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Pioneira, gráfica na sede da Folha é desmontada após 70 anos

Rotativas chegaram a imprimir 1,6 milhão de exemplares do jornal em um dia

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Máquina ao fundo de salão vazio

Desmontagem da rotativa da alameda Barão de Limeira, sede do jornal Zanone Fraissat/Folhapress

São Paulo

Um dos pilares da Folha por muitas décadas, antes da popularização da internet, a gráfica da alameda Barão de Limeira, 425, na região central de São Paulo, despede-se do jornalismo. Em processo de desmontagem iniciado no segundo semestre de 2020, a gráfica da Barão imprimiu, em seus 70 anos, uma quantidade de páginas impossível de mensurar.

Mas alguns outros números podem demonstrar sua importância. O primeiro desses é 1.613.872, o número de exemplares da Folha em 12 de março de 1995, recorde do jornal, superado naquele dia no continente americano apenas por The New York Times e Los Angeles Times (EUA).

“É difícil imaginar isso hoje. Só para imprimir aquela edição [que teve 264 páginas] foram dez dias de antecedência produzindo e um mar de gente para montar cada exemplar. Foi como ver a Serra Pelada em São Paulo”, diz o superintendente da Folha, Antonio Manuel Teixeira Mendes, sobre a edição que teve o primeiro fascículo o Atlas da História do Mundo Folha/The Times.

Outro recorde da gráfica da Barão no país foi ter rodado 1,714 milhão de exemplares, da Folha e da Folha da Tarde, do dia 5 de março de 1986.

Neste caso, a Folha trouxe o “listão de preços da Sunab” [tabela com valores fixados pelo governo], em edição disputada tão logo saía da impressão. “Muitas das pessoas que se acotovelavam na porta da Folha eram donos ou funcionários de supermercados que procuravam a lista para acertar os preços dos produtos antes das portas dos estabelecimentos serem abertas”, informou o jornal.

E não só comerciantes foram atraídos às rotativas da Barão. Nos anos 1990, quando a tiragem cresceu 112,02% com o Folhão —publicação de domingo—, lançado em 10 de novembro de 1991, foram contratados terceirizados para ajudar a montar as edições. “Pessoas em situação de rua passaram a dormir na frente da gráfica para participar do serviço e ter renda”, diz Luiz Antonio de Oliveira, diretor industrial da Folha.

Esse contingente de centenas de trabalhadores não raro colava amostras de xampu ou de outro produto nas páginas da Folha. “Havia grande demanda do comercial pelo jornal, pelos classificados. Só para imprimir a tiragem histórica de 1995, a gráfica atuava 24 horas, com cerca de 400 profissionais em turnos”, diz o empresário Adalberto Fernandes, 63, que foi gerente industrial e de operações da Folha.

Instalada em 1950, a gráfica da Barão cresceu impulsionada pelo publisher Octavio Frias de Oliveira (1912-2007). Em 1968, ele adquiriu rotativas Goss Urbanite, que permitiram uso de cor pela primeira vez. Já em 1970, a Folha comprou as Goss Metro, a segunda maior rotativa do mundo à época.

Funcionários recebem novas máquinas rotativas em frente a sede da Folha, em 1970, na Al. Barão de Limeira, em São Paulo (SP)
Funcionários recebem novas máquinas rotativas em frente a sede da Folha, em 1970, na Al. Barão de Limeira, em São Paulo (SP) - Folhapress

O pioneirismo envolveu epopeias. “No navio que trouxe as Urbanite dos EUA entrou água, e muitas peças enferrujaram. A seguradora e a Goss se disponibilizaram a produzir novas peças, mas isso atrasaria a montagem em dois anos”, diz Horacio Neves, primeiro editor de Turismo do jornal e que serviu de tradutor junto aos gráficos para o uso correto dos equipamentos.

Ele conta que Frias, repetindo sempre “Vamos trabalhar que amanhã tem jornal”, pediu que as peças fossem lixadas. “Fizemos isso e testamos, mas às vezes a tinta vermelha imprimia o jornal inteiro. Dava desespero. Mas Frias confiava que ia dar certo. E deu.”

Com as rotativas Goss Metro, que estão sendo desmontadas agora, a Folha aposentou a impressão com chumbo nos anos 70, em favor da tecnologia do off set —sistema em que um cilindro de chapa metálica e borracha passa a tinta para o papel.

Na ocasião, outros jornais já haviam abandonado o chumbo. “Mas no mundo inteiro, apenas um jornal americano usava a Goss Metro. Era o Sacramento Union. Foi incrível”, diz o engenheiro Pedro Pinciroli Júnior, que foi diretor industrial da Folha e atuou na empresa de 1967 a 1999.

As inovações permitiram economia em papel e de até 35% no custo da produção. “Nosso jeito de fazer na gráfica chamou a atenção de grandes jornais, como The New York Times”, diz Pinciroli Júnior.

As rotativas, chamadas Metro Azul e Metro Amarela, que ocupavam 613 metros quadrados, imprimiam até 250 mil cópias por hora. Cada uma era composta por diversas partes e seções. A Metro Azul, a maior delas, tinha três dobradeiras, dez unidades de impressão em preto e outras três em cores.

“Cada rotativa da Barão é um trem de dez vagões. Se um vagão estava lento, outros compensavam. Se dois puxavam mais, outros dosavam o ritmo, com inteligência industrial fantástica, feita para nunca parar”, diz Luiz Antonio.

Folha da Tarde, Notícias Populares, Gazeta Esportiva e Valor também foram impressos na Barão. “A gráfica da Folha foi lição para a vida. Pioneirismo e inteligência ali permitiam aprendizado diário”, diz Maria Antonia de Araújo, 63, que foi gerente industrial da Folha.

Muito do crescimento da gráfica, diz Teixeira Mendes, deveu-se a: 1) demanda por informações; 2) condições materiais; e 3) ímpeto da Folha em ser líder de mercado.

Mas a pressão por cor total nas páginas e a impossibilidade de ampliar o espaço da gráfica da Barão levaram a Folha a inaugurar o Centro Tecnológico Gráfico-Folha, em 1995.

Desde 2000, a gráfica da Barão imprimiu publicações de terceiros e seguiu assim até 30 de outubro de 2014, quando rodou pela última vez.

Dali continuou imponente até que, nesta pandemia, a Folha optou por desativá-la. E a qualidade do maquinário é tão alta que, até na desmontagem —a ser concluída em março—, ferro e aço das rotativas, adquiridos pela Gerdau, serão reciclados e darão vida a bens duráveis.

A área que ocupava, no térreo da Folha, poderá abrigar um restaurante. Mas, independentemente do que seja, uma pequena seção de uma dessas rotativas ficará no local como lembrança. Se ligar, ela funciona? “Não será só apertar um botão, mas, se um dia a Folha quiser, ela imprime”, diz Luiz Antônio. Nunca se sabe, afinal, amanhã é dia de jornal.

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