Descrição de chapéu Folha, 100 datafolha

Datafolha é indissociável da redemocratização e da história do jornal

Instituto surgido há 38 anos gerou padrão-ouro de credibilidade e confiabilidade

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São Paulo

No dia 1º de maio de 1983, a Primeira Página da Folha trazia um título intrigante: "Assalto, maior medo na cidade".

Em vez de uma reportagem impressionista, talvez temperada com algum dado sobre violência de difícil aferição mesmo naquela fase final da ditadura de 1964, o texto trazia estatísticas claras sobre o que perturbava os moradores de São Paulo.

O superintendente da Folha Antonio Manuel Teixeira Mendes, que dirigiu o Datafolha por dez anos
O superintendente da Folha Antonio Manuel Teixeira Mendes, que dirigiu o Datafolha por dez anos - Reinaldo Canato - 15.mai.2019/Folhapress

Era a primeira "pesquisa Folha", nome inicial dos produtos do Departamento de Pesquisa e Informática do jornal, que seria conhecido a partir de 1984 como Instituto de Pesquisas Datafolha. Até hoje, são 8.900 levantamentos, média anual de 234 estudos, ou cerca de um novo a cada dois dias.

A trajetória do Datafolha se confunde com a da redemocratização brasileira, iniciada com o ocaso do regime, enterrado pela eleição de Tancredo Neves à Presidência em 1985.

"A opinião pública era limitada na ditadura. A Folha abriu um clarão gigantesco com a criação do Datafolha. Tudo o que aconteceu no Brasil desde então está registrado pelo instituto", diz Antonio Manuel Teixeira Mendes, superintendente da Folha, que comandou o Datafolha de 1984 a 1994.

Foi um percurso árduo e cheio de testes. Ele começou em 1982, ano em que foram reintroduzidas as eleições diretas para governador. Havia dois grandes institutos de pesquisa no país, o Gallup e o Ibope, mas eles trabalhavam basicamente para partidos políticos e empresas.

O sociólogo Vilmar Faria (1941-2001), do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), era muito ouvido pelo publisher do jornal, Octavio Frias de Oliveira (1912-2007). Em meados daquele 1982, ele ajudou o jornal a fazer um perfil de seu leitorado, para consumo interno.

"O sr. Frias queria um modo rápido e barato de fazer pesquisa eleitoral, que não dependesse dos grandes institutos", conta o sociólogo Reginaldo Prandi, também do Cebrap e professor da USP (Universidade de São Paulo).

Faria então procurou Prandi, que vinha trabalhando em uma maneira inovadora de fazer pesquisa: o ponto de fluxo, no qual os levantamentos são feitos em locais de alta circulação de pessoas com perfil diverso, para depois serem refinados por filtros etários, econômicos e sociais.

O sociólogo e pesquisador Reginaldo Prandi, fundador do Datafolha
O sociólogo e pesquisador Reginaldo Prandi, fundador do Datafolha - Zanone Fraissat - 3.dez.2019

Ele acabou apresentado a Frias por Faria, e passou a ser o consultor para as pesquisas da Folha. Em 1983, com os 30,8% de paulistanos que temiam ladrões, o trabalho veio à luz.

No ano seguinte, o publisher decidiu que deveria emancipar o trabalho do departamento de pesquisas e fundou o Datafolha, que viraria uma empresa. Imprimiu um forte caráter acadêmico à empreitada, trazendo Teixeira Mendes do Cebrap para dirigir o instituto.

O hoje superintendente, por sua vez, contratou dois uspianos para formar com ele o núcleo do Datafolha: os sociólogos Gustavo Venturi e Mauro Paulino.

A Folha estava em transformação, com o início da gestão de Otavio Frias Filho (1957-2018) como diretor. "Ele era um entusiasta de pesquisas de opinião", diz Teixeira Mendes.

Otavio implantou o Projeto Folha, iniciativa modernizante para a qual o Datafolha teve um papel central: o de fornecer objetividade à análise de realidades políticas, econômicas e sociais.

"O papel institucional do Datafolha, ancorado no Projeto Folha, é muito relevante nesses 100 anos do jornal", diz o superintendente.

O diretor-geral do Datafolha, Mauro Paulino, no cargo desde 1998
O diretor-geral do Datafolha, Mauro Paulino, no cargo desde 1998 - Reinaldo Canato - 26.nov.2019/Folhapress

À frente do instituto de 1998 até hoje, Paulino avalia que uma das contribuições fulcrais do Datafolha foi a transparência apresentada ao leitor.

"Ao divulgar dados metodológicos claros, como margem de erro e intervalo de confiança, ajudamos a esclarecer controvérsias a respeito de pesquisas. Entender o limite delas", afirma o diretor-geral.

Até então, os grandes institutos, que faziam pesquisas de mercado e eleitorais, apresentavam um pacote de certezas a seus clientes.

O rigor, trazido da estatística que ampara o trabalho sociológico nos Estados Unidos, virou padrão-ouro no mercado brasileiro.

"Outra diferença que introduzimos foi buscar informações nas entranhas do Brasil. Após 1989, fizemos pesquisas de fato nacionais, e não só em cinco capitais, como era a praxe. Assim, acabou a ideia de que Curitiba traduzia a média do pensamento em pesquisas de mercado, por exemplo", afirma Paulino.

Com efeito, desde 1991 é do Datafolha a principal pesquisa de valor de marcas do país, o Top of Mind. Temas de comportamento foram escrutinados, como lembra Teixeira Mendes, citando a influência evangélica sobre a pauta de costumes no país e o protagonismo crescente da opinião feminina.

A avaliação de multidões com método claro, inaugurada com os 310 mil paulistanos que foram às ruas acompanhar o cortejo do piloto Ayrton Senna em 1994, é outra marca do instituto.

Houve, claro, percalços. Paulino lista como um dos maiores o resultado da eleição de Jânio Quadros (PTB) à Prefeitura de São Paulo em 1985.

O ex-presidente estava atrás de Fernando Henrique Cardoso (PMDB), dentro da margem de erro. Na boca de urna, que o avanço do voto eletrônico tornou obsoleta, FHC era dado como vencedor.

Só que, ao fim, perdeu para Jânio por quatro pontos percentuais. A famosa foto de FHC sentando na cadeira de prefeito antes da hora hoje é creditada como um dos fatores para a virada.

Já no pleito de 1989 para presidente, o primeiro desde a ditadura, foi marcado pelo que o diretor-geral considera um marco: só o Datafolha percebeu a ultrapassagem de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre Leonel Brizola (PDT) no dia da eleição —o petista acabaria sendo derrotado por Fernando Collor (PRN) no segundo turno.

A confiabilidade associada ao trabalho do Datafolha também passou pela decisão, tomada no berço, de nunca trabalhar para partidos ou políticos.

Os desafios não param. A pandemia inviabilizou a pesquisa presencial com ponto de fluxo, levando a uma grande análise sobre a eficácia dos levantamentos por telefone.

Segundo Paulino, a conclusão é de que pesquisas que não sejam eleitorais, que implicam a apresentação de listas de candidatos, se mostraram confiáveis.

Com 13,8 milhões de pessoas ouvidas ao longo de 38 anos, o instituto se tornou marca indissociável da história centenária da Folha.

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