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Escritora portuguesa explora a alteridade em seu segundo romance

Em 'Não se Pode Morar nos Olhos de um Gato', Ana Margarida de Carvalho narra convivência de sobreviventes de naufrágio

A escritora Ana Margarida de Carvalho
A escritora portuguesa Ana Margarida de Carvalho - Adriana Morais/Divulgação
Rita Mattar
São Paulo

Não se pode morar nos olhos de um gato

  • Preço R$ 49,90 (376 páginas)
  • Autor Ana Margarida de Carvalho
  • Editora Dublinense

O intrépido leitor que ultrapassar a arrebentação dos capítulos iniciais de "Não se Pode Morar nos Olhos de um Gato", segundo romance da escritora portuguesa Ana Margarida de Carvalho, será agraciado com uma narrativa histórica poderosa de atualidade inquietante. 

Não se trata, contudo, de tarefa ligeira. Narradas por uma santa de madeira amarrada ao mastro de um navio negreiro clandestino em fins do século 19, as primeiras páginas do romance —que antecedem o naufrágio da embarcação—  serão especialmente desafiadoras ao leitor brasileiro, para quem o estilo algo beletrista pode soar excessivo. Uma profusão de longas descrições regadas a referências gilvicentescas fortalece ainda mais essa primeira impressão, mas, superado o mareio inicial, a prosa toma um rumo claro e se assenta num ir e vir que é tão ameno na superfície quanto cruel no desenrolar.

Sobrevivem ao naufrágio oito personagens-tipo: a altiva esposa do dono do navio e sua filha, um padre, o capataz cruel, de chicote sempre à mão, o fiel ajudante do feitor, uma criança de colo negra, salva dos porões do navio pelo ajudante, um escravo e um jovem passageiro solitário. 

Quatro vezes por dia, quando a maré engole a areia da praia deserta em que se encontram, eles são obrigados a se refugiar numa caverna do costão rochoso que os espreme contra o mar. Noite após noite, os anti-heróis deste romance inglório vão sendo reduzidos à mesma condição de gatos pardos, gradativamente despidos de suas roupas e convenções sociais. 

Aos episódios cotidianos da praia intercala-se a história de cada personagem, descortinada pelas mãos hábeis de uma escritora de grande controle narrativo. Cada um a seu modo, todos os membros do desditoso grupo contribuem para um respeitável inventário da infâmia humana: estupros, incestos, castigos, crimes e pecados vicejam em solo fértil ao egoísmo e ao preconceito de toda ordem.

Dona de uma forte personalidade estilística, a escritora se movimenta com prazer e desembaraço pelo universo do sofrimento, e não há mazela humana que ela não coroe com uma imagem inusitada, com frequência de forte pendor escatológico. O uso reiterado do recurso pode não primar pela sutileza, mas o resultado —encharcado de sangue, pus, urina e toda sorte de excrementos— não sai prejudicado, pelo contrário, causa impressão.

Filha do escritor Mário de Carvalho e irmã da poeta Rita Taborda Duarte, Ana Margarida de Carvalho atuou como jornalista por 25 anos antes de se lançar à ficção com "Que Importa a Fúria do Mar", vencedor em 2013 do Grande Prêmio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores.

Em 2016, ela repetiu o feito com "Não se Pode Morar nos Olhos de um Gato", entrando para o seleto grupo de escritores (do qual fazem parte António Lobo Antunes e Agustina Bessa-Luís) a receber o prêmio duas vezes.

Finalista do Prêmio Oceanos de 2017, o livro foi lançado no Brasil pela editora Dublinense e integra a coleção Gira, coordenada por Reginaldo Pujol Filho, dedicada à produção contemporânea em língua portuguesa de fora do Brasil. 

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