Davies quer contar ao mundo sua trajetória de refugiado a astro do Bayern

Revelação do time alemão, canadense nasceu em abrigo de Gana após pais fugirem da guerra

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Rory Smith
The New York Times

Por muito tempo, Alphonso Davies conhecia sua história apenas em linhas gerais. Seus pais tinham lhe revelado os fatos básicos, mas pouco mais: que eles tinham fugido da sangrenta guerra civil que engolfava sua Libéria natal; que ele havia nascido em um campo de refugiados em Gana onde buscaram refúgio; e que a família tinha se transferido para o Canadá quando o menino tinha cinco anos de idade.

Davies era pequeno demais não só para compreender onde estava e as coisas pelas quais sua família estava passando, mas para que aqueles anos lhe deixassem qualquer marca. Sua memória registra fatos a partir dos seis anos de idade, ou por aí, ele diz.

Ele se lembra de ter começado a estudar em Windsor, na província canadense de Ontário, mas não tem recordações de qualquer coisa que tenha acontecido antes. Os pais dele, Debeah e Victoria, nunca lhe ofereceram informações para preencher as lacunas.

Alphonso Davies comemora gol pelo Vancouver Whitecaps, time que defendeu no Canadá
Alphonso Davies comemora gol pelo Vancouver Whitecaps, time que defendeu no Canadá - Anne-Marie Sorvin - 28.jun.18/USA TODAY Sports

“Eles nunca explicaram”, disse Davies. “Não era algo sobre o que falassem. Não gostavam de falar a respeito. Foi um momento sombrio na história deles. Queriam que nós desfrutássemos de nossas vidas no Canadá, que fôssemos realmente felizes em um lugar seguro, onde tínhamos o direito de ser o que quer que desejássemos."

Davies descobriu boa parte dos detalhes de sua história pessoal mais ou menos ao mesmo tempo que todo mundo mais. No dia em que recebeu oficialmente a cidadania canadense, em 2017, o Vancouver Whitecaps, o time no qual ele tinha chegado à fama, aos 16 anos de idade, produziu um curta-metragem para celebrar a ocasião e relembrar sua jornada.

Foi a primeira vez que Davies ouviu seus pais narrarem em primeira mão o que aconteceu naquele período da vida deles –e da vida do filho—, coisas que ele nunca tinha sabido.

Eles descreveram sua decisão de fugir da violência que assolava a Libéria. Falaram sobre a vida precária em Buduburam, um campo de refugiados na periferia de Accra, a capital de Gana, onde encontraram abrigo. Falaram sobre a fome, a pobreza, a incerteza, o medo.

“Disseram que era como estarem presos dentro de alguma coisa da qual não era possível sair, porque ninguém sabia o que aconteceria se saísse”, ele disse. “Era difícil encontrar comida e água. Não dava para saber o que aconteceria no dia seguinte. Minha mãe não sabe como conseguiu me alimentar, tomar conta de mim. Ela chorou. Os dois enfrentaram muitas dificuldades, na vida deles e para cuidar de mim. Eu não sabia de coisa alguma até eles darem aquela entrevista."

Davies não foi a única pessoa que se comoveu com o relato de seus pais. Ele sempre soube que era liberiano. A música gospel que Victoria tocava a cada dia às 7h, na casa da família em Edmonton, Alberta, bastava para revelar o fato. Ele também sabia que tinha sido refugiado. “É parte de minha identidade”, disse Davies. “É parte de mim."

Mas foi só depois da entrevista de seus pais que ele começou a perceber a importância de sua história. “Muita gente me procurou na mídia social para contar o que a história tinha significado para eles”, diz o atleta. “Comecei a dar entrevistas sobre o assunto e recebei muitos retornos. É algo que abre seus olhos. Para mim, era maravilhoso que as pessoas se sentissem inspiradas pela história."

Nos dois últimos anos, Davies vem fazendo tudo que pode para contar sua história. Deu entrevistas a Gary Lineker e à BBC sobre seu passado. O Bayern de Munique —o time que o contratou junto ao Whitecaps quando ele tinha 17 anos de idade e tornou o atleta campeão alemão e europeu antes que ele chegasse ao 20º aniversário— produziu uma reportagem, filmada em Buduburam, sobre os anos iniciais de sua vida.

Alphonso Davies em partida do Campeonato Alemão pelo Bayern de Munique
Alphonso Davies em partida do Campeonato Alemão pelo Bayern de Munique - Fabian Bimmer - 13.mar.21/AFP

O mais importante, porém, foi que, nos meses iniciais do lockdown causado pelo coronavírus, no ano passado, Davies começou a usar sua fama e sua plataforma para se tornar um defensor daqueles que haviam sofrido do mesmo jeito que sua família.

Para muitas das cerca de 80 milhões de pessoas que vivem como refugiadas, espalhadas pelo planeta, ele disse, “pode ser difícil obter comida e água”. Davies prosseguiu: “Nas condições em que elas vivem, nem sempre é possível manter o distanciamento social. O acesso a vacinas é difícil. Pessoas morrem. Gostaria de dizer a elas que não estão sozinhas, que existem outras pessoas no mundo que passaram por aquilo que elas estão passando”.

Ele passou a auxiliar o trabalho que vem sendo realizado pela Agência da ONU para os Refugiados (Acnur), que ajudou a organizar o reassentamento de sua família no Canadá. Semana passada, a organização nomeou Davies como embaixador da boa vontade. Ele espera usar o posto para arrecadar dinheiro e promover a reforma das instalações futebolísticas nos campos de refugiados. Ele é o primeiro canadense e o primeiro jogador de futebol a receber essa honraria.

É justo, e de muitas maneiras diferentes. Não só pela primeira parte da história pessoal de Davies torná-lo ideal para o posto, mas porque a segunda parte de sua vida também o preparou para sua nova função. Nos seus anos iniciais no Canadá, ele teve alguma dificuldade na escola, em parte por conta da barreira do idioma, e em parte, admite, porque o estudo não o interessava tanto,

Como atleta talentoso, ele nunca teve problemas para se encaixar. Edmonton é a cidade de Wayne Gretzky, mas Davies não optou pelo hóquei no gelo. (Sua patinação melhorou nos últimos anos, ele diz.) Em lugar disso, jogou um pouco de basquete e mostrou aptidão para o atletismo. Mas o futebol foi seu primeiro amor e era seu talento evidente, o esporte no qual ele tinha crescido assistindo em companhia do pai, torcedor ardoroso do Chelsea e, especialmente, de Didier Drogba.

Davies –e isso não causa surpresa– era sempre o melhor jogador em qualquer time de que participasse. Por isso, fazer amigos não era difícil.

“A garotada via que eu era bom no esporte e por isso todos queriam ser meus amigos”, ele disse. Ser escolhido em primeiro lugar para todo time com certeza é um atalho garantido para a popularidade, na pré-adolescência. “E além disso”, afirma Davies com um ar de quem faz questão de sublinhar um argumento, “eu também era um cara cool."

Tradução de Paulo Migliacci

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