Descrição de chapéu The New York Times

Defender EUA na Olimpíada gera tensão para surfista havaiano John John Florence

Colonização do Havaí pelos norte-americanos é cicatriz para nativos do arquipélago

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

John Branch
Honolulu (EUA) | The New York Times

​Quando John John Florence viaja pelo mundo para competições de surfe de primeira linha, ele carrega uma bandeira com ele, que desfralda caso vença. É a mesma bandeira que decora o ombro de sua camisa e que é ostentada no placar ao lado de seu nome.

Não é a bandeira dos Estados Unidos, mas sim a bandeira do Havaí. Isso acontece porque na World Surfing League, e no mundo do surfe em geral, existe um entendimento: o atleta deve escolher entre representar os Estados Unidos ou representar o Havaí. Não pode fazer as duas coisas.

A razão mais simples para isso é que o Havaí é o local de origem do esporte e continua a ser seu coração cultural. Os moradores do Havaí –especialmente os havaianos nativos, mas também pessoas de outras etnias nascidas e criadas lá, como é o caso de Florence– se apegam àquela herança porque o surfe pode ser a mais forte das conexões cada vez mais tênues que existem entre os moradores do Havaí e a história do lugar antes da colonização.

Mas quando o surfe estrear como competição oficial na Olimpíada de Tóquio, não existirá essa distinção entre o Havaí e o restante dos Estados Unidos. O Havaí desaparecerá como uma entidade separada no surfe.

O surfista havaiano John John Florence celebra vitória em 2016 com a bandeira do Havaí
O surfista havaiano John John Florence celebra vitória em 2016 com a bandeira do Havaí - Rafael Marchante - 25.out.2016/Reuters

Dois dos quatro surfistas que formam a equipe americana, Florence e Carissa Moore, quatro vezes campeã mundial, nasceram e cresceram no Havaí e sempre competiram sob a bandeira do estado. Moore continua a fazê-lo neste mês, nos grandes torneios que a tour mundial realiza na Austrália –Florence está se recuperando de uma lesão no joelho. Os demais integrantes da equipe olímpica, Kohole Andino, da Califórnia, e Caroline Marks, da Flórida, competem sob a bandeira americana.

“Existe alguma tensão por conta disso, competir na Olimpíada sob a bandeira americana”, disse Florence em sua casa, na North Shore de Oahu, em um pátio com vista para um dos mais famosos picos de surfe do planeta. “Não quero divisão alguma. Não sou contra coisa alguma. Sou pró-Havaí.”

Florence e Moore prefeririam evitar a política, mas é impossível ignorar as ondas culturais e históricas que fervilham ao seu redor. Velhos debates voltaram a se inflamar, nos últimos anos, sobre apropriação e independência, colonização e comercialização, e sobre como proteger o que significa ser havaiano ou do Havaí.

Por toda as ilhas, em carros e nas casas, bandeiras do estado estão desfraldadas em posição invertida –um sinal de dificuldades. A disputa sobre os planos para construir um gigantesco telescópio no topo do Mauna Kea, a montanha mais alta do Havaí, ferveu em 2019 e continua a fervilhar. O projeto é visto por muitos como o mais recente exemplo de desrespeito dos forasteiros aos havaianos nativos.

Há quem diga que isso é parte de um redespertar periódico em defesa de uma cultura que muitos havaianos nativos sentem estar desaparecendo. E o pano de fundo para tudo isso é o que os americanos fizeram na década de 1890, quando depuseram a rainha do Havaí e anexaram as ilhas. Muitos havaianos continuam a ver os Estados Unidos como ocupantes ilegais.

O surfe foi quase eliminado pelos colonizadores brancos no século 19. Adicionar o esporte à Olimpíada é tanto uma causa de orgulho quanto uma forma de colocar em debate aberto as questões de identidade.

“O Havaí teve muito de sua história apagada”, disse Duane DeSoto, campeão mundial de longboard em 2010. “O surfe sobreviveu aos esforços para suprimi-lo e fazer com que desaparecesse. Suportou o desafio de ser exterminado, em dado momento. E agora precisa se tornar uma fonte de orgulho havaiano.”

Seth Moniz, que é havaiano nativo, estava disputando uma vaga na equipe olímpica dos Estados Unidos. Isso nos últimos meses de 2019, no finzinho da temporada da World Surf League, quando ninguém fazia ideia de que a pandemia postergaria a olimpíada por um ano.

A temporada da World Surf League termina tradicionalmente com o Vans Triple Crown –uma sucessão de torneios em Haleiwa, Sunset Beach e Pipeline, três praias da North Shore de Oahu. É o coração do surfe mundial, uma faixa de areia branca delimitada por uma estrada asfaltada, de um lado, e por ondas épicas, do outro.

“Seria uma honra representar os Estados Unidos, obviamente, mas eu preferiria representar o Havaí”, disse Moniz entre baterias de competição. “Eu gostaria que tivéssemos uma voz de representação. Eu e os demais surfistas havaianos talvez tenhamos de pressionar por isso, para ter a bandeira havaiana na olimpíada”.

A tour é dominada por surfistas de quatro lugares: Brasil, Austrália, Estados Unidos e Havaí. Em termos de surfe, não há conflito entre os americanos e os havaianos, apenas uma distinção. Os surfistas esperavam que houvesse equipes olímpicas separadas, nem que fosse por isso aumentar suas chances de conseguir vaga.

“Caso isso aconteça, estou na Olimpíada”, disse Kelly Slater no final de semana final do qualificativo olímpico, em dezembro de 2019.

Mas não aconteceu. Slater, da Flórida, perdeu para Florence a vaga final na equipe olímpica americana. Moniz foi o segundo mais bem colocado entre os surfistas havaianos, mas tampouco estará em Tóquio.

Fernando Aguerre, argentino que vive em La Jolla, na região de San Diego –ele e seu irmão criaram a fábrica de sandálias Reef, em 1984, e mais tarde venderam a companhia– é presidente da International Surfing Association desde 1994. E sua missão sempre foi conseguir a inclusão do surfe na olimpíada.

Criar uma equipe separada para o Havaí jamais foi considerado seriamente pelo Comitê Olímpico Internacional (COI), que aceita demarcações imprecisas quanto a algumas ilhas, usando terminologia vaga sobre sua autonomia. Porto Rico está entre os territórios americanos que enviam equipe própria à Olimpíada.

“O Havaí é diferente, no mundo do surfe”, disse Aguerre, cujo filho tem Kahanamoku como nome do meio, em honra a Duke. “Mas no mundo geopolítico, o Havaí é parte dos Estados Unidos.”

No ano passado, a Autoridade de Turismo do Havaí criou um comitê consultivo de surfe de 15 integrantes, em parte para “garantir que restabeleçamos o Havaí como o lar do surfe”, disse Kalani Kaanaana, o diretor de assuntos culturais e recursos naturais da organização.

A Olimpíada pode não ter sido a única razão para a formação do comitê, mas foi um catalisador. DeSoto é membro do comitê, que realizou sua primeira reunião este mês.

“Precisamos amplificar as vozes havaianas no surfe mundial e garantir que a cultura havaiana não seja ainda mais eliminada da cultura mundial do surfe”, disse DeSoto posteriormente. “Não ter uma equipe de surfe do Havaí representada na olimpíada é uma farsa.”

Em meio aos espectadores em Haleiwa, assistindo ansiosamente ao desempenho de seu filho, estavam Tony e Tammy Moniz. Como Keaulana, o nome Moniz tem peso na cultura do surfe havaiana. A família opera uma escola de surfe em Waikiki. Uma das filhas do casal, Keila, foi bicampeã mundial de longboard.

A família Moniz criou uma cerimônia de abertura para a tríplice coroa, com rituais havaianos, a fim de lembrar a comunidade do surfe das origens do esporte. Um pedido da Autoridade de Turismo do Havaí para que benção cultural semelhante fosse conferida aos participantes da seletiva olímpica americana foi rejeitada.

“Quando as pessoas perguntam de onde sou, a resposta é do Havaí”, disse Tony Moniz. “Ainda que nos orgulhemos de fazer parte do Estados Unidos e não desejemos ser parte de qualquer outro país, há muita animosidade, muita dor, por conta de coisas profundas que aconteceram”.

Mesmo dentro do surfe havaiano, existe uma hierarquia nuançada. As pessoas que têm raízes nativas, como Moniz, têm mais credibilidade. Florence nasceu e cresceu no Havaí, mas não tem sangue havaiano. Há quem considere Carissa Moore como a única verdadeira havaiana da equipe olímpica.

“Estou realmente orgulhosa por ter um pouco de sangue havaiano e sinto uma conexão com as pessoas e as águas daqui”, disse Moore, sentada diante de um café de Honolulu. certa tarde.

Em 2019, Moore participou de um torneio no Japão organizado pela International Surfing Association.

“Eu me enrolei na bandeira do Havaí, mas estávamos usando a camisa dos Estados Unidos”, disse Moore. “Minha sensação foi a de estar traindo o Havaí. Foi estranho”.

Sebastian Zietz, veterano surfista profissional, compete sob a bandeira havaiana. Ele nasceu na Flórida mas se mudou para o Havaí com quatro meses de idade.

“Sou um ‘haole’, um cara branco que se mudou para o Havaí, e assim não posso reivindicar coisa alguma”, ele disse. “Mas certamente mostro muito respeito a todas as pessoas locais e sempre fico atento ao meu comportamento, porque, se você conhece História, sabe que o Havaí foi derrubado ilegalmente. É por isso que eu meio que não gosto de ‘haoles’.”

O Bishop Museum, de Honolulu, é o maior museu natural e cultural do estado. No final de 2019, o museu inaugurou uma grande mostra sobre surfe, em tempo para a olimpíada. (A mostra foi prorrogada até 2021, por causa da pandemia.) A coleção incluía as mais velhas pranchas de surfe conhecidas, usadas por reis e rainhas, e pranchas usadas recentemente por Florence e Moore, a nova realeza do esporte.

Era outro lembrete nem tão sutil, para os locais e turistas igualmente, de que o surfe não surgiu na Califórnia, onde a modalidade foi declarada o esporte oficial do estado, ou na Austrália e Brasil, dois países que ocasionalmente dominam as competições mundiais.

O surfe persistiu, mal e mal, durante o declínio e a tomada do Havaí no século 19. Mas no final do século, a fotografia e a indústria de viagens ajudaram a difundir o surfe pelo mundo, rejuvenescendo-o.

Em 1885, três meninos havaianos, parte da família real, estavam estudando em Santa Cruz, Califórnia, e introduziram a prática do surfe no estado. O primeiro filme de surfe pode ter sido realizado em 1898 e mostrava a princesa Kaiulani pegando ondas em Waikiki.

Ninguém simboliza melhor o Havaí do que Kahanamoku. Nascido em 1890 e criado em Waikiki, ele se tornou o primeiro “waterman” (quem participa de esportes aquáticos) famoso do Havaí e o maior embaixador que o surfe já teve. Participou de três Olimpíadas e conquistou cinco medalhas na natação – o surfe só se tornaria esporte olímpico um século depois–, e é celebrado com uma estátua posicionada no centro de Waikiki, o coração turístico de Honolulu.

“Ele viajava e surfava, mostrando o esporte a povos de todo o mundo, e esse era seu maior dom”, disse Ezekiel Lau, um dos maiores surfistas havaianos da World Tour. “O que fez do surfe o maior presente do Havaí ao mundo.”

A popularidade do esporte cresceu, alimentada pela chegada da espuma e da fibra de vidro, pelos Beach Boys e pelos filmes de surfe, pelos “tiki bars” e pelo programa “Wide World of Sports”, da rede ABC, pela World Surf League e pela caçada aventurosa a grandes ondas que vemos hoje.

Lau está entre aqueles que estão felizes pelo surfe agora fazer parte da Olimpíada, mas que insistem em que os elos entre o esporte e o Havaí não sejam esquecidos.

Ele estava sentado em uma varanda diante de Sunset Beach, um dos grandes picos de surfe do planeta.

"Eles podem exterminar nossa população, anexar nosso reino, tomar nossas tradições de empréstimo para vender quinquilharias e promover a comercialização, é assim que pensam. Podem tentar construir telescópios, ou hotéis internacionais, ou bases militares, que ameaçam diluir nossa cultura ancestral," disse Lau. "Mas não podem tirar o surfe de nós."

“A cultura havaiana foi um pouco suprimida, mas a sensação é de que existe uma nova energia, um renascimento, ao compartilharmos nossa cultura com o mundo”, afirmou Lau. “Sinto que o surfe tem papel de destaque nisso, e que ele tenha se tornado parte da Olimpíada é muito importante para nós.”

Em Makaha, Keaulana estava sentado sob uma árvore, refletindo sobre a conexão entre Kahanamoku e os atletas olímpicos havaianos atuais.

“Conheço John John e Carissa dede crianças, desde bebês”, disse Keaulana. “Pouco importa a bandeira, eles são havaianos. E vencem pelo Havaí. Se o resto do mundo entender isso de forma diferente, tudo bem. Mas nós no Havaí os reconheceremos pelo que realmente são.”

Tradução de Paulo Migliacci

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.