Eleonora de Lucena passou de redatora freelancer a editora-executiva em 17 anos

Séria e dedicada, jornalista ajudou a consolidar o Projeto Folha a partir dos anos 1980

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São Paulo

Tentar entender o mundo. Essa foi a razão para Eleonora de Lucena ter prestado jornalismo em Porto Alegre, onde nasceu. “Pensei em jornalismo logo de cara. Talvez história?” Na dúvida, entrou nas duas. Mas ela se formou apenas no primeiro curso; para o segundo, faltou um semestre.

Com uma das carreiras mais fulgurantes da Folha, Eleonora passou de redatora freelancer em 1983 a editora-executiva em 2000, o cargo mais alto a que se podia chegar então no jornal —abaixo apenas do publisher, Octavio Frias de Oliveira (1912-2007) e do diretor de Redação, Otavio Frias Filho (1957-2018).

Chefiando centenas de jornalistas e servindo de ponte entre a Redação e a direção, ela passou dez anos como editora-executiva, de janeiro de 2000 a janeiro de 2010.

retrato em preto e branco de mulher branca, de cabelos pretos lisos e óculos, sentada em uma escrivaninha, rodeada de papeis
A jornalista Eleonora de Lucena na Redação da Folha, em São Paulo, em 1988 - Bettina Musatti - 24.mai.1988/Folhapress

Séria, sem tempo para gracinhas, dedicada, intensa, às vezes dura, mas sempre educada, Eleonora ajudou a consolidar o Projeto Folha, que professa a prática de um jornalismo crítico, apartidário, moderno e pluralista, na transição entre os séculos 20 e 21.

“Ela tem sobre os ombros, já há muitos anos, a responsabilidade de editar o maior jornal do país, a Folha de S.Paulo. Discreta, fala mansa, olhar atento, não demonstra a menor intenção de ser notícia.” Assim a publicação Jornalistas & Cia apresentava um perfil da profissional escrito em 2008 pela jornalista Célia Chaim (1952-2016).

Seus 33 anos de Folha começaram em 1983, como redatora freelancer do recém-criado caderno Informática. Antes, havia trabalhado na imprensa alternativa gaúcha e também na Zero Hora. Mudou-se para São Paulo em 1981 com o marido, Rodolfo de Lucena, a quem havia conhecido nos bancos da faculdade. Ambos tiveram propostas para trabalhar na cidade, ela grávida da primeira de suas duas filhas.

Ao fazer frilas para a Gazeta Mercantil e suas várias revistas, Eleonora se aproximou do jornalismo de economia. “Gostei muito. A economia estava ganhando uma dimensão muito importante. Era a época das greves, do arrocho salarial, do movimento sindical, do segundo choque do petróleo, do fim do milagre econômico, da dívida externa, da ditadura sendo questionada”, lembra.

Em poucos meses, ela já havia conseguido uma vaga na editoria de economia da Folha, que estava em expansão. “O editor era o Aloysio Biondi, um profissional muito crítico, interessante. Ele pedia que a gente não repetisse apenas o que ouvisse, que fôssemos atrás de outros pontos de vista. Esse aspecto da pluralidade da Folha me impressionou muito.”

No ano seguinte, Eleonora assumiu a edição da seção de agropecuária, depois virou editora-assistente e, em 1988, tornou-se a editora do caderno. O passo seguinte foi a promoção, em 1992, para a Secretaria de Redação, cargo de chefia que exerceu até 2000, quando virou editora-executiva.

Entre seus trabalhos mais importantes, Eleonora destaca a edição do jornal no dia seguinte ao ataque do 11/9, em 2001. “Foi uma cobertura muito ampla, múltipla. Mobilizamos nossa rede no mundo todo, ouvimos intelectuais no mundo inteiro, uma série de visões diferentes.”

Ao deixar o cargo de editora-executiva, Eleonora voltou ao “âmago do jornalismo”, como ela diz. “Fui ser repórter especial, e foi muito legal voltar a escrever”. De 2010 a 2016, ela fez resenhas de cinema, de teatro, de livros e, principalmente, entrevistou pessoas.

É essa parte do jornalismo que baseou a criação do serviço jornalístico Tutaméia (tutameia.jor.br), em 2018, após deixar a Folha. “É o nome do último livro do do Guimarães Rosa. Mas também significa ‘merreca’”, diverte-se.

Trata-se de um site —e um canal no Youtube com 44 mil inscritos— em que ela e Rodolfo entrevistam pessoas sobre política, economia, cultura, esporte e o que mais lhes interessarem.

A gravação acontece na casa do casal, no Sumaré, região onde moram há 40 anos. Entre as centenas de convidados que passaram por sua sala de visitas, Eleonora destaca o linguista americano Noam Chomsky.

“O que fazemos é debater o Brasil. E eu, bem, continuo tentando entender o mundo”, diz. “É igual ao começo.”

Eleonora Allgayer Canto de Lucena, 63

Foi editora-executiva da Folha por dez anos, secretária de Redação por oito e editora de economia por quatro. De Porto Alegre, chegou a São Paulo, com o marido e jornalista Rodolfo de Lucena, em 1981. Ao lado dele, caminha quase todos os dias pelo bairro do Sumaré e dirige o serviço jornalístico Tutaméia.

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