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Diálogo de Hilda com mortos não tinha nada de transcendental, diz sonoplasta português

Responsável pela construção sonora do filme sobre Hilda Hilst, Vasco Pimentel falou nesta quinta (26), na Flip

Guilherme Genestreti
Paraty

A técnica da escritora Hilda Hilst de se comunicar com os mortos não tinha nada de transcendental. Era, na verdade, “a coisa mais simples do mundo”. “Qualquer um poderia fazer em casa”, segundo o sonoplasta português Vasco Pimentel.

Responsável pela construção sonora do filme “Hilda Hilst Pede Contato”, ele falou na manhã desta quinta (26), na programação oficial da Flip, com a cineasta paulista Gabriela ​Greeb.

 
O filme de ambos, que tem sua pré-estreia em Paraty, mostra o esforço da escritora em registrar suas conversas com o além. Entre 1974 e 1979, ela reuniu mais de 100 horas de gravações e chegou a participar de congressos de parapsicologia no período.

De pé no palco, atevendo-se ao que chamou de “dúvidas inúteis” que poderiam surgir, Vasco explicou o processo de Hilda: sintonizava o rádio entre frequências e gravava o som, incluindo suas evocações para um eventual diálogo.

“A singularidade dela vem do fato de ser uma poeta, uma escutadora”, segundo o português. “Poetas são antenas da nossa espécie, captam a humanidade, o antes, o depois, o porquê”, disse, citando poema de Ezra Pound.

O sonoplasta português Vaco Pimentel está no Brasil a convite da Flip. Seu ultimo trabalho no cinema foi o filme Vazante de Daniela Thomas
O sonoplasta português Vaco Pimentel está no Brasil a convite da Flip. Seu ultimo trabalho no cinema foi o filme Vazante de Daniela Thomas - Raquel Cunha/Folhapress

Para Greeb, seu filme inverte a experiência de Hilda, que morreu em 2004. “[Mostra] ela, morta, querendo falar com os vivos.” “Ela não está lá, mas a sua voz existe, está viva.”  Vasco arrematou: “Para Hilda, só faltou o cinema. E só o cinema pode fazer o que Gabi fez: tornou viva a sua voz, e chamou para o filme os seus vivos”.
 
Ao ser convidada por um dos herdeiros da poeta a fazer um documentário não tradicional sobre a homenageada da Flip, a diretora afirma que se encantou com a caixa de cassetes das gravações que ficava próxima à cama da autora, na Casa do Sol. Isso em 2008.
 
“Sabia que o filme estava dentro daquela caixa”, disse Greeb, que mostrou ao público da tenda algumas das gravações –a maioria mostra a inconformidade da escritora em não ter resposta dos mortos, que podiam incluir o pai dela, a mãe dela e autores como Kafka e Camus. 

 “Ela não ouvia conversas inteiras, eram sussurros”, disse a diretora. Em 1979, após tentativas infrutíferas de manter contato, Hilda abandonou seus experimentos parapsicológicos, não sem antes demonstrar suas inquietações pessoais aos mortos: indaga se um dia suas obras seriam traduzidas, queixa-se do fato de ter poucos leitores.
 

Entre as gravações mostradas na tenda apareceu uma em que Hilda pede “contato com o povo cósmico” para a “rede de telefonia funcionar”. “Por favor, gostaria que me indicassem se eu entendi o recado de vocês”, diz ela nos áudios.
 
A experiência de rodar uma obra que toca o paranormal foi repleta de coincidências, segundo Greeb: o filme ficou pronto uma semana antes de a Flip anunciar a autora como sua homenageada, por exemplo. Mas e fantasmas? “Não vi, tenho medo”, disse a cineasta.
 
Vasco também comentou suas impressões sobre a voz empostada da escritora paulista. “Era teatral com os amigos. Mas com os mortos, não mostrava uma voz religiosa, desesperada. Falava com eles com uma trivialidade, sem cerimonial.”

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