Descrição de chapéu Entrevistas históricas

Tancredo defendeu 'poderosa aliança democrática' em entrevista à Folha em 1978

Político mineiro nasceu em 4 de março de 1910, há 110 anos

São Paulo

“Temos que reunir uma poderosa aliança democrática, a fim de conjurar tais perigos”.

Esse é o trecho final e mais importante da entrevista de Tancredo Neves publicada na Folha em 26 de novembro de 1978. Foi concedida ao repórter Mauro Santayana, que trabalhava nessa época na sucursal do jornal em Belo Horizonte.

Àquela altura, Tancredo havia acabado de ser eleito senador por Minas Gerais.

Na entrevista publicada em duas páginas, o político de São João del Rei lançou alguns pontos essenciais da plataforma com a qual chegaria à Presidência da República sete anos depois.

“De modo meticuloso e articulado, Tancredo se apresenta nessa entrevista como nome confiável para ser o fiador da transição democrática”, afirma o jornalista Plínio Fraga, autor da biografia “Tancredo Neves, o Príncipe Civil” (ed. Objetiva).

“Dando voz a demandas oposicionistas ao mesmo tempo em que afagava o regime militar, Tancredo usa textualmente a expressão com a qual costuraria o acordo que sepultou a ditadura em 1985: ‘Temos que reunir uma poderosa aliança democrática, a fim de conjurar tais perigos’. É uma espécie de chamado à conclamação em torno do próprio nome”, diz Fraga.

De acordo com o biógrafo, Tancredo aproveita a entrevista para mandar recados diretos e indiretos. “À maioria oposicionista, vitoriosa em votos na eleição de 1978, diz que faria a Anistia e a Constituinte. Para se distanciar dos radicais do MDB, entretanto, defende um programa ‘rígido, ortodoxo e monetarista’ para combater a inflação, simultaneamente sinaliza a esses ao pregar o controle severo sobre as multinacionais e a remessa de lucros”, afirma o autor.

Na conversa com Santayana, Tancredo também lembra episódios de grande peso histórico que vivenciou muito de perto, como o suicídio de Getúlio Vargas. “Fui dos primeiros a entrar em seu quarto. Morreu quando Alzira Vargas e eu o ajeitávamos no leito, à espera de socorro médico”, disse o político mineiro, que foi ministro da Justiça de Getúlio.

Como lembra Fraga, Tancredo também diz que as forças que levaram à crise de 1954 e ao suicídio de Getúlio foram as mesmas do golpe militar de 1964.

“É uma aula de história contemporânea”, diz o biógrafo sobre a entrevista publicada em 1978.

Como se sabe, Tancredo foi eleito pelo Colégio Eleitoral para assumir o Planalto em 15 de janeiro de 1985. Mas morreu em 21 de abril daquele ano, sem tomar posse.

Político mineiro nasceu em 4 de março de 1910, há exatos 110 anos.

Tancredo e Sarney se abraçam em meio a muitas pessoas que sorriem e comemoram
O presidente da república Tancredo Neves (PMDB) recebe os cumprimentos de José Sarney, que se tornou presidente após a morte de Tancredo, no Congresso Nacional, em Brasília (DF) - Jorge Araújo/Folhapress

Uma longa experiência chega ao Senado

Mauro Santayana

Fazenda da Mata, em Cláudio (MG) — a capela, com sua torreta disfarçada, está a cavaleiro da casa bem antiga. É a sede da fazenda dos Guimarães-Tolentino, gente velha do oeste de Minas, em cujo clã o jovem advogado Tancredo de Almeida Neves foi buscar a esposa, em 1938 —alguns meses depois de ter sido afastado da vida pública pela "nova ordem" de novembro de 1937.

A cidade —Cláudio, a cinco quilômetros da fazenda —não se impressiona com seus títulos políticos. Para os mais idosos, Tancredo é ali apenas o "genro da dona Quita", uma senhora de olhos indagadores, que caminha desenvolta sobre o assoalho largo, como se quisesse esquivar-se dos anos por entre os móveis austeros.

É nesta fazenda que Tancredo passa o fim de semana depois do pleito. Para o repórter a conversa é safra de beira-rio. Tancredo ziguezagueia nas memórias e delas vai extraindo razões e projetos doutrinários, enquanto vagueamos entre árvores e bichos. De vez em quando o inesperado —como o tico-tico raríssimo— sugere-lhe um "bon mot".

"Os pardais que vieram na Europa e acabaram com os tico-ticos. Não só os vencendo na competição pela comida, como chupando-lhes os ovos no ninho, para ali botar os seus."

E, depois da pausa, que para no ar como exigência de atenção,

"O pardal é o melhor símbolo do capital estrangeiro." 

As muletas institucionais

— O grande problema brasileiro é institucional. O país é jovem dinâmico, apressado. As instituições envelhecem depressa e não temos a agilidade para criar diplomas jurídicos que amparem as rápidas mudanças econômicas e sociais. A Constituição de 1891 estava tão velha em 1930 quanto a Carta de Pedro 1º —e a crise começara bem antes —conduzindo-nos ao movimento da Aliança Liberal. Eu tinha 20 anos, então, e estudava direito...

Foi quando entrou para a vida pública? 
Entrei depois. Meu pai era ligado politicamente ao doutor Augusto Viegas, que me foi uma espécie de padrinho intelectual e político. Em 1932, bacharel, consegui ser nomeado promotor público em São João del Rei, graças a sua indicação. Era presidente do Estado o velho Olegário Maciel, que morreria dois anos mais tarde.

Naquele tempo era praxe que nomeados, os promotores, quase sempre filhos de famílias políticas, fossem agradecer pessoalmente ao governador. Estive em Palácio, cumpri o rito, assumi o cargo. Tinha 22 anos. Dois anos mais tarde há eleições. Doutor Augusto Viegas decide fazer-me vereador em São João del Rei. Com seu patrocínio, elegi-me sem dificuldade e assumi a presidência da Câmara.

Tancredo faz uma pausa, para lembrar que o período 1934-37 não foi ainda bem estudado no Brasil​.
Era tempo do grande conflito ideológico. O nazifascismo subia e fascinava as pessoas. Plínio [Salgado] fez o Manifesto Integralista —mas, antes dele, homens inteligentes se deixaram contaminar pelo totalitarismo, como Francisco Campos e Capanema, que retiraram da Revolução de 30 o pretexto para criar, em Minas, a Legião de Outubro, com seus "camisas-cáqui".

No outro lado estavam também homens inteligentes, dispostos. O Movimento da Aliança Nacional Libertadora, em 1935, abriu condições para o golpe de 1937. Se não houvesse o levante de novembro, teria sido difícil o país engolir o Plano Cohen e aceitar as razões do golpe, dois anos mais tarde.

E 10 de novembro de 1937 [quando Getúlio Vargas implementou o Estado Novo], como foi? 
Bem, eu era presidente da Câmara Municipal de São João del Rei. Estávamos em plena campanha eleitoral. Quem me levou o telegrama, já assinado pelo Francisco Campos como ministro da Justiça, disse-me, grave e pálido: "Não entendi bem o que diz aí, mas parece sério, doutor". Os termos eram simples: estavam dissolvidas todas as casas parlamentares e extintos todos os mandatos. Começava a nova ordem.

Eu tinha 27 anos e uma carteira de advogado. Mais uma vez contei com o doutor Augusto Viegas, que era um excelente profissional —mas só advogava para quem não podia pagar. Montei o escritório e dividi meu tempo profissional. Ao mesmo tempo que assumia causas mais ou menos rendosas, fiz-me advogado dos ferroviários da Rede Mineira de Viação, que era propriedade do Estado. Em 1938, o pessoal entrou em greve. A polícia recebeu ordem de prender todos os líderes —e também seu advogado. Fomos para Belo Horizonte, onde fiquei detido por 48 horas.

Não foi um episódio forte, a não ser por sua singularidade em minha biografia. Fui bem tratado. Mas a greve, sim, foi um acontecimento. As mulheres, em pleno Estado Novo, deitavam-se sobre os trilhos, para impedir o avanço das locomotivas. E o pagamento, atrasado de quatro meses, saiu. Esse tempo de advogado foi muito importante para o meu futuro. Pude ganhar algum dinheiro, casar-me e formar uma razoável base eleitoral futura. Até hoje tenho entre os ferroviários de Minas dedicados amigos.

O pêndulo 

Constituição de 46 não atendeu às necessidades da redemocratização

Tancredo acha que a Constituição de 1946 acolheu o otimismo do pós-guerra, e não foi um documento ajustado às necessidades da redemocratização, que se fizera sob a influência e pressão dos acontecimentos. 
Getúlio tinha uma tese, que o acompanhou até o fim da vida. Para ele, o Brasil era o único país do mundo que não podia perder uma guerra. Se a perdêssemos, dizia, o País seria fragmentado, e facilmente dominado por estrangeiros. Essa convicção, suponho, levou-o ao famoso discurso a bordo do [encouraçado] "Minas Gerais". Todos acreditavam, naquele tempo, que a Alemanha seria vitoriosa. A recuperação econômica da Alemanha, a liderança carismática de Hitler, a anexação da Áustria e dos sudetos, tudo parecia conferir a seu povo um irresistível destino imperial.

Mas, por outro lado, aqui no hemisfério estavam os Estados Unidos, com sua vitalidade de nação jovem e rica. Vargas atuou com pragmatismo. Ele sabia que nas Forças Armadas havia fortes e abertas simpatias para com Wehrmacht e para com o nacional-socialismo. Daí seu discurso famoso.

Mas se, de um lado, havia tais simpatias militares, do outro estava Osvaldo Aranha [diplomata brasileiro, chanceler do governo Vargas que apoiou a ruptura dos países latino-americanos com países do Eixo] com sua extraordinária visão política. Getúlio oscilou entre as duas pressões, até que se convenceu do partido histórica e moralmente correto. Enviamos então à Itália a Força Expedicionária Brasileira. Ora, se estávamos lutando lá fora pela democracia, como admitir a ditadura aqui? 

Tancredo faz uma pausa, para atender um chamado telefônico. Alguém lhe dá os resultados finais de Caeté, feudo do adversário Israel Pinheiro Filho. Os números lhe dão forte vantagem. Sorri:
Gente de grande consciência cívica, essa gente de Caeté. Afinal, foi lá que começou a guerra dos Emboabas.

Retorna a memória:
O movimento de 1945 não teve qualquer participação estrangeira. Houve, sim, influência norte-americana, mas não como viria a acontecer posteriormente, quando a ação foi clara. Os americanos queriam a democracia, mas o nosso povo também a queria. Getúlio, quando sentiu os ventos contrários, quis antecipar-se, com a formação dos partidos, a decretação da anistia e a convocação de uma assembleia nacional constituinte. Mas errou quando, aceitando a tese de "Constituinte com Getúlio", precipitou as coisas, nomeando Benjamim Vargas para a chefia de polícia do Distrito Federal.

Sua saída do governo se deu sem grandes traumas. Na verdade, ele foi convidado a abandonar o poder e retirou-se para o Rio Grande do Sul. Não foi exilado, não foi banido, nem foi fuzilado, como costumava, e ainda costuma ocorrer nos outros países da América Latina. Paciente e pragmaticamente esperou os fatos. Nem sequer foi punido com a inelegibilidade, recebendo a consagração nas urnas, como candidato do Senado.

Constituição de 1946

Tancredo lembra então a Constituinte de 1946.
Foi eclética a Constituição. Em alguns pontos era conservadora. Em outros, ultraliberal, até mesmo socializante. O capítulo da ordem econômica e social estava além da nossa realidade. Dir-se-ia que ela foi mesmo demagógica. Cometemos o erro de, mudando as instituições, programar modelos inexequíveis. Dutra, no entanto, soube cumpri-la naquilo que era possível. Do ponto de vista da prática política, foi hábil, convocando um governo de união nacional. Mas não soubemos aproveitar a prosperidade advinda da guerra. Desbaratamos as divisas acumuladas, prematuramente seduzidas pelo consumo de bens supérfluos.

A grande falha, reacionária, da Constituição de 1946 estava na concentração do poder presidencial. Nisso ela não só sofria a influência do sistema norte-americano, como da filosofia militar do poder. Nossos militares, sob o pensamento de Comte, sempre preferiram um presidencialismo forte. A Constituição proibia a delegação de poderes. Ora, como governar um país de nossas dimensões e dificuldades, sem a delegação? Aí reside, a meu ver, o ponto mais fraco da Carta de 18 de setembro.

​A crise de agosto 

Depois de recordar o 'queremismo' e o retorno triunfal de Vargas ao poder, em 1951, Tancredo fala de sua participação no governo. 
Em 1947 retornei à política. Augusto Viegas fora eleito para a assembleia nacional constituinte e eu me fiz constituinte em Minas, pelo Partido Social Democrático (PSD). Quando promulgamos a Constituição Estadual, de 1947, e nos transformamos em Assembleia Legislativa, fui eleito líder da bancada e líder da oposição a Milton Campos.

Em 1950, com a desistência de Augusto Viegas, disputei a Câmara Federal, elegendo-me. Em 1952, Getúlio convocou-me para assumir o Ministério da Justiça. A velha UDN não deglutira a derrota e passara para a conspiração aberta contra Getúlio. O presidente, por outro lado, sentia a necessidade de promover industrialização do país e sua independência econômica.

Ora tal projeto contrariava os interesses do imperialismo. Com a lei do monopólio estatal do petróleo e a criação das refinarias, as empresas petrolíferas internacionais passaram ao ataque. Encontraram na UDN, que buscava o poder a qualquer preço, o aliado.

Começa então a campanha sistemática contra Vargas. Muitos nela embarcaram sem saber exatamente a que interesses serviam. Nesse movimento a participação estrangeira é clara. Os norte-americanos decidem desestabilizar o regime. Usam as manobras clássicas. Era preciso fazer o cerco econômico, para promover a inflação, um dos grandes fatores de desordem política. Como o fazem? Cortam a importação de café. Somos levados a emitir, para suprir a falta de exportação. Em junho e julho, depois de uma continuada redução dos embarques, os Estados Unidos não nos compram uma saca de café.

Vem então o assassinato do major Rubem Vaz, o elemento que faltava para sensibilizar as Forças Armadas. O atentado da rua Toneleros ainda não está muito bem explicado —mas é medianamente claro que ele não servia ao interesse do governo Vargas. Instala-se então um inquérito do Galeão, com a indisciplina lavrando na Força Aérea. Quando o coronel Adyl de Oliveira declara que a família de Vargas não estava envolvida no incidente, os brigadeiros se reúnem e fazem seu famoso manifesto contra o presidente.

Como seu ministro da Justiça, cumpria-me defender-lhe as prerrogativas constitucionais de autoridade. Sugeri então que os signatários do manifesto fossem colocados em prisão domiciliar, como medida que viesse a esmorecer o movimento de indisciplina, impedindo-o de alastrar-se às outras armas. O general Zenóbio da Costa, ministro da Guerra, não dava importância ao movimento na Aeronáutica. Quando o adverti que oficiais do Exército poderiam solidarizar-se recusou o alvitre com uma frase muito a seu estilo de homem bravo:

"O papelório não tem importância. O que puser a cabeça de fora terá que ajustar as contas comigo."

O resto é conhecido. Vargas, ao saber que Zenóbio garantira a seus companheiros de farda o afastamento definitivo de Getúlio, e não sua licença temporária, matou-se. Fui dos primeiros a entrar em seu quarto. Morreu quando Alzira Vargas e eu o ajeitávamos no leito, à espera de socorro médico.

19​54/1964

Não tenho dúvida de que, em 1954, as mesmas forças que atuaram depois pretendiam instaurar o regime que viria dez anos mais tarde. Tivemos o instinto do perigo. Em São Borja, no rancho de Jango, no mesmo dia do sepultamento de Getúlio, conversamos sobre o assunto. Reunimo-nos, Osvaldo Aranha, Goulart e eu para analisar a situação. Concluímos que só com a deflagração do processo sucessório, contando com um candidato à presidência procedente de um Estado forte, e solidificando a aliança PSD-PTB, seria possível conjurar o perigo.

Ali mesmo decidimos que o candidato à presidência devia ser Juscelino. Coube a mim estabelecer os contos com o governador de Minas, que recebeu a ideia, embora consciente da grave responsabilidade assumida.

Quando Café Filho instalou seu governo, tivemos uma pequena experiência prévia de 1964. O político potiguar chegara ao poder por esses acasos do destino e se converteu em presa fácil dos radicais da UDN.

A desestabilização de Jango se fez seguindo processos adotados pela CIA

Se formos examinar quem cercava no palácio, naquele tempo, teremos homens fortes de 1964, que continuam no poder até hoje. Quando a campanha juscelinista começou a crescer, Café Filho leu, através de uma cadeia de rádio e televisão, um ultimato de oficiais-generais, todos em comando, exigindo a desistência de Juscelino [Kubitschek] à sua pretensão à presidência.

Foi um violento traumatismo para nós. Muitos se acovardaram, outros bandearam e quase todos se recolheram temendo o pior. Juscelino estava, no dia da leitura do manifesto, no interior do país, já em campanha, e não conseguimos localizá-lo. Mas tínhamos que dar a resposta imediata, para ser publicada no dia seguinte. À revelia de Juscelino, sem poder ouvi-lo, tomamos a posição de resistência e do revide.

Em casa de Augusto Frederico Schmidt, redigimos um documento que se tornou famoso, repelindo a maldita intervenção dos militares no processo político. Destacava-se no pronunciamento uma frase forte, incorporada à história política do país.

Deus poupou-me do sentimento do medo. Juscelino, ao ler o documento, retificou-se com entusiasmo.

A campanha prosseguiu, com sobressaltos. Exigiram os militares a adoção das cédulas avulsas, até então usadas. A razão da exigência era simples. Nós já havíamos distribuído pelo país inteiro as cédulas avulsas, com os nomes de Juscelino e João Goulart. Juarez Távora, candidato da UDN, não tivera tempo de fazê-lo. Aceitamos a imposição.

A intervenção de Seabra

Tancredo retorna um pouco no tempo, para fazer o elogio da dignidade do ministro da Justiça de Café Filho, Seabra Fagundes.
Os militares, prestigiados por Café Filho, haviam, sob o pretexto da comoção nacional diante da morte de Vargas, sugerido o adiamento das eleições de 1955. Ora, se elas fossem adiadas, nunca mais se realizariam —e teríamos 64 em 54. Foi a força moral e intelectual do grande mestre que impediu o atentado.

Expôs sua opinião.
Era preferível que houvesse eleições condicionadas pelos acontecimentos do que nenhuma eleição, o que ocorreria com o adiamento. Como ele [Seabra] tinha grande ascendência sobre Café, este acabou aceitando seu conselho. Houve as eleições, e Juscelino as ganhou.

E o grande erro das forças internas, batidas pela preferência popular, foi o de se associarem ao imperialismo, a fim de alcançar o poder. Prevendo que isso poderia acontecer, passamos a buscar apoio militar para a garantia da posse.

Nesse trabalho, foram notáveis, pela sua atenção, sua inteligência, força de coordenação e poder de liderança dois militares, então coronéis: os irmãos Alberto e Alexino Bittencourt. A eles se deve a articulação dos dispositivos militares que geraram o Movimento de Retorno aos Quadros Constitucionais Vigentes, sob a liderança, primeiro de Odylo Denis e, depois, de Lott [marechal Henrique Lott].

Empossado, Juscelino consegue governar sem movimentos políticos graves e com uma administração proveitosa. Superou, sem feri-lo, rigor constitucional que impedia a delegação, criando comissões que, assim, escapavam ao imobilismo burocrático e empurravam o país para a frente.

Quando houve as duas tentativas de Aragarças e Jacareacanga, que não representavam realmente grande perigo, o presidente usou da anistia. O gesto foi político —e para o qual participei intensamente —, contra a opinião dos militares.

Juscelino governou com o maior respeito à Constituição e às leis. Não se aponta em seu governo uma infração a ordem legal, nem um só atentado aos direitos humanos. Deixou o governo cercado do respeito de todos, mas não conseguiu manter o controle de sua própria sucessão.

Jânio [Quadros] se elege, então, na crista de um dos mais impressionantes movimentos populares, que só encontra paralelo no retorno de Vargas, com eleições de 1950.

Jânio recebeu o país em clima de euforia, com a inflação de 20%, nada comparada aos índices de hoje no Brasil e aos da Argentina, com 180% e do Chile, com 220%.

Para conter a inflação que os técnicos consideravam então catastrófica, logo no início de seu governo, sem uma preparação psicológico do povo, e sem sustentação política adequada, Jânio aceitou as imposições do Fundo Monetário Internacional. Passou ao tratamento de choque da inflação, com a instrução de 202.

Com isso, retirou o país do ritmo de confiança e prosperidade que se encontrava, jogando-o, da noite para o dia, em clima de recessão. A grave decisão, tomada à revelia do poder político, sem consulta ao empresariado, afetando profundamente o povo com o desemprego em massa, deixou o presidente em estado de devastação.

Seguiu-se logo o rompimento, senão ostensivo, mas potencial do presidente com a UDN, que lhe retirou a base política.​

Fosse um homem paciente, e sensível a assessoria de bons auxiliares, ele teria conjurado a crise. Mas sendo um homem assomado e surpreendente, chocou a nação com sua renúncia intempestiva. Tenho para mim que sua renúncia apenas evitou uma deposição, que seria inevitável se ele prosseguisse em seu estilo pessoal de governo e seu notório desapreço pela classe política, ainda há pouco confirmado em programa de televisão.

A situação do país exige condução hábil, ousada, como a da Espanha

Recorde-se para voltar um pouco atrás o episódio da condecoração de Che Guevara, que retirou de Jânio o respeito que lhe tinham as Forças Armadas. Foi um gesto ocioso, embora tentem hoje explicá-lo com a renúncia de Jânio, e a ausência de seu sucessor constitucional, o vice-presidente João Goulart, que se encontrava na China, abre-se a inquietação.

Não se sabe bem se a missão de Jango foi um acaso, ou preparada, a fim de dificultar sua investidura imediata, na hipótese de um retorno de Jânio ao poder.

O fato é que o regresso de Jango ao país foi uma peripécia. Ele levou três dias para chegar a Paris, e oito para atingir Montevidéu.

Nesse período, Brizola sustentava no Rio Grande do Sul a legalidade democrática, com o apoio do 3º Exército, e o Congresso encontrava na emenda parlamentarista a solução para a crise política. Ela dava uma saída honrosa para os militares que se empenhavam no impedimento da posse e facilitava a investidura de Jango.

Coube-me ir ao Uruguai parlamentar com o vice-presidente, levando-lhe o projeto de emenda. Cumpri a missão em nome de Mazilli, que no exercício da Presidência, era assistido pelo general Ernesto Geisel, chefe da Casa Militar e representante das Forças Armadas no governo.

Não foi uma missão fácil. Ao contrário. Eu sentia que os fatos me jogavam no olho do furacão da história.

A primeira resistência de Jango seria com relação ao parlamentarismo —e foi. Mas eu levava ainda duas condições: que Jango não fizesse escala no Rio Grande do Sul e que Brizola não participasse da sua posse em Brasília.  

A hora da sesta

Quando lhe falei no parlamentarismo, Jango ficou vermelho. Não podia aceitar a limitação de seus poderes constitucionais. Argumentei, durante horas, lembrando-lhe que, não aceitando a emenda, seria responsável, diante da história, pela inevitável guerra civil. E qualquer que fosse o resultado, o sangue seria debitado a sua intransigência.

Almoçamos, constrangidos. Jango pediu-me o prazo da sesta, para pensar. Depois, concordou.

Faltavam as outras condições, que eu não lhe havia exposto. Fui direto à primeira delas. "Mas tem uma coisa, você não pode parar em Porto Alegre". Jango irrompeu, com ira súbita.

"Isso não. De jeito nenhum. Prefiro renunciar." 

Nova argumentação de minha parte, paciente. Separamo-nos por alguns momentos e raciocinei.

Naturalmente os militares lhe vetavam a escala em Porto Alegre, a fim de evitar um pronunciamento seu. Decidi telefonar discretamente ao general Geisel, propondo-lhe que a escala se fizesse, desde que Jango se comprometesse, sob sua palavra de honra, que não falaria aos jornalistas, nem discursaria. Novamente, Jango concorda, depois de relutar. E a terceira condição, que me parecia a mais difícil, a ausência de Brizola em sua posse, foi surpreendentemente aceita por Goulart, sem discussão.

Jango toma posse. Eu havia conversado com ele durante várias horas e havíamos concordado, sob minha sugestão, que o cargo de primeiro-ministro seria ocupado pelo senhor Gustavo Capanema, homem respeitável por todos os títulos e com enormes experiência política.

Às seis horas da manhã, Juscelino, acompanhado de vários companheiros nossos, procuram-me para dizer-me que eu seria o chefe do Gabinete. Expus-lhes meu ponto de vista, a favor da indicação de Capanema, mas eles já haviam convencido Jango a propor meu nome ao Congresso.

Meu nome foi aprovado por unanimidade, com o apoio da UDN, inclusive. Procurei formar um ministério de conciliação nacional, a fim de restaurar a ordem constitucional.

O sistema funcionou regularmente durante dez meses. Mas a emenda parlamentarista, votada às pressas, não havia derrogado a exigência de incompatibilidade dos ministros que quisessem pleitear a reeleição para o Parlamento.

Ora, é norma indispensável aos regimes parlamentares a disputa eleitoral dos membros do governo no exercício de seus cargos. Assim não o entendeu o Congresso e tive que deixar o governo, a fim de disputar a reeleição.

Eu havia cumprido meu dever. Ajustara as coisas, enfrentara 62 greves e as resolvera politicamente. Apenas duas delas tiveram que ser resolvidas pela Justiça do Trabalho. Não houve atritos, nem casos de indisciplina militar. Nada tenho a queixar dos ministros militares que participaram de meu governo, que foram honrados e patriotas.

Com meu afastamento, começa a crise. San Thiago Dantas, indicado para suceder-me, não consegue aprovação, mas não logra organizar o gabinete. Brochado da Rocha, aprovado, não consegue governar por motivo de saúde.

Profundamente desgastado o sistema parlamentar, Hermes Lima lhe assume a chefia, a fim de liquidá-lo. Vem o plebiscito com a plena restauração da Constituição presidencialista de 1946, já profundamente abalada com a experiência parlamentarista.

As reformas passam a ser um anseio nacional porque as instituições estavam superadas pela realidade. Mas todas são lançadas ao debate de uma só vez, tumultuando o ambiente político, já debilitado. Pretendia-se, da noite para o dia, suprir todas as deficiências da ordem constitucional. Reivindicam-se a reforma constitucional, a reforma administrativa, a reforma cambial, a reforma bancária e, por último, aquela que viria a absorver todas as atenções, conflagrando o país: a reforma agrária.

Muitos a desejavam como precondição às outras reformas. Outros dela fizeram sua bandeira de agitação. A exacerbação dos espíritos gerou a turbulência em todos os setores de atividade, e esse clima favoreceu a atuação das forças alienígenas, que não viam com simpatia o governo progressista de João Goulart, já a essa altura em luta aberta contra o imperialismo econômico.

Daí para o golpe militar foi um salto. O embaixador Lincoln Gordon e seu adido militar, o coronel Walters, conforme revelam papeis oficiais norte-americanos, esmeraram-se no trabalho de demolição das últimas resistências civis e militares.

A desestabilização se fez seguindo os mesmos processos adotados pela CIA em casos idênticos: exacerbação dos sentimentos dos proprietários rurais, com a deformação deliberada dos propósitos da reforma agrária pretendida por Jango, a agitação do espantalho do comunismo, tudo isso conjugado com os nefastos efeitos da inflação que o imperialismo mais uma vez promovia, e que possibilitou o aliciamento das donas de casa em suas marchas famosas.

Tudo isso feito, foi só impulsionar o setor militar de Minas Gerais, que se revelou mais sensível à situação que se criara. Esperava-se uma grande resistência do governo João Goulart e, na previsão dessa ocorrência, uma força-tarefa norte-americana foi colocada no Atlântico Sul, para uma eventual intervenção, como, de resto, é de domínio público, através de documentos, cujas cópias as compram nos Estados Unidos a centavos de dólar.

​E o amanhã

Usáramos a manhã inteira para recorrer os caminhos rústicos que, em teia, cercam a fazenda —e os fatos, também em teia, do passado. Tancredo me fala de sua vocação bucólica, e do pouco tempo que pode passar na fazenda. Seu tempo se divide entre as residências do Rio e Brasília, a casa da família, em São João del Rei, o apartamento do genro em Belo Horizonte —e esta Fazenda da Mata, aonde vem raramente. 

Em primeiro lugar, eu decretaria a anistia, caso fosse presidente

Fala-me da política do município, das alegrias da vida no interior e corta, súbito, com uma frase séria, mas modulada por uma espécie de nostalgia do impossível.
É tudo muito bonito. Mas e a responsabilidade política para com o país? 

Reclamo-lhe a opinião sobre o futuro. Tancredo busca a sombra da longa varanda, muda o tom de voz, que passa da evocação à advertência.
Se o governo persistir ignorando o resultado eleitoral, criará um impasse do qual não sairemos, a não ser pagando um preço caríssimo, com consequências funestas para todos os setores da vida nacional. Temos todos que agir com extrema prudência, o que significa acatar a opinião nacional, mas realizar o projeto que a nação reclama com cautelas patrióticas.

Há dois acontecimentos políticos à vista de desdobramentos imprevisíveis: o regresso de Brizola, se confirmado, e o retorno de Jânio Quadros à vida política, o que me parece inevitável. Brizola, por seu carisma junto às correntes mais avançadas do pensamento político nacional, e Jânio por sua capacidade de sensibilizar as classes médias brasileiras.

Faltou ao governo, ao longo destes quase 15 anos, o senso de oportunidade histórica, e ele se perdeu no imobilismo. É bom recordar que, no Império, os conservadores realizavam mais facilmente as reformas que os liberais propunham —mas o regime implantado em 1964 ignorou todos os anseios nacionais de renovação.​

Atrevo-me a pergunta-lhe o que faria, se estivesse no lugar do general Figueiredo. Tancredo reluta, primeiro com um bom humor ("Mas eu não estou no lugar dele...") depois mais seriamente. 
Não quero aparecer como conselheiro do governo.

Enfim, fala em tese, pede-me para anotar. 
Bem, se eu fosse presidente da República, decretaria, em primeiro lugar, a anistia. Transformaria, em seguida, o Congresso. Organizaria um governo de alto nível para executar um programa rígido e ortodoxo de combate à inflação, combinando medidas monetaristas e estruturais. Estabeleceria um rigoroso programa de investimentos, atendendo às prioridades nacionais para que, em consequência do programa anti-inflacionário, a nação não fosse levada à estagnação econômica, mais funesta que a inflação.

Enfim, ajustando às condições concretas do Brasil, adotaria algo como o Programa Barre. Mas tudo isso acompanhado de uma política social de reintegração dos trabalhadores e estudantes, assegurando-lhes a participação devida na construção dos destinos nacionais. No combate à inflação, determinaria forte controle sobre as multinacionais e severas restrições à remessa de lucros.

O senador eleito de Minas, depois de uma pausa, parece assaltado por uma ideia preocupante como se um marimbondo zunisse em seus ouvidos. Percebo e indago. 
Falei no perigo que representam para a retomada de nosso processo democrático homens como Brizola e Jânio Quadros, cada um a seu lado. Temo que o represamento, tão demorado, da participação política das novas gerações venha a provocar o acirramento do radicalismo, logo no início da vida política nacional sem o AI-5. Temos que reunir uma poderosa aliança democrática, a fim de conjurar tais perigos. ​

Este texto faz parte da série Entrevistas Históricas, que lembra conversas marcantes publicadas pela Folha. ​ ​

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