ACM lançou projetos ousados ao comandar área comercial da Folha

Com mais de 3 décadas de trabalho no jornal, ele foi responsável por inovar os classificados e apostar em itens colecionáveis

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São Paulo

Como trabalhou por 33 anos no Grupo Folha, é grande a identidade do consultor comercial Antonio Carlos de Moura, 62, com o jornal. “Meu sobrenome sempre foi Folha: ACM da Folha, Cacá da Folha ou Moura da Folha.”

ACM, como é mais conhecido, iniciou sua carreira no jornal em maio de 1982. Teve vários cargos, culminando com o de diretor-executivo comercial do Grupo Folha, de 1992 a 2015. “Também fui responsável pelo faturamento do UOL a partir de 2005”, diz.

Embora tenha se desligado do cotidiano do jornal em 2015, ainda atua como consultor comercial do Grupo Folha.

Segundo ele, a razão de ter trabalhado tanto tempo no jornal se deveu ao fato de ser também jornalista. “Eu soube entender o raio da ação comercial e da Redação. Sempre soube onde podia pisar ou não, o que foi decisivo para minha longevidade no jornal.”

homem branco sorri com os braços cruzados, posando para a foto
Antonio Carlos de Moura, ex-diretor da Folha - Danilo Verpa - 29.jun.2021/Folhapress

Ele lembra uma situação que ilustra bem essa divisão entre os departamentos. “Tínhamos o hábito de almoçar com os clientes, dentro do jornal, às sextas. Numa dessas ocasiões, recebemos um cliente de uma montadora, um de nossos grandes anunciantes. A empresa estava lançando uma perua, com um pacote de anúncios específicos sobre o lançamento.”

ACM continua: “Durante o almoço, o cliente foi muito cordial, mas, no domingo seguinte, ele me ligou de manhã e não foi tão gentil. Com xingamentos, pediu o cancelamento da série de anúncios porque naquele dia o caderno de veículos trazia o título: ‘Montadora X lança perua Y para farofeiros’. Cancelei na hora! A Folha não tem amigos nem inimigos, tem leitores. E quer saber? A perua era para farofeiros mesmo”.

Graduado em direito na PUC-SP e em jornalismo na Cásper Libero, além de vários cursos de extensão, ACM nasceu “no tradicional bairro do Tatuapé” e completa: “Timão, ZL”, confirmando sua condição de corintiano raiz.

Contudo, uma de suas lembranças quase o desmente. “Em um desses almoços com clientes, fui à portaria do jornal recepcionar o presidente da Parmalat. Até chegar ao nono andar [onde acontecem os almoços], eu o parabenizei pelo desempenho da Parmalat [então, patrocinadora do Palmeiras] no futebol. Ele respondeu: ‘É, estamos indo bem, mas afinal qual é o seu time?’. Aí eu entrei naquele drama entre ser vendedor ou corintiano fanático e falei: ‘Palmeiras!’. Naquela noite, eu não dormi. Foi um problema de consciência abissal, mas optei por ser vendedor e não me arrependo da resposta. A satisfação do cliente em ouvir isso só não foi maior que a minha depois, quando ele anunciou comigo”, conta, rindo.

“ACM sempre foi um formador de time. Bom de montar e de administrar. E sempre vinha com projetos diferentes e ousados”, disse Antonio Manuel Teixeira Mendes, superintendente da Folha.

O sucessor de ACM, atual diretor-executivo comercial da Folha, Marcelo Benez, cita entre as várias iniciativas de seu antecessor a inserção de anúncios coloridos com alta qualidade de impressão, além do incentivo e estímulo a formatos especiais.

“Teve anúncio com aroma, com camisinha colada no jornal e até o maior anúncio sequencial do mundo, em papel, que foi um da Embraer”, lembra Benez.

Foram muitas as suas contribuições: mudou tipo de papel, formato, cores, inovou os classificados, além de lançar diversos itens colecionáveis, como atlas, livros e discos.

Tinha sempre como meta aumentar a circulação do jornal e seu faturamento. Conseguiu. No entanto, ACM costuma atribuir essas conquistas às suas equipes, embora uma delas tenha sido unicamente responsabilidade dele.

No início do governo Collor, em 1990, a Polícia Federal invadiu a Folha. Um texto publicado pelo jornal nos dias seguintes destacava a opinião de ACM sobre o episódio.

“Disse que não fazia sentido aquela invasão usando como desculpa uma questão fiscal relacionada às faturas publicitárias, pois nós estávamos implantando o que a ANJ (Associação Nacional de Jornais) havia decretado. A invasão era eminentemente política”, afirmou sobre o fato ocorrido em 23 de março de 1990. ​ ​

No intuito de agilizar a produção industrial, ACM determinou a certa altura que não haveria mais tolerância para o atraso de material publicitário a ser veiculado no jornal.

“Com o aumento da circulação que a Folha teve [anos 1990], os anúncios que chegavam tarde e atrasavam a impressão do jornal passaram a ter seus espaços preenchidos pela seguinte frase: ‘Espaço reservado para (nome da agência) e para seu cliente (nome do anunciante)’."

Contudo, a ação não foi vista com bons olhos pela diretoria, em especial pelo dono do jornal, Octavio Frias de Oliveira (1912-2007).

“Em uma reunião com o seu Frias, ele abriu o jornal, apontou para um desses espaços preenchidos com a frase e disse para mim: ‘Continuem arrogantes assim quando cair a circulação, viu? Vocês estão sendo arrogantes porque a circulação está em 1,3 milhão, 1,5 milhão [de exemplares], o faturamento está crescendo, mas eu quero ver vocês serem arrogantes assim quando as coisas piorarem’. Depois de um tempo, abolimos essa prática, e aprendi a lição. Seu Frias dizia que tínhamos de ter respeito pelo anunciante e, principalmente, por sua excelência, o leitor.”

RAIO X
Antonio Carlos de Moura, 62

Paulistano, iniciou sua carreira no jornal em maio de 1982. Tornou-se supervisor de publicidade em 1986. Em menos de um ano, já era gerente da área. Dois anos depois, tornou-se diretor de publicidade, antes de ser promovido a diretor-executivo, cargo ocupado de 1989 a 1992. Passou a ser diretor-executivo comercial do Grupo Folha, função exercida até 2015. ACM é hoje em dia consultor comercial do Grupo Folha, além de atender outros clientes de maneira independente. Representa o jornal em duas entidades, Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária) e Cenp (Conselho Executivo de Normas-Padrão).

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