Da indignação com o mico da Ilustrada ao orgulho do consórcio da Covid

A atriz e diretora Mika Lins comenta sua relação de mais de 4 décadas com a Folha

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Mika Lins

Atriz e diretora de teatro

Dos 100 anos desse jornal, eu o li praticamente todos os dias durante 42. Tinha 13 anos em 1979 quando passei a comprar meu exemplar diariamente na banca de jornal em frente à escola Vera Cruz, onde estudava.

A influência para que eu me tornasse leitora assídua veio da minha família. Meu pai chegou a me levar à sede da Folha, na alameda Barão de Limeira, onde ficava a gráfica, para que eu pudesse ver o processo de impressão do jornal.

mulher branca de cabelos pretos curto olha, sem sorrir, para a câmera. ela está em um ambiente escuro, com um maquinário de metal azul
A diretora e atriz Mika Lins em retrato feito em 2017 - Marcus Leoni - 08.ago.2017/Folhapress

Nessa época, a Folha tinha dois colunistas na Ilustrada que eu —que tinha acabado de ser apresentada a Machado de Assis na escola— adorava. Eram Lourenço Diaféria e Carlos Drummond de Andrade. Mas eu achava mesmo que era estiloso andar com meu exemplar debaixo do braço, sinal de inteligência e de que eu era quase adulta.

De famílias de esquerda, eu e minha amiga Beatriz Pacheco Jordão vendíamos adesivos em que se lia “Anistia ampla, geral e irrestrita” para colocar no vidro do carro. Me sentia engajada politicamente, e ler o jornal, mesmo sem capacidade de compreensão de questões econômicas e políticas mais profundas, afirmava uma identidade que eu, como qualquer adolescente, queria elaborar.

De certo modo, a consciência de que o jornalismo era importantíssimo para a luta pelo restabelecimento da democracia e o prazer de receber informações forjaram parte do que eu sou hoje.

De 1979 aos dias atuais, o jornal mudou muito. O espaço ocupado naquela época na Ilustrada por Tavares de Miranda, com a descrição das festas dos endinheirados quatrocentões paulistas, é hoje de Mônica Bergamo, com a coluna mais relevante do país sobre política, poder e cultura.

Em 1984, veio a campanha pelas Diretas, que teve forte adesão do jornal. Ir aos comícios vestida de amarelo e esperar a foto enorme do evento na capa no jornal do dia seguinte eram alegrias para uma então jovem atriz.

Mas nem tudo foi suave nesse relacionamento. Ao ditar e captar tendências na literatura, no teatro, no cinema e nas artes plásticas, entre outras áreas, a Folha transformou o jornalismo cultural nos anos 1980 e 1990. E nesse período, além de leitora, passei à condição de notícia, já que era um atriz profissional do teatro paulista.

Nesse sentido, fui vítima de maldades e mesquinharias publicadas no jornal, um grande impacto para uma jovem atriz que começava a construir uma carreira. Vale a pena contar porque explica um pouco a razão de continuar sendo leitora.

Aos 23 anos, eu estava protagonizando um filme americano chamado “O Quinto Macaco”, com Ben Kingsley. Consegui convencer o ator inglês a dar uma entrevista para a Folha, dizendo que seria importante para a minha carreira. Ele concordou e, juntos, demos a entrevista, que foi capa da Ilustrada em junho de 1989, com chamada na primeira página do jornal.

O título do texto unia a maldade e a inveja que o editor resolveu destilar: “Ben Kingsley filma com macacos e Mika Lins nas matas de Parati”. Fiquei muito triste, mas achei, como qualquer vítima de bullying, que reclamar seria pior.

reprodução de página antiga de jornal
Capa de Ilustrada, publicada em 19 de junho de 1989, fala das gravações do filme "O Quinto Macaco" - Acervo Folha

Um ano depois, veio outro petardo da Folha, desta vez de um crítico mais notório pela virulência do que pela cultura que gostava de exibir. Ele me chamou de “mico sexual”, talvez uma das maiores grosserias das quais fui vítima ao longo da minha carreira.

Alexandre Machado, jornalista que comandava na época um programa de TV chamado “Vamos Sair da Crise”, ligou para o ombudsman Caio Túlio Costa e reclamou do tratamento dado a mim. Machado chamou atenção para o fato de que o crítico citava outras personalidades, mas a misoginia e o machismo só foram endereçados a mim.

Caio Túlio questionou a Redação e abordou esse tema em sua coluna no domingo seguinte. “Se não administrar bem o seu reconhecido talento, [o crítico] corre o risco de virar, ele sim, o mico da crítica”, escreveu o ombudsman.

Também foi na Folha que tive a oportunidade de escrever o meu primeiro texto para um jornal. Em outubro de 2011, falei sobre a outra vida do tio Enéas. Era, na verdade, o militante David Capistrano, que tinha se escondido na minha casa quando eu era criança. Capistrano acabou sendo morto pela ditadura militar em 1974.

Nesse longo relacionamento, sempre como assinante, às vezes como notícia, fiquei irritada em algumas situações, como ao ler um editorial de 2009 que se referia à ditadura no Brasil como “ditabranda”.

Também fui tomada pela indignação ao ler “Jair Rousseff”​, o título de um outro editorial, este mais recente, publicado em 2020. A expressão juntava o primeiro nome do homem que exaltou o torturador da presidente ao sobrenome dela.

Por outro lado, me orgulhei do jornal pela criação do consórcio que reúne os números de mortos e infectados pela Covid-19, fazendo o que o governo federal decidiu não fazer nesse momento gravíssimo de pandemia.

Finalmente, não tenho como não pensar que, durante esses 42 anos de relacionamento com o jornal, passou a fazer parte da minha vida a amizade profunda com Otavio Frias Filho, o maior responsável pela modernização editorial da Folha. Entre tantas coisas, Otavio foi autor, em 1991, de um dos textos mais impactantes publicados no jornal, a carta aberta ao Collor.

Depois da sua morte, em 2018, a Folha continuou em boas mãos. Pena ele não estar aqui para as comemorações do centenário e, quem sabe, para escrever uma carta ao tirano que nos desgoverna.

Parabéns pelos 100 anos, Folha, e parabéns aos profissionais que diariamente fazem do jornal esse veículo fundamental para a nossa democracia.

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