O atacante tivera participação valiosa na conquista do Sul-Americano de 1919, o primeiro título relevante da seleção brasileira. Ao lado de Friedenreich, do Paulistano, e Heitor, do Palestra Itália, levara a equipe ao troféu, no Rio de Janeiro, naquela que ficou marcada como a primeira tentativa de construção de uma identidade nacional em torno do futebol.

A “pátria em chuteiras”, porém, estava longe de uma unidade harmônica. Havia uma clara disputa por espaço entre os clubes tradicionais, de elite, como o Paulistano, e aqueles de operários, como o Corinthians, chamado de “time de carroceiros” pelos que desdenhavam da incursão dos pobres no esporte dos ricos.

Além da luta de classes, existia uma disputa política interestadual que se estenderia por décadas entre paulistas e cariocas. No ano em que nasceu a Folha, essa briga levou o Brasil a jogar o Sul-Americano sem atletas de São Paulo, uma exclusão que tinha também componentes raciais e deixou fora da equipe o mestiço Friedenreich.

Desfalcada de alguns de seus principais jogadores, a seleção teve uma campanha ruim no torneio, realizado na Argentina. Perdeu para os donos da casa, que seriam os campeões, e para o Uruguai, vencendo apenas o Paraguai.

Ainda não havia sido instituída a Copa do Mundo, cuja edição inaugural ocorreria em 1930. A competição que reunia equipes de vários continentes naquele momento eram os Jogos Olímpicos, e o Uruguai se estabeleceu como a Celeste Olímpica ao triunfar com a bola nos pés nas edições de 1924, em Paris, e 1928, em Amsterdã.

Antes, em 1920, na Antuérpia, o Brasil participara pela primeira vez da Olimpíada. Mas não no futebol. Em sua estreia nos Jogos, o país marcou presença na natação, no polo aquático, nos saltos ornamentais, no remo e no tiro. E foi no tiro que conquistou três medalhas, uma de ouro, uma de prata e uma de bronze.

Em solo nacional, outras modalidades eram acompanhadas pelo público. Na seção "Vida Esportiva", a Folha da Noite apresentava o resumo da jornada em itens como estes, listados na edição número um: "Athletismo", "Nautica", "Aviação", "Cyclismo" e "Turf".

Reprodução da Folha da Noite de 15 de março de 1921, que apresentava o resultado de regatas no rio Tietê
Folha da Noite noticiava as competições disputadas no então cristalino Tietê, como provas de remo, natação e "pulos ao rio" - Reprodução - 15.mar.21/Folha da Noite

Na parte náutica, dava-se atenção especial às provas realizadas no Tietê. Pode parecer inacreditável, mas o hoje ultrapoluído rio foi palco por muitos anos de competições de remo e de natação. Foi depois de comprar sua sede no Parque São Jorge, em 1926, à beira das então cristalinas águas, que o Corinthians ganhou a âncora e os remos de seu símbolo.

Se acompanhar as regatas era uma opção de lazer, também tinham grande apelo as corridas de cavalo. O turfe ocupou com destaque as páginas da Folha por algumas décadas, algo visto já na primeira edição, em 19 de fevereiro de 1921, que apresentava a programação das “grandes corridas no Hippodromo Paulistano”.

A cobertura ia além dos resultados e trazia detalhes de bastidores sobre os animais e os jóqueis. Em seu número dois, além de noticiar a chegada de um atleta argentino às pistas brasileiras, a Folha da Noite apresentava o texto “Um hippophoro”, assinado por Diagoras, que propunha um novo nome para aqueles que montavam os bichos.

“Hippophoro! Hippos: cavallo; phoros: direção, explicará o primeiro erudito versado em raizes gregas. Ora ahi está um neologismo que eu offereço ao diccionario nacionalista dos chronistas de esporte, para substituição do ‘jockey’ escandalosamente britannico...”, sugeria o autor.

Reprodução da primeira edição da Folha da Noite, de 19 de fevereiro de 1921, que trazia a programação das corridas de cavalo
Folha da Noite apresentou o programa do Jockey Club logo em sua primeira edição e deu espaço ao turfe por muitos anos - Reprodução - 19.fev.21/Folha da Noite

Ele certamente havia lido “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, de 1911, romance de Lima Barreto cujo protagonista tinha aversão aos estrangeirismos. Já o autor do livro, negro, detestava o futebol pela repulsa que o esporte demonstrava institucionalmente por pobres e pretos, como se observou na montagem da seleção para o Sul-Americano de 1921.

Barreto morreu em 1922 e não pôde ver o estabelecimento definitivo do futebol como força popular, como item fundamental na construção identitária do brasileiro. Não acompanhou a transição do amadorismo para o profissionalismo, nos anos 30, quando os jogadores passaram a receber para entrar em campo.

Talvez o escritor mudasse de ideia. Talvez mantivesse suas críticas, renováveis em um século 21 de re-elitização do futebol, com ingressos caros e evidente embranquecimento do público.

Mas foi o jogo disputado com os pés que cruzou as últimas dez décadas no gosto do povo e, por consequência, nas páginas da Folha. Os hippophoros acabaram perdendo espaço.

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