Campanha pelas Diretas Já sintonizou Folha com anseio por mudança no fim da ditadura

Engajamento abriu caminho para aprofundar projeto de modernização do jornal em 1984

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São Paulo

A entrada da Folha na campanha pela realização de eleições diretas para presidente em 1984 representou uma virada decisiva na sua trajetória, aproximando-a dos leitores num momento crucial da história do país e dando impulso a um ambicioso projeto de modernização do jornal.

A Folha apoiou o golpe de 1964, como outros jornais da época, e se retraiu diante do endurecimento do regime militar nos anos seguintes, mas aproveitou o processo de abertura política iniciado com a chegada do general Ernesto Geisel à Presidência para promover várias mudanças editoriais.

Na segunda metade da década de 1970, o jornal reformulou suas páginas de opinião, abriu espaço para intelectuais que tinham sido perseguidos pela ditadura e passou a cobrir assuntos que a censura antes proibira. Em 1977, protestou publicamente contra a prisão de um dos seus colunistas, Lourenço Diaféria.

A Folha alcançara sucesso comercial nesse período, mas ainda não era reconhecida como uma publicação influente como seu principal concorrente, O Estado de S. Paulo. Na largada da campanha pelas eleições diretas, ela parecia pronta para dar um passo mais ousado em direção a esse objetivo.

O movimento teve início em março de 1983, quando a oposição no Congresso propôs uma emenda à Constituição para que os brasileiros pudessem escolher o próximo presidente pelo voto direto. Um editorial da Folha expressou apoio à ideia, mas afirmou que a mudança ainda parecia improvável.

Pouco depois, num almoço de editores com a direção do jornal, o responsável pela seção de política, João Russo, sugeriu que a Folha participasse da campanha. A proposta foi descartada. Para o dono e publisher do jornal, Octavio Frias de Oliveira, era cedo para assumir um compromisso desse tipo.

A Folha decidiu aderir à caravana em novembro, quando os organizadores preparavam o primeiro comício em São Paulo. A decisão foi tomada numa reunião da qual participaram o dono do jornal, seu filho Otavio Frias Filho, então secretário do Conselho Editorial, e Boris Casoy, que dirigia a Redação.

Havia entusiasmo também no chão de fábrica. O repórter Ricardo Kotscho apresentou à direção um plano para a cobertura da campanha, defendendo o engajamento da Folha. Passou a viajar pelo país com os políticos à frente do movimento, e sua presença no palanque era anunciada pelos oradores dos comícios.

Numa entrevista concedida à revista Lua Nova alguns meses depois, Otavio justificou a decisão como resultado de uma mistura de cálculo e intuição, uma tentativa de sintonizar a Folha com as preocupações de uma sociedade que se mostrava farta do autoritarismo e dar uma resposta a seus anseios.

"Quando esses leitores tinham uma atitude politicamente neutra, quando eles tinham uma atitude até de endossar o regime, a Folha tinha uma atitude correspondente nessa linha e, quando os leitores se deslocam para uma posição mais crítica, mais reivindicante, a Folha se desloca também", ele disse.

Para Otavio, o jornal cumpria uma obrigação ao aderir às Diretas Já. "Eu acho que, se por um lado, isso pode ser visto como oportunismo, por outro lado, também com a mesma razão, eu posso chamar de fidelidade ao grupo social para quem a gente trabalha e a quem a gente está servindo", acrescentou.

Nos dias que antecederam o comício de São Paulo, a Folha ampliou a cobertura do movimento, publicou mais três editoriais em defesa da mudança e ofereceu espaço nobre a políticos e intelectuais à frente da campanha. "Eleição direta é o caminho", foi a manchete do jornal no dia do comício.

Falhas na organização da manifestação frustraram as expectativas dos líderes do movimento, mas ele ganhou força nos meses seguintes com novos comícios e o empurrão dos governadores oposicionistas dos maiores estados, atraindo multidões vestidas de amarelo às ruas das principais cidades.

Quando os leitores se deslocam para uma posição mais crítica, mais reivindicante, a Folha se desloca também

Otavio Frias Filho

Diretor de Redação (1984-2018)

O jornal enviava repórteres da sede para reforçar a cobertura das manifestações em outras capitais e passou a publicar regularmente um roteiro com os eventos programados pela campanha. Depoimentos de personalidades em defesa das diretas eram destacados na capa do jornal quase todos os dias.

Em 25 de janeiro de 1984, no aniversário de São Paulo, a praça da Sé foi palco do maior comício realizado até então pelo movimento. A Folha afirmou que 300 mil pessoas participaram da festa, mesmo sem dispor de base segura para sustentar a estimativa, mas a imprecisão não incomodou ninguém.

A ressaca veio com a derrota da emenda Dante de Oliveira no Congresso, em 25 de abril. Faltaram 22 votos para atingir os 320 necessários para a mudança. A Folha reagiu com mais um editorial na primeira página, em que buscava reforçar seu compromisso com o leitor: "Cai a emenda, não nós".

Otavio assumiu a Direção de Redação um mês depois. Um novo projeto editorial apresentou um balanço positivo do engajamento no movimento pelas eleições diretas e abriu caminho para reformas radicais. "Antes da campanha, era difícil ignorar a Folha; depois dela, tornou-se impraticável", dizia o texto.

Eu acho que, se por um lado, isso pode ser visto como oportunismo, por outro lado, também com a mesma razão, eu posso chamar de fidelidade ao grupo social para quem a gente trabalha e a quem a gente está servindo

Otavio Frias Filho

Diretor de Redação (1984-2018)

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