Descrição de chapéu
Futebol Internacional

Polêmica da Superliga nos questiona se amamos um esporte obsoleto

Enquanto o entretenimento se digitalizou neste século, o futebol ainda não o fez

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Bruno Maia

Especialista em inovação e novos negócios na indústria do esporte, é sócio da 14, agência de conteúdo estratégico, e lançou em 2020 o livro e o curso "Inovação é o Novo Marketing". No Twitter, @brunomaia14.

O futebol irá mudar nesta década o que não mudou em cem anos. A celeuma envolvendo a MP do Mandante no Brasil em 2020 e o esboço de criação de uma Superliga na Europa são partes de um mesmo movimento contemporâneo que quer mudanças urgentes na estrutura econômica e política do futebol, influenciado pelas novas dinâmicas de distribuição de conteúdo e, por consequência, do dinheiro envolvido nessa indústria.

Mas, assim como uma multinacional não é capaz de operar transformações profundas na mesma velocidade de uma startup, o futebol não vai virar e-Sports do dia para a noite.

No título deste artigo, aponto a contradição insolúvel a curto prazo —mãe das principais crises que o negócio do futebol vive: ele é profundamente amado, por muita gente, no mundo todo, do jeito que é. Porém, em sua forma tradicional, ele não se encaixa mais com perfeição no modelo digital de distribuição de conteúdo, que reinará pelas próximas décadas.

Câmera de TV sobrevoa jogo entre Liverpool e Manchester City na Premier League
Câmera de TV sobrevoa jogo entre Liverpool e Manchester City na Premier League - Tim Keeton - 7.fev.21/AFP

Saímos da comunicação de massa para o consumo individualizado. E isso não combina exatamente com o futebol como o conhecemos, apesar de amá-lo. Enquanto o mundo do entretenimento se digitalizou nas primeiras duas décadas deste século, o futebol não o fez.

Os clubes grandes querem mandar na estrutura e não ficar submissos às federações. Isso vale em qualquer nível: estadual, nacional ou mundial. “Mandar” não é apenas regular economicamente, mas também adaptar o produto de forma que ele possa gerar ainda mais dinheiro.

Na oposição efusiva feita por jogadores, treinadores, dirigentes e torcedores contrários à implementação da Superliga, ninguém estava lá defendendo a Fifa ou a Uefa. Estas, contudo, se apropriaram do discurso do interesse público, porque desta vez lhes convinha e servia para manter a estrutura de poder político e econômico que exercem. Se os clubes tivessem envelopado de outra forma sua oposição a esses agentes, talvez tivessem tido mais aderência da audiência. Mas atacaram o ponto errado.

A capacidade de ser universal e de criar caminhos para que um jovem nascido no interior de um país de terceiro mundo, ou times cheios de brio e talento, cheguem a ser os melhores da cidade, do país ou até do mundo é o grande barato de todos os esportes.

Como o futebol alcançou a posição de maior modalidade do planeta, esse é um bem inegociável. Porém, por trás do gesto dos clubes europeus não está atacar a audiência e seus valores, mas redefinir as tais estruturas. É fácil entender por que tenham voltado atrás da ideia estapafúrdia, como é certo de que não vão desistir do movimento de assumir cada vez mais o controle do jogo.

O estrago está causado. Grandes clubes e federações vêm se bicando no mundo inteiro há algum tempo. Não há dúvidas de que qualquer grande indústria deve ter agentes independentes de regulação. Isso vale da telefonia ao mercado financeiro, da exploração de petróleo à saúde.

Viveremos uma década de redefinição desse papel no esporte. Voltando para o entretenimento, as federações se comportaram nessa discussão exatamente como as gravadoras musicais à época do surgimento do Napster e do compartilhamento de arquivos MP3, levantando voz supostamente pela preservação dos direitos dos autores.

Vinte anos depois, a indústria musical está aí, os grandes artistas seguem ganhando dinheiro. As gravadoras continuam existindo, mas definitivamente com outro papel. Houve ganhos e perdas, porém os artistas descobriram que as multinacionais não os defendiam, e, sim, protegiam o próprio direito de lucrar abusivamente em cima da obra deles.

Para os clubes que estão em melhores condições financeiras, a mudança já se apresenta com a urgência que tem para todos. O futebol irá mudar e nós, que aprendemos essa paixão em outros tempos, teremos mais para reclamar do que para comemorar.

Já que falamos de música, na letra de “O mistério do Samba”, Fred 04 trançava linhas especulando de quem seria a propriedade daquele gênero musical. E conclui: “Como reza toda tradição, é tudo uma grande invenção”. A mudança virá. Afetará verdades e formatos aos quais temos apego e afeto, mas o futebol terá de pagar o preço que os novos hábitos de consumo exigirem, como as novas gerações inventarem. Não vai ter Fifa que consiga impedir nem executivo que consiga se impor.

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.